Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

Escuto essa descrição com frequência, e ela quase sempre vem com a mesma pergunta no fim, "será que estou enlouquecendo?". A mulher conta que estava fazendo alguma coisa banal, lavando louça, dirigindo, deitada às três da manhã, e do nada o coração disparou, o ar faltou, veio um calor que ela não sabe dizer se era da menopausa ou do medo.

Mulher madura sorrindo perto de uma janela

E o que mais assusta não é nem o episódio em si. É o fato de que ela nunca foi assim. Atravessou coisas muito piores na vida sem ter isso, e agora, numa fase em que teoricamente deveria estar mais tranquila, o corpo começou a reagir de um jeito que ela não reconhece.

Como é a crise de ansiedade na menopausa

A crise costuma chegar sem aviso e passar em alguns minutos, deixando um cansaço enorme atrás dela. O que aparece no corpo:

  • Coração acelerado ou batendo forte, às vezes com a sensação de que vai sair pela boca.
  • Falta de ar, aperto no peito, um nó na garganta.
  • Calor súbito, suor, formigamento nas mãos.
  • Tontura, sensação de que vai desmaiar ou de que o chão saiu do lugar.
  • Um medo difuso e muito concreto ao mesmo tempo, de que algo grave está acontecendo agora.
  • Acordar de madrugada já com o coração disparado, sem sonho nenhum para explicar.

A confusão com a onda de calor é constante, e faz sentido, porque as duas coisas compartilham quase todos os sinais no corpo. Muitas mulheres passam meses sem saber se aquilo era o fogacho ou se era angústia, e às vezes é as duas coisas juntas, uma disparando a outra.

Antes de qualquer coisa, uma orientação prática, crise de ansiedade com aperto no peito e falta de ar precisa de avaliação médica, sempre, e na primeira vez. Não é para descartar como "é da idade" nem como "é emocional". Só depois de o médico afastar causa cardíaca ou hormonal é que faz sentido olhar para o resto, e este texto trata do resto.

Por que a crise de ansiedade aparece agora, e não antes

Existe uma explicação hormonal, e ela é real. A queda do estrogênio afeta os mesmos sistemas do cérebro ligados ao humor e ao sono, e isso deixa o corpo mais reativo, com o alarme mais fácil de disparar. Quem cuida dessa parte é o médico, e vale cuidar.

Mas repare numa coisa, se fosse só hormônio, todas as mulheres teriam crise de ansiedade na menopausa, e não é o que acontece. Muitas atravessam a fase com desconforto físico e nenhuma angústia dessas. A queda hormonal explica por que o alarme ficou mais sensível. Ela não explica o que está sendo alarmado.

E é aí que a idade entra de um jeito que quase nunca é falado. A menopausa não chega sozinha, ela chega junto com uma safra de outras coisas, os filhos saindo de casa ou deixando de precisar, os pais adoecendo ou morrendo, o casamento chegando a um ponto que pede revisão, a carreira num lugar que ou já se estabilizou ou já não vai mudar. É muita coisa acontecendo no mesmo período da vida.

Por que "é só hormônio" não explica a crise de ansiedade

Quando a mulher procura ajuda e ouve que é da menopausa, a frase costuma ter uma intenção boa, de tranquilizar. Só que ela produz um efeito estranho, porque transforma tudo o que está sendo sentido em efeito colateral de uma glândula.

O problema prático disso é que ela sai da consulta sem lugar nenhum para pôr o que sente. Se é só hormônio, não há o que pensar, não há o que falar, é esperar passar ou repor. E quando o tratamento hormonal melhora o calor e o sono mas a angústia continua, ela conclui que o problema agora é ela.

Por exemplo, é comum uma mulher relatar que a reposição resolveu boa parte dos sintomas físicos e mesmo assim ela continua acordando às quatro da manhã com o peito apertado. Isso não significa que o tratamento hormonal falhou. Significa que existe alguma coisa ali que não era hormonal desde o começo.

O que a análise enxerga por trás da crise de ansiedade

A psicanálise entende a angústia como um sinal, não como o problema em si. Ela avisa que existe algo pedindo elaboração, alguma coisa que está pressionando e ainda não encontrou palavra.

Na menopausa, o que costuma estar pressionando tem a ver com perda, e com um tipo de perda que a nossa cultura não deixa nomear direito. Não é a perda da fertilidade em si, porque muitas dessas mulheres não queriam mesmo ter mais filhos. É a perda da possibilidade, que é diferente. É a porta se fechando numa coisa que ela nem queria, mas que enquanto estava aberta dizia algo sobre quem ela era.

Some a isso tudo a questão do corpo. Uma mulher que passou a vida inteira sendo olhada de um jeito começa a ser olhada de outro, ou a não ser olhada, e isso mexe com uma parte da identidade que ela talvez nem soubesse que estava ali. É uma reorganização silenciosa e profunda de quem ela é, feita sem nenhum ritual e quase sempre sem ninguém para conversar.

