Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

A pergunta que mais chega até mim, antes mesmo da primeira sessão, é se aquilo que a pessoa está sentindo já é motivo suficiente. Ela costuma dizer alguma coisa como "não sei se é caso de terapia" ou "tem gente passando por coisa muito pior". Eu entendo de onde isso vem, mas essa comparação atrapalha mais do que ajuda.

Não existe uma medida mínima de sofrimento para procurar um psicólogo. O critério não é a gravidade do que aconteceu com você, e sim o quanto aquilo está ocupando o seu dia. Uma pessoa pode estar bem por fora, com trabalho, família e vida social funcionando, e mesmo assim carregar um cansaço que ela não consegue explicar para ninguém.

Não precisa estar em crise

Muita gente espera chegar no limite para procurar um psicólogo, como se a terapia fosse um pronto-socorro. O problema é que, quando a crise chega, a pessoa já vem de meses ou anos empurrando alguma coisa com a barriga, e aí o trabalho começa num momento em que ela tem menos energia para fazê-lo.

Procurar antes da crise é uma forma de prevenção, não exagero. Por exemplo, quem começa a análise num período mais calmo consegue olhar para a própria história com mais espaço, sem a urgência de apagar um incêndio. E quando a vida aperta de novo, e ela sempre aperta em algum momento, essa pessoa já tem um lugar construído onde falar.

Os sinais de que é hora de procurar um psicólogo

Não existe uma lista fechada, porque cada história é uma história. Mas alguns sinais aparecem com muita frequência em quem chega ao consultório:

  • Você acorda cansada mesmo tendo dormido, e esse cansaço não passa no fim de semana.
  • Coisas que antes te davam prazer foram perdendo a graça, e você nem percebeu quando isso começou.
  • Você se pega repetindo o mesmo padrão em relações diferentes, sempre com o mesmo desfecho.
  • Existe uma irritação de fundo que aparece por motivo pequeno, e depois vem a culpa por ter reagido assim.
  • Você evita determinados assuntos, lugares ou pessoas, e já organizou a rotina em volta dessa fuga.
  • O corpo está falando: insônia, dor de cabeça, aperto no peito, estômago embrulhado, sem causa clínica que explique.
  • Você percebe que está funcionando no automático, cumprindo tarefas sem estar de fato ali.

Se você reconheceu alguns desses, isso não quer dizer que exista um diagnóstico esperando por você. Quer dizer que tem alguma coisa pedindo espaço para ser dita, e é disso que a análise trata.

O que as pessoas acham que não conta, mas conta

Existe uma lista de motivos que as pessoas descartam sozinhas, achando que são pequenos demais, e que na verdade são material de trabalho legítimo.

Por exemplo, dificuldade de tomar decisões, mesmo as simples. Ou aquela sensação de estar sempre em dívida com alguém. Ou não conseguir dizer não, e depois passar dias remoendo. Ou ainda a impressão de que a sua vida está boa no papel, mas você não sente o que imaginou que fosse sentir.

Nada disso precisa virar sintoma grave para merecer atenção. O sofrimento que se repete e não encontra saída sozinho já é razão suficiente, e o fato de outras pessoas terem problemas maiores não diminui o seu.

"Mas eu consigo lidar sozinha"

Provavelmente consegue mesmo, porque você vem conseguindo até aqui. A questão é a que custo, e por quanto tempo mais.

Lidar sozinha costuma significar administrar o sintoma, dormir menos, se distrair mais, evitar o assunto, se manter ocupada. Isso funciona por um tempo, mas não elabora nada, e o que não é elaborado tende a voltar, muitas vezes em outra forma.

Psicóloga anotando durante sessão de atendimento

A análise oferece uma coisa que a conversa com amigos, por melhor que ela seja, não oferece, alguém que escuta sem estar envolvido na sua história, sem precisar te consolar rápido e sem ter opinião sobre o que você deveria fazer.

O que o trabalho com um psicólogo não é

Parte da dúvida sobre procurar um psicólogo vem de uma expectativa que não corresponde ao que acontece de fato, e vale desfazer isso antes de começar.

