Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André
Quando procurar um psicólogo

Quando procurar um psicólogo

A pergunta que mais chega até mim, antes mesmo da primeira sessão, é se aquilo que a pessoa está sentindo já é motivo suficiente. Ela costuma dizer alguma coisa como "não sei se é caso de terapia" ou "tem gente passando por coisa muito pior". Eu entendo de onde isso vem, mas essa comparação atrapalha mais do que ajuda.

Não existe uma medida mínima de sofrimento para procurar um psicólogo. O critério não é a gravidade do que aconteceu com você, e sim o quanto aquilo está ocupando o seu dia. Uma pessoa pode estar bem por fora, com trabalho, família e vida social funcionando, e mesmo assim carregar um cansaço que ela não consegue explicar para ninguém.

Não precisa estar em crise

Muita gente espera chegar no limite para procurar um psicólogo, como se a terapia fosse um pronto-socorro. O problema é que, quando a crise chega, a pessoa já vem de meses ou anos empurrando alguma coisa com a barriga, e aí o trabalho começa num momento em que ela tem menos energia para fazê-lo.

Procurar antes da crise é uma forma de prevenção, não exagero. Por exemplo, quem começa a análise num período mais calmo consegue olhar para a própria história com mais espaço, sem a urgência de apagar um incêndio. E quando a vida aperta de novo, e ela sempre aperta em algum momento, essa pessoa já tem um lugar construído onde falar.

Os sinais de que é hora de procurar um psicólogo

Não existe uma lista fechada, porque cada história é uma história. Mas alguns sinais aparecem com muita frequência em quem chega ao consultório:

  • Você acorda cansada mesmo tendo dormido, e esse cansaço não passa no fim de semana.
  • Coisas que antes te davam prazer foram perdendo a graça, e você nem percebeu quando isso começou.
  • Você se pega repetindo o mesmo padrão em relações diferentes, sempre com o mesmo desfecho.
  • Existe uma irritação de fundo que aparece por motivo pequeno, e depois vem a culpa por ter reagido assim.
  • Você evita determinados assuntos, lugares ou pessoas, e já organizou a rotina em volta dessa fuga.
  • O corpo está falando: insônia, dor de cabeça, aperto no peito, estômago embrulhado, sem causa clínica que explique.
  • Você percebe que está funcionando no automático, cumprindo tarefas sem estar de fato ali.

Se você reconheceu alguns desses, isso não quer dizer que exista um diagnóstico esperando por você. Quer dizer que tem alguma coisa pedindo espaço para ser dita, e é disso que a análise trata.

O que as pessoas acham que não conta, mas conta

Existe uma lista de motivos que as pessoas descartam sozinhas, achando que são pequenos demais, e que na verdade são material de trabalho legítimo.

Por exemplo, dificuldade de tomar decisões, mesmo as simples. Ou aquela sensação de estar sempre em dívida com alguém. Ou não conseguir dizer não, e depois passar dias remoendo. Ou ainda a impressão de que a sua vida está boa no papel, mas você não sente o que imaginou que fosse sentir.

Nada disso precisa virar sintoma grave para merecer atenção. O sofrimento que se repete e não encontra saída sozinho já é razão suficiente, e o fato de outras pessoas terem problemas maiores não diminui o seu.

"Mas eu consigo lidar sozinha"

Provavelmente consegue mesmo, porque você vem conseguindo até aqui. A questão é a que custo, e por quanto tempo mais.

Lidar sozinha costuma significar administrar o sintoma, dormir menos, se distrair mais, evitar o assunto, se manter ocupada. Isso funciona por um tempo, mas não elabora nada, e o que não é elaborado tende a voltar, muitas vezes em outra forma.

Psicóloga anotando durante sessão de atendimento

A análise oferece uma coisa que a conversa com amigos, por melhor que ela seja, não oferece, alguém que escuta sem estar envolvido na sua história, sem precisar te consolar rápido e sem ter opinião sobre o que você deveria fazer.

O que o trabalho com um psicólogo não é

Parte da dúvida sobre procurar um psicólogo vem de uma expectativa que não corresponde ao que acontece de fato, e vale desfazer isso antes de começar.

A terapia não é alguém te dizendo o que fazer. Eu não vou te dar conselho sobre terminar uma relação, pedir demissão ou perdoar alguém, porque essas decisões são suas e só fazem sentido quando partem de você. O que a análise faz é te ajudar a entender de onde vem a dificuldade de decidir.

Também não é um espaço de desabafo apenas. Desabafar alivia por algumas horas, e isso tem valor, mas se fosse suficiente uma conversa com uma amiga resolveria. O trabalho analítico é outro, procura o que se repete, o que está por trás do que se repete, e o que aquilo protege.

E também não é um processo rápido. Por exemplo, uma questão que se organizou ao longo de vinte anos não se desfaz em quatro sessões. Isso não quer dizer que você vai passar anos sofrendo do mesmo jeito, porque o alívio costuma vir bem antes do fim do processo, mas é honesto dizer que é um processo.

O custo de adiar

Quase todo mundo que chega ao consultório diz a mesma frase em algum momento dos primeiros meses, "eu devia ter procurado antes".

No tempo de espera, a questão costuma se acomodar em vez de sumir. A pessoa vai construindo a vida em volta da dificuldade, e por exemplo deixa de aceitar convites, evita determinado tipo de conversa, escolhe trabalhos que exijam menos exposição. Quando ela finalmente procura um psicólogo, não é só a questão original que está ali, mas também tudo o que ela deixou de fazer por causa dela.

Isso não é motivo para culpa, porque adiar faz parte, e ninguém procura um psicólogo antes de estar pronto. Mas é motivo para não adiar mais depois que a pergunta já apareceu.

Como é a primeira conversa

Uma dúvida comum é o que a pessoa vai falar na primeira sessão, e o medo de não saber explicar direito o que está sentindo. Isso não é problema, é o ponto de partida.

A primeira conversa serve para você contar o que te trouxe, do jeito que conseguir, e para nós duas percebermos se faz sentido seguir juntas. Não precisa preparar nada, não precisa organizar a história em ordem cronológica, e não tem resposta certa. Muita gente chega dizendo "não sei nem por onde começar", e isso já é um começo.

Também não existe compromisso de continuar. Se depois dessa conversa você achar que não é o momento, ou que prefere outro psicólogo, está tudo bem.

Online ou presencial

Essa dúvida aparece bastante, e a resposta honesta é que o formato importa menos do que as pessoas imaginam. O que sustenta o processo é o vínculo e a regularidade, não a sala.