A crise de ansiedade, nessa leitura, não é o defeito. É o corpo avisando que tem coisa demais acontecendo sem passar pela palavra.

Crise de ansiedade não é enlouquecer

Essa é a frase que mais aparece, e ela merece resposta direta, não, você não está enlouquecendo, e não, você não ficou fraca de uma hora para outra.

O que assusta de verdade nessa fase não é a crise de ansiedade em si, é a sensação de não se reconhecer. A mulher que sempre foi a pessoa firme da família se pega chorando com propaganda. A que nunca perdeu a paciência se irrita com o barulho da mastigação. E ela conclui, sozinha, que está se perdendo.

Não está. Está atravessando uma transição que o corpo faz de forma visível e que a vida psíquica faz em silêncio, e as duas coisas juntas dão essa impressão de estranhamento. Nomear isso já muda alguma coisa, porque o que assusta não tem nome ainda.

O que ajuda de verdade

Vou ser honesta sobre o que ajuda pouco, respirar fundo durante a crise de ansiedade alivia o episódio e não impede o próximo. Chá, exercício e sono bom fazem diferença real na base, mas não tratam o que está por trás. São apoio, não tratamento.

O que muda de fato costuma envolver três frentes ao mesmo tempo. A avaliação médica, para cuidar da parte hormonal e afastar outras causas. Um espaço de escuta onde ela possa falar dessas perdas sem ouvir que é bobagem ou que é da idade. E, em alguns casos, avaliação psiquiátrica, quando a angústia está intensa a ponto de atrapalhar o funcionamento.

E ajuda muito uma coisa simples que quase ninguém oferece, alguém que escute aquilo como assunto sério, e não como fase. Muita mulher chega ao consultório dizendo que é a primeira vez que fala disso em voz alta, depois de meses.

Quando procurar ajuda

Vale procurar se as crises estão se repetindo, se você começou a evitar lugares ou situações com medo de que aconteça de novo, se o sono não volta ao normal, ou se a sensação de não se reconhecer está durando semanas.

Também vale se você já cuidou da parte médica, os exames estão bem, o tratamento hormonal está em dia, e mesmo assim alguma coisa continua apertando. Isso é o sinal de que sobrou algo para ser falado.

E se em algum momento aparecer o pensamento de não querer mais estar aqui, procure ajuda no mesmo dia. O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, é gratuito e sigiloso.

Se você quiser um espaço para olhar isso com calma, agende uma primeira conversa. Atendo online para todo o Brasil, e trabalho especificamente com mulheres nessa fase. Este texto trata de uma das portas de entrada; o panorama completo está em os sinais emocionais da menopausa, e o percurso do tratamento em como a psicanálise ajuda mulheres no climatério.

Vale dizer que a crise de ansiedade na menopausa é reconhecida também pela ginecologia. A FEBRASGO, a federação brasileira de ginecologia e obstetrícia, aponta entre os efeitos dessa fase as alterações psicológicas, a ansiedade e a irritabilidade, e inclui o aporte psicológico entre os cuidados do climatério. Ou seja, procurar escuta aqui é parte do tratamento, não exagero.

Se o tratamento hormonal melhorou os sintomas físicos da menopausa, por que a ansiedade continua?

Porque nem tudo o que se sente nessa fase é hormonal. É comum uma mulher relatar que a reposição resolveu boa parte dos sintomas físicos, como o calor e o sono, e mesmo assim continuar acordando de madrugada com o peito apertado. Isso não significa que o tratamento falhou, significa que existe alguma coisa ali que não era hormonal desde o começo, e que pede um tipo diferente de cuidado.

Uma crise de ansiedade com aperto no peito na menopausa precisa de avaliação médica?

Sim, sempre, e na primeira vez. Não é para descartar como "é da idade" nem como "é emocional". Só depois de o médico afastar causa cardíaca ou hormonal é que faz sentido olhar para o resto.

Respirar fundo ou tomar chá resolve a crise de ansiedade na menopausa?

Ajuda pouco, sozinho. Respirar fundo durante a crise alivia o episódio, mas não impede o próximo. Chá, exercício e sono bom fazem diferença real na base, mas não tratam o que está por trás, são apoio, não tratamento.

A crise de ansiedade na menopausa é reconhecida pela medicina, ou é só uma questão emocional?

É reconhecida também pela ginecologia. A FEBRASGO, a federação brasileira de ginecologia e obstetrícia, aponta as alterações psicológicas, a ansiedade e a irritabilidade entre os efeitos dessa fase, e inclui o aporte psicológico entre os cuidados do climatério.

Continue lendo sobre menopausa

Priscila Soares Falchi
Privacidade

Usamos os cookies para entender como é sua navagação no site, para assim melhorar sua experiência com atualizações futuras!