Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André
Dependência Emocional: quando o amor vira necessidade

Dependência Emocional: quando o amor vira necessidade

Quando o amor vira necessidade

Uma coisa é sentir falta de alguém que a gente ama, e outra bem diferente é sentir que não consegue respirar sem essa pessoa por perto. A primeira faz parte de qualquer relação afetiva e é até bonita, mas a segunda costuma ser o começo de um sofrimento que se repete, uma relação depois da outra, sempre com o mesmo roteiro.

Escuto essa história com frequência no consultório, e quase sempre com as mesmas palavras, porque a pessoa chega e diz que sabe que não deveria, mas não consegue. Ela já entendeu tudo racionalmente, já ouviu conselho de todo mundo em volta, e mesmo assim continua exatamente onde estava.

A dependência emocional não chega anunciada, ela vai se instalando devagar, com cara de dedicação, de amor grande, daquele "eu faço qualquer coisa por você". Por exemplo, você deixa de ir num aniversário porque a outra pessoa não estava bem naquele dia, e depois deixa de ir num segundo, e num terceiro, até que um dia você percebe que já organizou a sua vida inteira em volta do humor de alguém.

O que é dependência emocional

Dependência emocional é quando a pessoa passa a precisar do outro para se sentir inteira. Cuidado existe em toda relação boa, e companheirismo também, mas o problema está quando essa necessidade passa por cima do próprio desejo e a pessoa começa a viver em função do que o outro sente.

Quem vive isso costuma descrever sempre a mesma cena, que começa com aquela angústia que aperta quando a outra pessoa demora a responder uma mensagem, passa pelo alívio imediato quando ela finalmente responde, e termina na sensação de estar o tempo todo medindo a temperatura da relação, como quem checa a febre de hora em hora para ver se piorou. No fim das contas, o dia inteiro fica bom ou ruim dependendo de como o outro acordou.

Preciso dizer uma coisa aqui, porque a internet estragou um pouco essa conversa, e é que dependência emocional não é falta de amor próprio e também não é fraqueza de caráter. É um jeito de se vincular que foi construído ao longo de uma história, e toda história tem os seus motivos.

Como a psicanálise entende isso

A psicanálise não olha para a dependência emocional como um defeito que precisa ser corrigido, e sim como uma repetição, ou seja, alguma coisa que se organizou muito cedo na vida da pessoa e continua acontecendo porque nunca encontrou outro caminho possível.

Nas primeiras relações da vida, a criança aprende o que ela precisa fazer para ser cuidada. Se esse cuidado veio de um jeito imprevisível, ora presente ora ausente, ela acabou aprendendo que amor é uma coisa que se conquista com esforço permanente e que pode ser retirada a qualquer descuido, e essa lição não se apaga com o tempo, ela vai se atualizando a cada relação nova.

Daí vem uma coisa que parece contraditória, mas não é. A pessoa costuma escolher, sem perceber, parceiros que reproduzem exatamente aquele clima de instabilidade que ela conheceu, e isso não acontece porque ela goste de sofrer, e sim porque aquele terreno é o único que o corpo dela reconhece como amor. Por exemplo, uma relação estável e tranquila pode até parecer sem graça para quem aprendeu que amor é tensão.

Freud deu um nome para esse funcionamento, que é compulsão à repetição. Não é o prazer que se repete, mas a tentativa de dar um desfecho diferente para alguma coisa que ficou em aberto lá atrás.

Sinais de que a relação virou dependência

Nenhum sinal sozinho quer dizer alguma coisa, porque o que pesa é o conjunto e principalmente a repetição ao longo do tempo:

  • Você foi largando atividades, amizades ou projetos que eram importantes para você, e nem percebeu direito a hora em que isso aconteceu.
  • A ideia de terminar provoca um medo que vai muito além da tristeza que qualquer separação traz.
  • Você evita conflito mesmo quando alguma coisa te machuca, com medo de que a pessoa se afaste.
  • Antes de decidir qualquer coisa, você passa por uma pergunta silenciosa, que é como ele ou ela vai reagir a isso.
  • Você se anula em várias áreas da sua vida, e chama isso de maturidade ou de dedicação.
  • Você já tentou sair mais de uma vez, e voltou, mesmo sabendo que nada tinha mudado.

Se vários desses pontos fizeram sentido para você, isso não quer dizer que a relação precisa acabar, e sim que existe alguma coisa ali pedindo para ser olhada com mais cuidado.

A diferença entre amar e precisar

Uma coisa é escolher e amar uma pessoa, outra bem diferente é achar que precisa dessa pessoa para viver. O problema está quando o outro passa a ser a sua razão de viver.

Se uma relação é sustentada pelo amor, existe espaço para discordar, e existe espaço para ter uma vida própria ao lado da pessoa. Por exemplo, haver um espaço onde o outro pode viajar um fim de semana, sem que isso vire uma crise. Em qualquer relação existe risco, mas o risco é suportável.