O atendimento online tem vantagens concretas, economiza o deslocamento, encaixa melhor em rotinas apertadas, e permite continuar o processo mesmo se você mudar de cidade. Por exemplo, quem viaja a trabalho com frequência costuma manter a análise sem interrupção, o que seria difícil no presencial.

O que ele exige é um cuidado prático, um lugar reservado, onde você fique à vontade para falar em voz alta sem se preocupar com quem está ouvindo. Isso faz uma diferença que se percebe logo.

Como escolher o psicólogo

Duas coisas são objetivas e você pode conferir antes de qualquer conversa. A primeira é o registro no Conselho Regional de Psicologia, que todo psicólogo tem e pode informar. A segunda é a formação, principalmente a abordagem com que a pessoa trabalha, porque isso muda bastante o tipo de trabalho que vocês vão fazer.

A terceira coisa não é objetiva, mas é a que mais pesa, como você se sentiu na primeira conversa. Não precisa ser conforto imediato, porque falar de coisas difíceis não é confortável. Mas precisa ter a sensação de que ali é um lugar onde você pode falar sem ser julgada.

Quando procurar um psicólogo com urgência

Tudo o que escrevi até aqui vale para um processo que se constrói com tempo. Mas existem situações em que a busca precisa ser imediata, e é importante dizer isso com clareza.

Se você tem pensamentos de tirar a própria vida, ou de se machucar, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, é gratuito e sigiloso. Se houver risco imediato, o pronto-socorro mais próximo ou o SAMU pelo 192.

Isso não substitui um processo terapêutico, mas é o cuidado que vem primeiro.

Se você chegou até aqui e reconheceu alguma coisa sua, agende uma primeira conversa. Eu atendo online para todo o Brasil, e a gente vê com calma se faz sentido seguir.

Quando a dúvida é sobre o formato, o que a pesquisa mostra e o que diz a norma do Conselho está reunido em psicanálise online. E quando o que traz até aqui é uma relação que se repete sempre do mesmo jeito, o nome disso costuma ser dependência emocional.

Uma orientação que vale para qualquer profissional que você procurar, e não só para mim, todo psicólogo no Brasil precisa ter registro ativo no Conselho Regional, e isso é público. Você pode conferir o número de qualquer profissional no Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia, mantido pelo Conselho Federal. O meu é CRP 06/200925.

Se eu consigo lidar sozinha, ainda vale a pena procurar um psicólogo?

Provavelmente você consegue mesmo, porque vem conseguindo até aqui. A questão é a que custo e por quanto tempo mais. Lidar sozinha costuma significar administrar o sintoma, dormir menos, se distrair mais, evitar o assunto, o que funciona por um tempo, mas não elabora nada. O que não é elaborado tende a voltar, muitas vezes de outra forma.

Motivos "pequenos", como dificuldade de dizer não, justificam procurar terapia?

Sim. Dificuldade de tomar decisões, mesmo as simples, a sensação de estar sempre em dívida com alguém, não conseguir dizer não e depois remoer por dias, ou sentir que a vida está boa no papel mas não sentir o que imaginava sentir, são motivos que as pessoas costumam descartar como pequenos demais, mas que na verdade já são material de trabalho legítimo.

O atendimento online tem alguma desvantagem em relação ao presencial?

A principal exigência é um cuidado prático, ter um lugar reservado, onde você fique à vontade para falar em voz alta sem se preocupar com quem está ouvindo. Fora isso, o online tem vantagens concretas, como economizar o deslocamento e permitir continuar o processo mesmo se você mudar de cidade.

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Dependência Emocional: quando o amor vira necessidade

Dependência Emocional: quando o amor vira necessidade

Quando o amor vira necessidade

Uma coisa é sentir falta de alguém que a gente ama, e outra bem diferente é sentir que não consegue respirar sem essa pessoa por perto. A primeira faz parte de qualquer relação afetiva e é até bonita, mas a segunda costuma ser o começo de um sofrimento que se repete, uma relação depois da outra, sempre com o mesmo roteiro.

Escuto essa história com frequência no consultório, e quase sempre com as mesmas palavras, porque a pessoa chega e diz que sabe que não deveria, mas não consegue. Ela já entendeu tudo racionalmente, já ouviu conselho de todo mundo em volta, e mesmo assim continua exatamente onde estava.

A dependência emocional não chega anunciada, ela vai se instalando devagar, com cara de dedicação, de amor grande, daquele "eu faço qualquer coisa por você". Por exemplo, você deixa de ir num aniversário porque a outra pessoa não estava bem naquele dia, e depois deixa de ir num segundo, e num terceiro, até que um dia você percebe que já organizou a sua vida inteira em volta do humor de alguém.

Mulher com expressão preocupada e ansiosa, sinal de dependência emocional em um relacionamento

O que é dependência emocional

Dependência emocional é quando a pessoa passa a precisar do outro para se sentir inteira. Cuidado existe em toda relação boa, e companheirismo também, mas o problema está quando essa necessidade passa por cima do próprio desejo e a pessoa começa a viver em função do que o outro sente.

Quem vive isso costuma descrever sempre a mesma cena, que começa com aquela angústia que aperta quando a outra pessoa demora a responder uma mensagem, passa pelo alívio imediato quando ela finalmente responde, e termina na sensação de estar o tempo todo medindo a temperatura da relação, como quem checa a febre de hora em hora para ver se piorou. No fim das contas, o dia inteiro fica bom ou ruim dependendo de como o outro acordou.

Preciso dizer uma coisa aqui, porque a internet estragou um pouco essa conversa, e é que dependência emocional não é falta de amor próprio e também não é fraqueza de caráter. É um jeito de se vincular que foi construído ao longo de uma história, e toda história tem os seus motivos.

Como a psicanálise entende isso

A psicanálise não olha para a dependência emocional como um defeito que precisa ser corrigido, e sim como uma repetição, ou seja, alguma coisa que se organizou muito cedo na vida da pessoa e continua acontecendo porque nunca encontrou outro caminho possível.

Nas primeiras relações da vida, a criança aprende o que ela precisa fazer para ser cuidada. Se esse cuidado veio de um jeito imprevisível, ora presente ora ausente, ela acabou aprendendo que amor é uma coisa que se conquista com esforço permanente e que pode ser retirada a qualquer descuido, e essa lição não se apaga com o tempo, ela vai se atualizando a cada relação nova.

Daí vem uma coisa que parece contraditória, mas não é. A pessoa costuma escolher, sem perceber, parceiros que reproduzem exatamente aquele clima de instabilidade que ela conheceu, e isso não acontece porque ela goste de sofrer, e sim porque aquele terreno é o único que o corpo dela reconhece como amor. Por exemplo, uma relação estável e tranquila pode até parecer sem graça para quem aprendeu que amor é tensão.

