Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

Muita mulher chega ao consultório dizendo que não se reconhece mais. Não é sobre o corpo, ou não é só sobre o corpo. É a sensação de que a vida depois da menopausa será uma versão menor da que veio antes, e de que ninguém avisou isso.

Essa sensação tem explicação, e ela não é hormonal. A nossa cultura organiza o valor da mulher em torno de duas funções, a de ser desejada e a de cuidar dos outros. Quando as duas mudam de lugar ao mesmo tempo, sobra uma pergunta desconfortável. Quem eu sou agora?

É uma pergunta boa, ainda que incômoda. Reuni aqui o que costuma aparecer nessa fase e o que ajuda a atravessá-la.

A vida depois da menopausa não é uma versão menor

A primeira coisa que costuma ser dita nessa fase, e que faz muito mal, é que agora é hora de desacelerar. Vem de um lugar bem-intencionado e chega como sentença.

A vida depois da menopausa não é encerramento de ciclo. É o fim de um arranjo específico, o da mulher organizada em torno da possibilidade de engravidar e da rotina de criar filhos pequenos. Esse arranjo ocupou décadas e, quando sai de cena, deixa espaço. Espaço assusta antes de virar possibilidade.

Vale separar as coisas. O que muda de fato é a fisiologia, e sobre a parte clínica dessa transição a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia reúne orientação confiável. O que não muda por decreto é o que você é capaz de querer.

Por que a identidade balança nessa fase

Mulher madura sorrindo perto de uma janela

Na psicanálise, a identidade não é uma coisa fixa que a pessoa carrega. Ela se sustenta em identificações, papéis e lugares que a gente ocupa nas relações. Mãe de criança pequena. Profissional em ascensão. Filha de alguém que ainda está por perto.

Depois da menopausa, muitos desses lugares se transformam ao mesmo tempo, e às vezes em poucos anos. Os filhos crescem, os pais adoecem ou morrem, a carreira chega num platô. Não é um evento, são vários, e é por isso que a sensação é de chão saindo de baixo.

Quando isso acontece, a pergunta sobre quem se é deixa de ser filosófica e vira concreta. É a pergunta central da vida depois da menopausa. É comum a mulher perceber que nunca precisou responder isso antes, porque os papéis respondiam por ela.

6 perguntas que aparecem depois da menopausa

Estas são as que mais escuto, quase sempre ditas com pedido de desculpa antes:

  1. Se eu não sou mais a mãe de quem precisa de mim o tempo todo, eu sou o quê?
  2. Ainda posso querer alguém, ou querer alguém agora é ridículo?
  3. Vale a pena começar algo novo nessa altura, ou já passou da hora?
  4. Por que estou com raiva de coisas que eu antes engolia sem pensar?
  5. Se eu mudar agora, o que acontece com o casamento que foi construído sobre a versão anterior de mim?
  6. Isso que estou sentindo é a fase passando, ou é depressão?

Repare que quase nenhuma delas é sobre calor ou sono. As perguntas que ocupam a vida depois da menopausa são sobre lugar, desejo e permissão.

Quando o ninho esvazia na mesma época

A coincidência de datas é cruel, e explica boa parte do peso dos primeiros anos depois da menopausa. Não é raro os filhos saírem de casa exatamente nos anos em que o corpo muda, e aí duas perdas chegam juntas sem que nenhuma delas seja nomeada como perda.

Muita mulher se sente culpada por sentir alívio, ou culpada por sentir tristeza, e às vezes pelas duas ao mesmo tempo no mesmo dia. As duas coisas cabem. A saída da casa dos filhos devolve tempo, e tempo devolvido é ótimo e assustador.

O que costuma aparecer nesse momento é a percepção de que o casal ficou sozinho e não sabe mais conversar sobre outra coisa que não seja logística. Isso não significa que o casamento acabou. Significa que ele precisa de assunto novo, e assunto novo é exatamente o que a vida depois da menopausa oferece, se houver espaço para procurá-lo.

O corpo, e a diferença entre envelhecer e sumir

Existe uma confusão que aparece muito e vale desfazer. Envelhecer é um processo, e ser socialmente apagada é outra coisa, que acontece de fora para dentro.

Boa parte do mal-estar com o corpo depois da menopausa não vem do corpo em si. Vem de perceber que as pessoas passaram a olhar menos, que o vendedor atende primeiro a moça ao lado, que a piada na mesa não é mais com você. Isso dói e é real, e não se resolve com creme.