Quando o que sustenta é a necessidade, esse risco vira ameaça, e qualquer sinal de distância dispara um alarme que, para quem olha de fora, parece exagero. Mas para quem está sentindo, é bem concreto, porque vem em forma de falta de ar, peito apertado e pensamento acelerado que não desliga a noite inteira.

O que a análise oferece

O trabalho não começa tentando convencer ninguém a terminar a relação, ele começa entendendo o que aquela relação sustenta, o que ela protege, e qual história antiga está tentando ser reescrita ali dentro.

No meio do caminho, quase sempre aparece a mesma descoberta, que é perceber que muito daquilo que ela chamava de amor era, na verdade, medo: medo de ficar sozinha, medo de não ser suficiente para ninguém, e medo de descobrir que, sem aquela relação, ela não sabe direito quem é.

Leva tempo, e não é por preguiça do processo, porque não se trata de aprender uma técnica nem de seguir um passo a passo. Trata-se de conhecer a própria história a ponto de não precisar mais repeti-la.

O que muda no final não é a intensidade do afeto, porque a pessoa continua amando do mesmo jeito de antes. O que muda é a possibilidade de escolher, ou seja, ela passa a conseguir ficar, se for isso que ela quiser, e passa a conseguir sair, se for isso que ela precisar. Quando essas duas coisas se tornam possíveis ao mesmo tempo, a dependência acabou.

A ligação com a ansiedade

Muita gente chega ao consultório falando de ansiedade, e só depois vai descobrir que essa ansiedade estava amarrada a uma relação, o que faz todo sentido, porque quando o seu equilíbrio depende do comportamento de outra pessoa, o corpo entra em estado de alerta permanente, tentando prever uma coisa que não dá para prever.

Esse estado de alerta cobra caro, e ele aparece como insônia, como dificuldade de se concentrar no trabalho, e como aquela inquietação que não passa nem nos momentos bons da relação. Por exemplo, dá para estar num jantar tranquilo com a pessoa e mesmo assim ficar monitorando o celular dela, o tom de voz, a expressão do rosto.

Para a psicanálise, a ansiedade é um sinal e não é ela o problema em si, porque o que ela está fazendo é avisar que existe alguma coisa ali pedindo para ser elaborada. Na dependência emocional, o que costuma estar embaixo desse sinal é o medo do abandono, mas esse medo quase nunca nasceu na relação atual, ele só foi reativado ali.

Se esse ponto te interessa, escrevi também sobre ansiedade e recalque, que trata do que acontece quando emoções e desejos ficam represados sem encontrar saída.

Dá para sair desse lugar

Dá para sair desse lugar, sim, e isso não depende de força de vontade, ao contrário do que muita gente acredita.

A saída não vem de uma decisão tomada num momento de raiva, nem de uma lista de regras sobre como se comportar dentro de uma relação. Ela vem de entender o que está sendo repetido ali, e principalmente de entender por quê.

Esse entendimento de que eu falo não é o intelectual, porque quase todo mundo que vive uma dependência emocional já sabe que aquela relação faz mal e mesmo assim continua nela, ou seja, saber sozinho não basta. O que a análise permite é outra coisa, que é construir devagar uma relação diferente consigo mesma, até que a presença do outro deixe de ser condição para você existir.

Quando procurar ajuda

Não precisa esperar uma crise para procurar ajuda, porque se você se reconheceu na leitura deste texto, ou se percebe que o mesmo padrão vem se repetindo em relações diferentes, isso já é motivo suficiente.

A dependência emocional costuma vir acompanhada de ansiedade, de sintomas no corpo e, muitas vezes, de quadros depressivos. Tratar só o sintoma, sem olhar o que está sustentando ele, traz alívio por um tempo, mas o padrão volta na relação seguinte.

O atendimento em psicanálise e psicologia clínica é esse espaço, um lugar para falar sem ser julgada, onde aquilo que se repete pode enfim ser entendido.

Se você quiser conversar sobre isso, agende uma consulta. Eu atendo online, para todo o Brasil.

Se a sua dúvida agora for sobre como funciona a terapia a distância, reuni o que a pesquisa mostra e o que mudou nas regras em psicanálise online.

Uma orientação que vale para qualquer profissional que você procurar, e não só para mim: todo psicólogo no Brasil precisa ter registro ativo no Conselho Regional, e isso é público. Você pode conferir o número de qualquer profissional no Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia, mantido pelo Conselho Federal. O meu é CRP 06/200925.

Continue lendo sobre dependência emocional

Priscila Soares Falchi
Privacidade

Usamos os cookies para entender como é sua navagação no site, para assim melhorar sua experiência com atualizações futuras!