Freud deu um nome para esse funcionamento, que é compulsão à repetição. Não é o prazer que se repete, mas a tentativa de dar um desfecho diferente para alguma coisa que ficou em aberto lá atrás.

Sinais de que a relação virou dependência

Nenhum sinal sozinho quer dizer alguma coisa, porque o que pesa é o conjunto e principalmente a repetição ao longo do tempo:

  • Você foi largando atividades, amizades ou projetos que eram importantes para você, e nem percebeu direito a hora em que isso aconteceu.
  • A ideia de terminar provoca um medo que vai muito além da tristeza que qualquer separação traz.
  • Você evita conflito mesmo quando alguma coisa te machuca, com medo de que a pessoa se afaste.
  • Antes de decidir qualquer coisa, você passa por uma pergunta silenciosa, que é como ele ou ela vai reagir a isso.
  • Você se anula em várias áreas da sua vida, e chama isso de maturidade ou de dedicação.
  • Você já tentou sair mais de uma vez, e voltou, mesmo sabendo que nada tinha mudado.

Se vários desses pontos fizeram sentido para você, isso não quer dizer que a relação precisa acabar, e sim que existe alguma coisa ali pedindo para ser olhada com mais cuidado.

A diferença entre amar e precisar

Uma coisa é escolher e amar uma pessoa, outra bem diferente é achar que precisa dessa pessoa para viver. O problema está quando o outro passa a ser a sua razão de viver.

Se uma relação é sustentada pelo amor, existe espaço para discordar, e existe espaço para ter uma vida própria ao lado da pessoa. Por exemplo, haver um espaço onde o outro pode viajar um fim de semana, sem que isso vire uma crise. Em qualquer relação existe risco, mas o risco é suportável.

Quando o que sustenta é a necessidade, esse risco vira ameaça, e qualquer sinal de distância dispara um alarme que, para quem olha de fora, parece exagero. Mas para quem está sentindo, é bem concreto, porque vem em forma de falta de ar, peito apertado e pensamento acelerado que não desliga a noite inteira.

O que a análise oferece

O trabalho não começa tentando convencer ninguém a terminar a relação, ele começa entendendo o que aquela relação sustenta, o que ela protege, e qual história antiga está tentando ser reescrita ali dentro.

No meio do caminho, quase sempre aparece a mesma descoberta, que é perceber que muito daquilo que ela chamava de amor era, na verdade, medo. Medo de ficar sozinha, medo de não ser suficiente para ninguém, e medo de descobrir que, sem aquela relação, ela não sabe direito quem é.

Leva tempo, e não é por preguiça do processo, porque não se trata de aprender uma técnica nem de seguir um passo a passo. Trata-se de conhecer a própria história a ponto de não precisar mais repeti-la.

O que muda no final não é a intensidade do afeto, porque a pessoa continua amando do mesmo jeito de antes. O que muda é a possibilidade de escolher, ou seja, ela passa a conseguir ficar, se for isso que ela quiser, e passa a conseguir sair, se for isso que ela precisar. Quando essas duas coisas se tornam possíveis ao mesmo tempo, a dependência acabou.

A ligação com a ansiedade

Muita gente chega ao consultório falando de ansiedade, e só depois vai descobrir que essa ansiedade estava amarrada a uma relação, o que faz todo sentido, porque quando o seu equilíbrio depende do comportamento de outra pessoa, o corpo entra em estado de alerta permanente, tentando prever uma coisa que não dá para prever.

Esse estado de alerta cobra caro, e ele aparece como insônia, como dificuldade de se concentrar no trabalho, e como aquela inquietação que não passa nem nos momentos bons da relação. Por exemplo, dá para estar num jantar tranquilo com a pessoa e mesmo assim ficar monitorando o celular dela, o tom de voz, a expressão do rosto.

Para a psicanálise, a ansiedade é um sinal e não é ela o problema em si, porque o que ela está fazendo é avisar que existe alguma coisa ali pedindo para ser elaborada. Na dependência emocional, o que costuma estar embaixo desse sinal é o medo do abandono, mas esse medo quase nunca nasceu na relação atual, ele só foi reativado ali.

Se esse ponto te interessa, escrevi também sobre ansiedade e recalque, que trata do que acontece quando emoções e desejos ficam represados sem encontrar saída.

Dá para sair desse lugar

Dá para sair desse lugar, sim, e isso não depende de força de vontade, ao contrário do que muita gente acredita.

A saída não vem de uma decisão tomada num momento de raiva, nem de uma lista de regras sobre como se comportar dentro de uma relação. Ela vem de entender o que está sendo repetido ali, e principalmente de entender por quê.

Esse entendimento de que eu falo não é o intelectual, porque quase todo mundo que vive uma dependência emocional já sabe que aquela relação faz mal e mesmo assim continua nela, ou seja, saber sozinho não basta. O que a análise permite é outra coisa, que é construir devagar uma relação diferente consigo mesma, até que a presença do outro deixe de ser condição para você existir.

Quando procurar ajuda

Não precisa esperar uma crise para procurar ajuda, porque se você se reconheceu na leitura deste texto, ou se percebe que o mesmo padrão vem se repetindo em relações diferentes, isso já é motivo suficiente.

A dependência emocional costuma vir acompanhada de ansiedade, de sintomas no corpo e, muitas vezes, de quadros depressivos. Tratar só o sintoma, sem olhar o que está sustentando ele, traz alívio por um tempo, mas o padrão volta na relação seguinte.

O atendimento em psicanálise e psicologia clínica é esse espaço, um lugar para falar sem ser julgada, onde aquilo que se repete pode enfim ser entendido.

Se você quiser conversar sobre isso, agende uma consulta. Eu atendo online, para todo o Brasil.

Se a sua dúvida agora for sobre como funciona a terapia a distância, reuni o que a pesquisa mostra e o que mudou nas regras em psicanálise online.

Uma orientação que vale para qualquer profissional que você procurar, e não só para mim. Todo psicólogo no Brasil precisa ter registro ativo no Conselho Regional, e isso é público. Você pode conferir o número de qualquer profissional no Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia, mantido pelo Conselho Federal. O meu é CRP 06/200925.

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Psicanálise online: como funciona, o que dizem os estudos e o que mudou nas regras

Psicanálise online: como funciona, o que dizem os estudos e o que mudou nas regras

Quem pensa em começar uma psicanálise online chega quase sempre com a mesma dúvida, "mas online funciona igual?". E o que pesa nessa dúvida quase nunca é a tecnologia. O que preocupa mesmo é se dá para construir aquele tipo de vínculo, aquele grau de intimidade, com uma tela no meio.