O que a análise pode fazer aqui é ajudar a separar o que você sente do que te disseram que você deveria sentir. Tem mulher que descobre, nesse processo, que nunca gostou de ser olhada daquele jeito e que o alívio é maior que a perda. E tem mulher que descobre o contrário, e aí o luto é legítimo e precisa de espaço.

A relação com o corpo depois da menopausa costuma melhorar quando ele deixa de ser vitrine e volta a ser lugar onde se mora.

O trabalho, e a vontade de mudar de rumo

Aos quarenta e muitos, cinquenta, é comum aparecer uma inquietação com o trabalho que não existia antes. Não é crise, e quase nunca é impulso.

O que costuma acontecer é que a pessoa escolheu uma carreira aos vinte anos, por razões que faziam sentido naquele momento e que muitas vezes eram de outra pessoa. Depois vieram as contas, os filhos, a estabilidade, e não houve espaço para revisar aquela escolha. A vida depois da menopausa devolve esse espaço, e o que aparece nele às vezes assusta.

Vale ouvir essa inquietação sem obedecer imediatamente a ela. Nem toda vontade de mudar precisa virar demissão. Muitas vezes o que está pedindo passagem é um interesse antigo que cabe fora do expediente, e que muda o humor da semana inteira quando ganha algumas horas.

O que a análise faz com isso

A análise não devolve a juventude, e prometer isso seria desonesto. O que ela faz é separar o que é seu do que foi combinado por outras pessoas ao longo do caminho, e isso é mais útil.

Muito do que parece perda nessa fase é, quando se olha de perto, o fim de uma obrigação que nunca foi escolhida. Escutar isso muda o tamanho do luto. E o que sobra depois dessa separação costuma ser um desejo antigo, guardado quando não havia tempo para ele.

É um trabalho lento e não tem fórmula. Mas o resultado que mais vejo é uma mulher que para de pedir desculpa por querer coisas.

Quando o desânimo é mais do que transição

Nem tudo o que aparece depois da menopausa é transição, e é importante não romantizar. Se o desânimo dura mais de duas semanas seguidas, se você perdeu o interesse por coisas que sempre gostou, se o sono e o apetite mudaram muito, ou se aparece a ideia de não querer mais estar aqui, isso pede avaliação profissional e não paciência.

Nesses casos vale procurar tanto o ginecologista quanto um profissional de saúde mental. Se aparecer o pensamento de não querer mais estar aqui, procure ajuda no mesmo dia. O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, é gratuito e sigiloso.

Se você quiser um espaço para responder à pergunta de quem você é agora, agende uma primeira conversa. Atendo online para todo o Brasil.

Isso que estou sentindo depois da menopausa é a fase passando, ou é depressão?

Nem tudo que aparece depois da menopausa é transição, e não convém romantizar. Se o desânimo dura mais de duas semanas seguidas, se você perdeu o interesse por coisas que sempre gostou, se o sono e o apetite mudaram muito, ou se aparece a ideia de não querer mais estar aqui, isso pede avaliação profissional e não paciência. Vale procurar tanto o ginecologista quanto um profissional de saúde mental.

Por que o ninho vazio e a menopausa costumam chegar juntos?

A coincidência de datas é cruel, e explica boa parte do peso dos primeiros anos depois da menopausa. Não é raro os filhos saírem de casa exatamente nos anos em que o corpo muda, e aí duas perdas chegam juntas sem que nenhuma delas seja nomeada como perda.

Envelhecer e ser socialmente apagada são a mesma coisa?

Não. Envelhecer é um processo, e ser socialmente apagada é outra coisa, que acontece de fora para dentro. Existe uma confusão comum entre as duas que vale desfazer.

Por que surge vontade de mudar de carreira depois da menopausa?

Aos quarenta e muitos, cinquenta, é comum aparecer uma inquietação com o trabalho que não existia antes, e isso não é crise nem impulso. O que costuma acontecer é que a pessoa escolheu uma carreira aos vinte anos, por razões que faziam sentido naquele momento e que muitas vezes eram de outra pessoa. Depois vieram as contas, os filhos, a estabilidade, e não houve espaço para revisar aquela escolha. A vida depois da menopausa devolve esse espaço, e o que aparece nele às vezes assusta.

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Priscila Soares Falchi
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