É uma pergunta legítima, e ela merece resposta com dado e não com propaganda. Reuni aqui o que a pesquisa mostra, o que mudou nas regras do Conselho Federal de Psicologia em 2024, como a sessão funciona na prática, e também em que situações o presencial continua sendo mais indicado. Porque existem essas situações, e omiti-las seria desonesto.

O que mudou nas regras em 2024

Muito do que circula na internet sobre atendimento psicológico online está desatualizado, e vale começar por aqui.

Em 2024 entrou em vigor a Resolução CFP nº 9/2024, que regulamenta o exercício profissional da Psicologia mediado por Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação, as TDICs, em território nacional. Ela revogou expressamente as duas normas anteriores, a Resolução CFP nº 11/2018 e a Resolução CFP nº 04/2020.

A mudança mais sentida na prática é que a obrigatoriedade de cadastro prévio na plataforma e-Psi deixou de existir. Hoje, para atender psicanálise online, o requisito é ter inscrição ativa no Conselho Regional e seguir as diretrizes éticas e técnicas da profissão.

Há um ponto da resolução sobre psicanálise online que merece destaque porque tem efeito direto sobre você. A norma estabelece que é responsabilidade do profissional avaliar se o atendimento online é adequado à demanda apresentada, observando as evidências científicas. Ou seja, não é um "vale tudo". Cabe a quem atende dizer, com honestidade, quando a psicanálise online não é a melhor forma.

Sessão de psicanálise online por videochamada

Funciona mesmo? O que dizem os estudos

A pergunta que mais interessa é se a relação terapêutica se sustenta pela tela. Ela é o centro do trabalho, e sem ela não há processo.

A pergunta do vínculo tem resposta em pesquisa, e ela é recente. Uma meta-análise publicada em dezembro de 2024 no Journal of Telemedicine and Telecare reuniu 18 estudos que compararam a aliança terapêutica por vídeo e presencial. O resultado não mostrou nenhuma diferença estatisticamente significativa, tanto na avaliação de quem é atendido quanto na de quem atende.

Vale entender o que "aliança terapêutica" mede, porque é exatamente o que preocupa quem hesita. É a qualidade do vínculo, o acordo sobre os objetivos e a sensação de estar sendo entendida. Era esse o ponto da dúvida, e é sobre ele que os dados falam.

Outra meta-análise de 2024, na Clinical Psychology Review, foi por outro caminho e reuniu 31 estudos, com quase 5 mil participantes, para ver se um vínculo mais forte no atendimento a distância leva a um resultado melhor. Leva. O efeito é modesto, mas consistente, e maior quando o vínculo é medido mais adiante no processo, o que faz sentido para quem trabalha com o tempo da análise.

No Brasil, a revisão sistemática de Feijó e colaboradores, publicada em 2021 na Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, analisou 16 estudos e encontrou indícios de eficácia do atendimento pela internet para vários transtornos. Um achado dela merece destaque, as intervenções conduzidas por um psicoterapeuta foram superiores às automatizadas e aos materiais de autoajuda. O que faz diferença é ter alguém escutando do outro lado.

E aqui vem a ressalva que os próprios autores fazem, e que eu repito. A maior parte dessa literatura foi produzida com Terapia Cognitivo-Comportamental, e ainda faltam estudos brasileiros em abordagens psicodinâmicas, que é o caso da psicanálise. Prefiro dizer isso do que fingir uma certeza que a pesquisa ainda não tem.

Outra ressalva, essa prática. Os resultados valem quando as condições técnicas e de contexto são adequadas. Uma sessão em conexão ruim, num lugar sem privacidade, com interrupção a cada dez minutos, é uma sessão prejudicada.

Como é uma sessão de psicanálise online, na prática

A estrutura é a mesma de sempre, e é essa constância que sustenta o trabalho.

São 50 minutos, no mesmo dia e no mesmo horário toda semana, por vídeo, numa sala com link próprio. Você entra pelo computador ou pelo celular, não precisa instalar nada complicado, e não há gravação de nenhum tipo.

A sessão não segue roteiro nenhum. Você fala do que estiver ali, inclusive quando não souber nomear direito, e é comum começar sem saber o que dizer. Não existe assunto pequeno demais, e não é preciso preparar nada antes.

A frequência semanal não é um detalhe comercial. O que foi dito numa sessão continua produzindo efeito durante a semana e volta transformado na seguinte. Encontros muito espaçados perdem esse fio, e boa parte do tempo acaba indo para atualizar o que aconteceu em vez de aprofundar.

O que não muda em relação ao presencial

  • O sigilo. As mesmas obrigações éticas valem integralmente, e são as mesmas do consultório.
  • A duração e a frequência. Cinquenta minutos, uma vez por semana.
  • O método. Você fala o que vier, eu escuto, e a gente vai entendendo junto. A psicanálise online não muda de técnica por ser a distância.
  • A transferência. Aquilo que se repete nas relações e reaparece na relação com quem escuta acontece igual pela tela, e é material de trabalho do mesmo jeito.
  • O compromisso. Faltar é faltar, e a regularidade continua sendo o que sustenta o processo.

Esse quarto item costuma surpreender quem não conhece o trabalho analítico. A relação com o analista é onde os padrões aparecem para serem vistos, não algo neutro nem acessório. E ela se estabelece por vídeo do mesmo jeito, ainda que muita gente estranhe isso no começo.

O que muda de verdade

Seria fácil dizer que não muda nada, e não seria verdade.

O espaço muda, e esse é o ponto mais concreto. No consultório, o espaço é dado e protegido. Você entra, fecha a porta, e aquele lugar é da sessão. Na psicanálise online, esse espaço você precisa construir, e isso exige um mínimo de organização de quem atende e de quem é atendido.

Muda também o que se vê. A tela mostra o rosto e recorta o corpo. Alguma coisa da postura, do gesto, do modo de sentar se perde. Em compensação, o rosto fica mais próximo do que ficaria numa sala, e muita expressão sutil aparece com mais clareza.

E muda a transição, que é a parte menos falada. Quem vai ao consultório tem o percurso da ida e da volta, e esse tempo faz parte do processo, é nele que muita coisa assenta. Na psicanálise online, a sessão acaba e a vida está do outro lado da porta. Vale criar uma transição própria, nem que sejam dez minutos sem fazer nada antes de voltar ao dia.

Para quem a psicanálise online funciona bem

Na prática, a psicanálise online costuma funcionar especialmente bem para:

  • Quem tem agenda apertada e desistiria da terapia pelo deslocamento.
  • Quem mora longe de onde há profissionais da abordagem que procura.
  • Quem tem dificuldade de locomoção, por saúde ou por circunstância.
  • Mães e cuidadoras, que raramente conseguem duas horas seguidas fora de casa.
  • Quem viaja com frequência e perderia a continuidade.
  • Quem sente vergonha de ser visto entrando num consultório, o que ainda pesa mais do que se admite.

Repare que quase todos esses casos têm a ver com manter a continuidade. É aí que a psicanálise online ganha, e é provavelmente o que explica os resultados favoráveis nos estudos.

Quando a psicanálise online não é o melhor caminho

Esta seção existe porque a Resolução de 2024 coloca essa avaliação como responsabilidade de quem atende, e porque um texto que só elogia o online não estaria sendo honesto com você.

O presencial, ou um acompanhamento mais intensivo e em rede, costuma ser mais indicado em situações de risco à vida, em quadros psicóticos graves, em crises que exijam suporte imediato e presença física, e em contextos onde a pessoa não tenha nenhum lugar reservado para falar com privacidade.

Essa última situação é mais comum do que parece, e não tem a ver com renda. Tem a ver com quem mora com quem. Se você não tem onde falar sem ser ouvida, isso precisa ser dito logo na primeira conversa, porque muda o que é possível fazer.

Se for o seu caso, eu digo com clareza e ajudo a pensar num encaminhamento. Isso faz parte do trabalho.

O que você precisa do seu lado

Menos do que se imagina, mas não é nada.

Um lugar reservado, onde você fique à vontade para falar e eventualmente para chorar sem se preocupar com quem está ouvindo. Uma conexão razoável, que não precisa ser rápida, precisa ser estável. Fones de ouvido, que ajudam mais do que parece, tanto na privacidade quanto na concentração. E cinquenta minutos protegidos, sem outras janelas abertas e com o celular no silencioso.

Quem atende de casa costuma descobrir que o carro estacionado é uma das soluções mais usadas por quem não tem privacidade dentro de casa, não uma piada.

Sigilo e segurança

O sigilo profissional vale integralmente no atendimento online, nos mesmos termos do Código de Ética da profissão. Não há gravação de sessão, e os registros clínicos são guardados fora do site, sem trafegar por ele.

O sigilo só é rompido nas hipóteses previstas em lei e na ética profissional, como risco à vida da pessoa atendida ou de terceiros, e determinação judicial. São as mesmas hipóteses de qualquer atendimento, presencial ou não.

Como começar

O primeiro passo é uma conversa, e ela serve para você me contar o que está acontecendo e para a gente ver se faz sentido seguir junto. Sem compromisso de continuar, e sem precisar chegar sabendo explicar direito o que sente.

Se você quiser entender melhor antes de decidir, escrevi também sobre como funciona o divã virtual. E se a dúvida for sobre a construção do vínculo pela tela, tratei disso em transferência no ambiente virtual.

Quando quiser dar o primeiro passo, agende uma primeira conversa. Atendo online para todo o Brasil.

A psicanálise online funciona tão bem quanto a presencial?

Uma meta-análise publicada em dezembro de 2024 no Journal of Telemedicine and Telecare reuniu 18 estudos que compararam a aliança terapêutica por vídeo e presencial, e o resultado não mostrou nenhuma diferença estatisticamente significativa, tanto na avaliação de quem é atendido quanto na de quem atende. A aliança terapêutica mede justamente o que costuma preocupar quem hesita, a qualidade do vínculo, o acordo sobre os objetivos e a sensação de estar sendo entendida.

O que mudou nas regras da psicanálise online em 2024?

Em 2024 entrou em vigor a Resolução CFP nº 9/2024, que regulamenta o exercício profissional da Psicologia mediado por tecnologias digitais no Brasil e revogou expressamente as duas normas anteriores. A mudança mais sentida na prática é que a obrigatoriedade de cadastro prévio na plataforma e-Psi deixou de existir. Hoje, o requisito é ter inscrição ativa no Conselho Regional e seguir as diretrizes éticas e técnicas da profissão, além de avaliar se o atendimento online é adequado à demanda apresentada.

Existem estudos brasileiros sobre a eficácia da psicanálise online?

Existe uma revisão sistemática de Feijó e colaboradores, publicada em 2021, que analisou 16 estudos e encontrou indícios de eficácia do atendimento pela internet para vários transtornos, com destaque para intervenções conduzidas por um psicoterapeuta, superiores às automatizadas e aos materiais de autoajuda. A ressalva é que a maior parte dessa literatura foi produzida com Terapia Cognitivo-Comportamental, e ainda faltam estudos brasileiros em abordagens psicodinâmicas, que é o caso da psicanálise.

Para quem a psicanálise online costuma funcionar especialmente bem?

Funciona bem para quem tem agenda apertada e desistiria da terapia pelo deslocamento, quem mora longe de onde há profissionais da abordagem que procura, quem tem dificuldade de locomoção, mães e cuidadoras que raramente conseguem duas horas seguidas fora de casa, quem viaja com frequência e perderia a continuidade, e quem sente vergonha de ser visto entrando num consultório.

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Narcisismo – Do mito à mente

Narcisismo – Do mito à mente

Do Mito à Mente: A Evolução do Conceito de Narcisismo na Psicanálise Freudiana

O narcisismo é um dos conceitos mais importantes da psicanálise freudiana. Tem raízes num mito antigo, o Mito de Narciso, mas o caminho até se tornar um pilar da teoria psicanalítica foi bem mais complexo.

A evolução desse conceito, das origens mitológicas até a elaboração de Freud, mostra como ele se transformou e se aprofundou ao longo do tempo.

Das Águas do Mito às Profundezas da Psique

A história do narcisismo começa com o mito grego de Narciso, um jovem de beleza extraordinária que se apaixona por seu próprio reflexo. De maneira muito simplificada, cabe apenas dizer em relação ao mito, que Narciso é incapaz de se afastar da imagem que vê nas águas de um lago, e por isso definha e morre, transformando-se na flor que leva seu nome. Este mito captou a imaginação de artistas e pensadores ao longo dos séculos, servindo como uma metáfora poderosa para o amor-próprio excessivo, autoestima e a autoadmiração.

Do mito à psicanálise, o caminho passou primeiro pela medicina.

O sexólogo Havelock Ellis foi um dos primeiros a usar o termo "narcisismo", em 1898, para descrever um fenômeno psicológico. Paul Näcke, em 1899, cunhou o termo para descrever uma perversão sexual em que a pessoa trata o próprio corpo como objeto sexual.

Só então Freud de fato se debruçou sobre o tema e elaborou sua teoria sobre o narcisismo, já no início do século XX.

Freud e a Introdução do Narcisismo na Psicanálise

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, inicialmente mencionou o narcisismo em suas discussões sobre a homossexualidade em 1910. No entanto, foi em 1914, com a publicação de "Sobre o Narcisismo: Uma Introdução", que Freud apresentou uma elaboração completa do conceito, transformando-o de uma mera perversão sexual para um estágio fundamental do desenvolvimento psíquico.

Freud propôs que o narcisismo era uma fase normal do desenvolvimento infantil. Ele distinguiu entre narcisismo primário e secundário:

  1. Narcisismo Primário: Um estado inicial em que a criança investe toda sua energia libidinal em si mesma. Neste estágio, a criança experimenta um senso de onipotência e não diferencia entre si mesma e o mundo externo.
  2. Narcisismo Secundário: Ocorre quando a libido, que foi investida em objetos externos, é retirada e reinvestida no ego. Isso pode acontecer como parte do desenvolvimento normal ou como uma resposta defensiva a experiências traumáticas.

A Libido e o Narcisismo

Freud viu o narcisismo como intimamente ligado à sua teoria da libido. Ele propôs que havia uma quantidade finita de libido, e que o investimento em si mesmo estava em equilíbrio com o investimento em objetos externos (amor objetal). Essa concepção levou ao entendimento sobre a formação do ego e o desenvolvimento da autoestima.

O Ideal do Ego e o Narcisismo

Um conceito também importante introduzido por Freud nessa discussão foi o "ideal do ego". Esse ideal representa o que o indivíduo aspira ser, formado a partir da internalização das expectativas parentais e sociais. Nesse contexto, ele pode ser entendido como o amor do ego por si mesmo em relação a esse ideal.

Freud trouxe o entendimento de que o narcisismo infantil é gradualmente transferido para este ideal do ego, que serve como uma espécie de modelo ao qual o indivíduo tenta se conformar.

Esta transferência é muito importante para o desenvolvimento da personalidade e da autoestima.

Mulher refletida em espelhos, com jogo de luz e sombra

Narcisismo e Escolha de Objeto

Freud também explorou como o narcisismo influencia nossas escolhas amorosas. Ele propôs dois tipos principais de escolha de objeto:

  1. Tipo Anaclítico (ou de Apoio): Onde o indivíduo escolhe objetos de amor baseados nos cuidadores primários.
  2. Tipo Narcisista: Onde o indivíduo escolhe objetos de amor que se assemelham a si mesmo ou a um ideal de si mesmo.

Essa distinção ampliou a visão sobre os padrões de relacionamento e as relações amorosas.

O Narcisismo e a Teoria das Pulsões

A introdução do conceito de narcisismo teve implicações significativas para a teoria das pulsões de Freud.

Inicialmente, Freud havia proposto uma dualidade entre pulsões sexuais e pulsões de autopreservação.

No entanto, o conceito de narcisismo desafiou esta distinção, já que implicava que o ego poderia ser um objeto de investimento libidinal.

Essa complicação eventualmente levou Freud a reformular sua teoria das pulsões, culminando na introdução da pulsão de morte em uma de suas obras mais importantes, o ensaio "Além do Princípio do Prazer" (1920).

Críticas e Desenvolvimentos Posteriores

A teoria freudiana do narcisismo, assim como grande parte de sua teoria, não ficou sem críticas.

Alguns teóricos argumentaram que Freud subestimou a importância das relações objetais precoces, e outros, como aponta este artigo publicado nos Estudos de Psicanálise, questionaram inconsistências no próprio modelo teórico, que persistem até hoje.

No entanto, o conceito de narcisismo provou ser incrivelmente fértil para desenvolvimentos teóricos posteriores na psicanálise até a atualidade.

Autores pós-freudianos como Heinz Kohut e Otto Kernberg expandiram significativamente o entendimento psicanalítico do narcisismo, particularmente em relação às patologias narcisistas.

O Legado do Conceito Freudiano de Narcisismo

O conceito de narcisismo, como elaborado por Freud, teve um impacto muito duradouro não apenas na psicanálise, mas na psicologia e na cultura de forma geral.

Ele nos ofereceu uma nova lente através da qual podemos enxergar e entender o desenvolvimento da personalidade humana, a autoestima, as relações objetais e muitos outros conceitos.

Alguns dos legados do conceito freudiano de narcisismo incluem:

  1. Uma compreensão mais nuançada do amor próprio: O narcisismo não é simplesmente patológico, mas um componente necessário do desenvolvimento saudável.
  2.  Insights sobre a formação da identidade: A teoria do narcisismo ilumina como formamos nosso senso de self e como isso influencia nossas interações com os outros.
  3. Uma base para entender patologias narcisistas: Embora Freud não tenha elaborado extensivamente sobre o narcisismo patológico, seu trabalho lançou as bases para desenvolvimentos posteriores nesta área.
  4. Uma nova perspectiva sobre as relações objetais: A teoria do narcisismo ofereceu insights sobre como nossas relações com os outros são moldadas por nossa relação conosco mesmos.
  5. Um conceito ponte entre a psicologia individual e a social: O narcisismo, como Freud o conceituou, tem implicações tanto para o desenvolvimento individual quanto para fenômenos sociais mais amplos.

Conclusão: Do Mito à Compreensão Psicanalítica

Toda a jornada do conceito de narcisismo, desde o mito grego até a teoria psicanalítica freudiana, mostra como uma ideia pode se transformar ao longo do tempo.

O que começou como uma história sobre amor-próprio excessivo virou um conceito complexo, que toca aspectos centrais da psique humana.

A elaboração de Freud sobre o narcisismo ofereceu uma linguagem nova para entender aspectos da experiência humana que antes eram difíceis de articular, da formação da identidade até a forma como se dão os relacionamentos.

Psicanalistas, como eu, e outras pessoas interessadas no funcionamento da mente humana, continuam explorando e ampliando a compreensão do narcisismo.

Assim como Narciso se viu refletido nas águas do lago, o conceito de narcisismo continua sendo um reflexo de aspectos profundos, e muitas vezes ocultos, da nossa própria psique.

Entender os próprios padrões narcísicos pode abrir caminho para relações mais satisfatórias, e é um dos motivos pelos quais vale a pena explorar essas ideias na análise pessoal.

O espelho de Narciso não precisa ser uma armadilha. Com compreensão, pode se tornar uma ferramenta para o crescimento e a transformação pessoal.

Mais sobre narcisismo

O outro texto que escrevi sobre o tema:

O que é o "ideal do ego" na teoria de Freud sobre o narcisismo?

É o que a pessoa aspira ser, formado a partir da internalização das expectativas parentais e sociais. Freud descreveu que o narcisismo infantil é gradualmente transferido para esse ideal do ego, que passa a funcionar como um modelo ao qual o indivíduo tenta se conformar, o que é importante para o desenvolvimento da personalidade e da autoestima.

Quais são os dois tipos de escolha amorosa, segundo Freud?

Freud propôs o tipo anaclítico, ou de apoio, em que a pessoa escolhe parceiros baseados nos cuidadores primários, e o tipo narcisista, em que a pessoa escolhe parceiros que se parecem com ela mesma ou com um ideal de si mesma.

Qual é a diferença entre narcisismo primário e secundário?

O narcisismo primário é um estado inicial em que a criança investe toda a energia libidinal em si mesma, sem diferenciar ainda entre si e o mundo externo, e com uma sensação de onipotência. Já o narcisismo secundário ocorre quando a libido que havia sido investida em objetos externos é retirada e reinvestida no ego, o que pode acontecer como parte do desenvolvimento normal ou como resposta defensiva a experiências traumáticas.

A teoria de Freud sobre o narcisismo tem limitações?

Sim, assim como grande parte da teoria freudiana, ela não ficou sem críticas, e psicanalistas posteriores, como Kohut e Kernberg, desenvolveram leituras próprias sobre o tema que ampliam e revisam o que Freud propôs originalmente.

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O narcisismo na ótica da psicanálise

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O narcisismo na psicanálise: o que a teoria desvenda

O narcisismo na psicanálise intriga e encanta tanto os leigos quanto os profissionais de saúde mental.

O narcisismo é um assunto complexo, mas geralmente mal compreendido e simplificado na cultura popular. Para a psicanálise, envolve muitas camadas, por isso, merece ser investigado de maneira mais profunda.

Neste post procurei explorar o narcisismo na psicanálise, desdobrando as origens, as manifestações e as implicações do conceito, na leitura de Freud e nas que vieram depois dele.  

Narcisismo na psicanálise: além das questões patológicas

Antes de me aprofundar neste tema, é importante estabelecer uma clara distinção entre o narcisismo como conceito psicanalítico e o Transtorno de Personalidade Narcisista, que é uma condição psiquiátrica específica.

O contrário do que se entende popularmente sobre narcisismo, para a psicanálise, o termo não tem relação direta com um quadro de transtorno de personalidade narcisista. Na verdade, no olhar psicanalítico o termo narcisismo tem outra conotação. É considerado parte muito importante do desenvolvimento da mente humana. Sigmund Freud explicou isso em seu ensaio “Sobre o Narcisismo: Uma Introdução” (1914). Ele trouxe o conceito psicanalítico de narcisismo, que aponta como sendo uma fase normal do desenvolvimento psíquico de todos nós.

Mulher refletida em espelhos, com jogo de luz e sombra

Ele sugeriu que todas as pessoas passam por uma fase inicial de narcisismo na infância em que se concentram totalmente em si mesmas emocionalmente e esse processo é fundamental para estabelecer uma identidade coesa e construir a autoestima necessária para o desenvolvimento pessoal posteriormente.

O narcisismo na psicanálise, na forma posterior, surge quando a energia libidinal inicialmente direcionada para outras pessoas é redirecionada para o próprio Eu.  Esse processo pode ser vivenciado em diferentes momentos ao longo da vida adulta, desde conquistas pessoais até períodos de recuperação de enfermidades ou traumas.

As origens freudianas do narcisismo na psicanálise

Para compreender o conceito de narcisismo na psicanálise, é preciso voltar às raízes freduanas. Freud argumentava que o narcisismo na psicanálise representava uma fase intermediária entre o autoerotismo e o amor por objetos. Ele enxergava o narcisismo como um reservatório de libido do qual derivavam os investimentos emocionais em objetos e para onde poderiam retornar.  Freud também introduziu o conceito do “ideal do ego", uma estrutura psicológica que representa a aspiração do indivíduo para aquilo que deseja ser. Esse ideal é formado pela internalização das expectativas dos pais  da sociedade,e atua como um padrão com o qual o ego se compara.

O narcisismo na psicanálise, nesse contexto, é entendido como o amor do Ego em relação a esse ideal.

Além de Freud, considerações pós-freudianas

Depois de Freud, vários psicanalistas ampliaram e retrabalharam o conceito de narcisismo na psicanálise.

Heinz Kohut desenvolveu a Psicologia do Self com ênfase no papel central do narcisismo no desenvolvimento psicológico humano.

Kohut considerava o narcisismo uma energia vital, que deveria ser integrada de maneira saudável na formação da personalidade, não um obstáculo a ser superado.

Por outro lado Otto Kernberg se concentrou nos aspectos patológicos do narcisismo em suas pesquisas.

Ele identificou e detalhou o perfil da “personalidade narcísica", caracterizada por sentimentos exacerbados de grandiosidade e necessidades excessivas por admiração, assim como, pela falta de empatia para com os outros.

A teoria de Kernberg sugere que essa condição surge de deficiências no desenvolvimento inicial da pessoa e sua capacidade de integrar as representações positivas e negativas de si mesmo e dos outros indivíduos.

André Green introduziu os conceitos de “narcisismo da vida” e “narcisismo da morte", onde o primeiro envolve um investimento saudável em si mesmo e o segundo descreve uma retirada defensiva e autodestrutiva.

O narcisismo na contemporaneidade

No contexto atual da cultura digital, o narcisismo assume novas formas e manifestações.

As plataformas online voltadas para interações sociais têm sido apontadas frequentemente como impulsionadoras do comportamento narcísico por sua ênfase na autopromoção e na busca por validação externamente.

Christopher Lasch discutiu em profundidade essas questões em seu renomado livro “A Cultura do Narcisismo", escrito em 1979 argumentando que a cultura contemporânea encoraja e recompensa características narcísicas embora suas reflexões tenham sido feitas antes da ascensão das redes sociais suas ideias sobre a obsessão da sociedade, com a imagem pessoal e o sucesso individual parece ainda mais pertinente na atualmente.

O narcisismo e o culto ao corpo

O culto ao corpo é um fenômeno bem atual, e também pode ser analisado pela perspectiva do narcisismo.

A busca incessante por um corpo considerado "ideal" pode ser vista como uma expressão do ideal do ego, o conceito freudiano em que o corpo passa a ser objeto de um investimento narcísico intenso.

O narcisismo nos relacionamentos: o desafio da interação

Um dos aspectos mais complexos relacionados ao narcisismo prejudicial, que é o patológico, está ligado aos seus impactos nos laços interpessoais.

Aqueles com traços narcisistas acentuados frequentemente enfrentam dificuldades ao estabelecerem relacionamentos saudáveis baseados na reciprocidade genuína.

A psicanálise contemporânea destaca a importância da intersubjetividade e fornece um importante olhar sobre como o narcisismo influencia as relações interpessoais.

Teorias de estudiosos como Jessica Benjamin enfatizam que o reconhecimento mútuo desempenha um papel muito importante no desenvolvimento saudável da psique e que falhas nesse processo podem resultar em padrões relacionais narcisistas.

A relação entre o que se reprime e a angústia que aparece depois segue sendo estudada na psicanálise brasileira, como neste artigo da revista Fractal, da UFF.

Como reconhecer o traço narcísico sem virar diagnóstico de internet

A palavra virou rótulo. Hoje qualquer pessoa difícil é chamada de narcisista numa conversa de mesa, e isso atrapalha bastante, porque esconde a diferença entre um traço e um transtorno.

O narcisismo na psicanálise é primeiro uma etapa do desenvolvimento, e depois um traço que todo mundo tem em alguma medida. Ele só vira questão clínica quando organiza a vida inteira em torno da própria imagem, ao custo das relações.

Alguns sinais aparecem com frequência em quem chega ao consultório por esse motivo:

  • Dificuldade grande de ouvir crítica, com reação desproporcional a um comentário pequeno
  • Necessidade constante de ser reconhecida, mesmo em situações que não pediam destaque
  • Relações que só duram enquanto a outra pessoa admira, e esfriam quando ela discorda
  • Sensação de vazio quando ninguém está olhando, ou quando falta plateia
  • Dificuldade de reconhecer o que o outro sente, principalmente quando isso exige abrir mão de algo

Reconhecer um ou dois desses sinais em si mesma não significa ter um transtorno, e é bom dizer isso com clareza. Significa que existe ali um ponto sensível, e um ponto sensível é exatamente o que a análise consegue trabalhar.

Vale reparar também no oposto, que é menos comentado. O narcisismo na psicanálise também aparece na pessoa que se anula, que precisa ser sempre a que ajuda, e que constrói a própria imagem em cima de nunca dar trabalho. Também aí a autoestima depende inteiramente do olhar do outro.

Diferenças entre o tratamento psicanalítico e o psiquiátrico

Tratar o narcisismo no âmbito da psicanálise envolve trabalhar a autoestima. Narcisismo primário e secundário são fases do desenvolvimento do ego, e no fim das contas é a autoestima que fica desse processo.

Já o narcisismo patológico, quando chega ao nível de um transtorno de personalidade, é catalogado como F60.8 na CID-10. Costuma pedir acompanhamento mais estruturado, às vezes com apoio psiquiátrico também, sobretudo quando há sintomas associados, como depressão ou ansiedade. Otto Kernberg, um dos autores que mais se dedicou a esse quadro, desenvolveu uma abordagem própria para ele, a psicoterapia focada na transferência, que segue sendo estudada.

Os obstáculos frequentes incluem a resistência à mudança, o contraste entre a aparente grandiosidade e a fragilidade do ego, e a dificuldade em estabelecer uma relação terapêutica estável. Esses obstáculos pedem mais tempo e mais paciência no processo.

Por isso, é importante ter em mente as diferenças entre o narcisismo patológico e o narcisismo no âmbito da psicanálise.

No entanto, a psicanálise dispõe de ferramentas interessantes.

Para lidar com essas questões de forma eficiente é preciso considerar diversos aspectos psicológicos para o autoconhecimento profundo de cada indivíduo, com uma visão mais crítica em relação ao narcisismo associado à personalidade humana.

A reflexão sobre o narcisismo vai além de ser apenas um traço de personalidade indesejável, trata-se de um conceito essencial na psicanálise que nos leva a questionar a natureza do Ego, o desenvolvimento da identidade e os desafios das interações sociais e o nível de autoestima decorrente desse processo. 

Entender o narcisismo em suas diversas dimensões pode ser útil para navegarmos pelas nossas próprias emoções e relacionamentos de forma mais consciente.

Reconhecer nossas próprias características narcísicas ou lidar com o narciso do próximo pode algo bem difícil e com seus desafios, mas os ensinamentos da psicanálise oferecem uma orientação muito completa nesses momentos de incerteza emocional.

Se você se sente curioso sobre as complexidades do narcisismo ou como ele afeta sua vida diária, a terapia psicanalítica pode ajudar a entender melhor esse tema.

O processo analítico tem o potencial de revelar visões muito profundas a respeito de seus padrões psíquicos, colocando em perspectiva seu comportamento em relação aos outros. E contribui para a formação de um Ego mais coeso bem como relacionamentos mais gratificantes.

É importante ter em mente que o reflexo do narcicismo não precisa ser uma armadilha,  pois através de compreensão e terapia dedicada pode se transformar em uma oportunidade para uma existência mais plena e completa.

Para a origem do conceito e o percurso completo, veja Narcisismo - Do mito à mente.

Para a origem do conceito, do mito grego até Freud, veja narcisismo, do mito à mente.

Qual a diferença entre ter traço narcisista e ter transtorno narcisista de personalidade?

Todo mundo tem traços narcisistas em alguma medida, isso faz parte do desenvolvimento normal. O traço só vira questão clínica quando organiza a vida inteira em torno da própria imagem, ao custo das relações. Chamar qualquer pessoa difícil de "narcisista" numa conversa esconde essa diferença entre um traço comum e um transtorno de fato.

Para Kohut, o narcisismo é sempre um problema?

Não, para Heinz Kohut o narcisismo tem um papel central e saudável no desenvolvimento psicológico. Ele não via o narcisismo como um obstáculo a ser superado, mas como uma energia vital que precisa ser integrada de forma saudável na formação da personalidade.

O que caracteriza a personalidade narcísica, segundo Otto Kernberg?

Kernberg descreveu essa personalidade como marcada por sentimentos exacerbados de grandiosidade, necessidade excessiva de admiração e falta de empatia pelos outros, diferente da visão de Kohut, que focava mais nos aspectos saudáveis do narcisismo.

O que são o 'narcisismo da vida' e o 'narcisismo da morte', de André Green?

São dois conceitos que descrevem funcionamentos opostos. O narcisismo da vida envolve um investimento saudável em si mesmo, enquanto o narcisismo da morte descreve uma retirada defensiva e autodestrutiva, uma espécie de desligamento de tudo que poderia ferir.

O transtorno de personalidade narcisista tem CID?

Tem. Na CID-10, é classificado como F60.8, dentro de "Outros transtornos específicos da personalidade". Na CID-11, que mudou o modelo de diagnóstico dos transtornos de personalidade, ele aparece de forma mais genérica, como transtorno de personalidade (6D10), porque a classificação nova não separa mais tipos fixos como narcisista, borderline ou histriônico, e sim níveis de gravidade e traços dominantes.

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Priscila Soares Falchi
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