A terapia não é alguém te dizendo o que fazer. Eu não vou te dar conselho sobre terminar uma relação, pedir demissão ou perdoar alguém, porque essas decisões são suas e só fazem sentido quando partem de você. O que a análise faz é te ajudar a entender de onde vem a dificuldade de decidir.

Também não é um espaço de desabafo apenas. Desabafar alivia por algumas horas, e isso tem valor, mas se fosse suficiente uma conversa com uma amiga resolveria. O trabalho analítico é outro, procura o que se repete, o que está por trás do que se repete, e o que aquilo protege.

E também não é um processo rápido. Por exemplo, uma questão que se organizou ao longo de vinte anos não se desfaz em quatro sessões. Isso não quer dizer que você vai passar anos sofrendo do mesmo jeito, porque o alívio costuma vir bem antes do fim do processo, mas é honesto dizer que é um processo.

O custo de adiar

Quase todo mundo que chega ao consultório diz a mesma frase em algum momento dos primeiros meses, "eu devia ter procurado antes".

No tempo de espera, a questão costuma se acomodar em vez de sumir. A pessoa vai construindo a vida em volta da dificuldade, e por exemplo deixa de aceitar convites, evita determinado tipo de conversa, escolhe trabalhos que exijam menos exposição. Quando ela finalmente procura um psicólogo, não é só a questão original que está ali, mas também tudo o que ela deixou de fazer por causa dela.

Isso não é motivo para culpa, porque adiar faz parte, e ninguém procura um psicólogo antes de estar pronto. Mas é motivo para não adiar mais depois que a pergunta já apareceu.

Como é a primeira conversa

Uma dúvida comum é o que a pessoa vai falar na primeira sessão, e o medo de não saber explicar direito o que está sentindo. Isso não é problema, é o ponto de partida.

A primeira conversa serve para você contar o que te trouxe, do jeito que conseguir, e para nós duas percebermos se faz sentido seguir juntas. Não precisa preparar nada, não precisa organizar a história em ordem cronológica, e não tem resposta certa. Muita gente chega dizendo "não sei nem por onde começar", e isso já é um começo.

Também não existe compromisso de continuar. Se depois dessa conversa você achar que não é o momento, ou que prefere outro psicólogo, está tudo bem.

Online ou presencial

Essa dúvida aparece bastante, e a resposta honesta é que o formato importa menos do que as pessoas imaginam. O que sustenta o processo é o vínculo e a regularidade, não a sala.

O atendimento online tem vantagens concretas, economiza o deslocamento, encaixa melhor em rotinas apertadas, e permite continuar o processo mesmo se você mudar de cidade. Por exemplo, quem viaja a trabalho com frequência costuma manter a análise sem interrupção, o que seria difícil no presencial.

O que ele exige é um cuidado prático, um lugar reservado, onde você fique à vontade para falar em voz alta sem se preocupar com quem está ouvindo. Isso faz uma diferença que se percebe logo.

Como escolher o psicólogo

Duas coisas são objetivas e você pode conferir antes de qualquer conversa. A primeira é o registro no Conselho Regional de Psicologia, que todo psicólogo tem e pode informar. A segunda é a formação, principalmente a abordagem com que a pessoa trabalha, porque isso muda bastante o tipo de trabalho que vocês vão fazer.

A terceira coisa não é objetiva, mas é a que mais pesa, como você se sentiu na primeira conversa. Não precisa ser conforto imediato, porque falar de coisas difíceis não é confortável. Mas precisa ter a sensação de que ali é um lugar onde você pode falar sem ser julgada.

Quando procurar um psicólogo com urgência

Tudo o que escrevi até aqui vale para um processo que se constrói com tempo. Mas existem situações em que a busca precisa ser imediata, e é importante dizer isso com clareza.

Se você tem pensamentos de tirar a própria vida, ou de se machucar, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, é gratuito e sigiloso. Se houver risco imediato, o pronto-socorro mais próximo ou o SAMU pelo 192.

Isso não substitui um processo terapêutico, mas é o cuidado que vem primeiro.

Se você chegou até aqui e reconheceu alguma coisa sua, agende uma primeira conversa. Eu atendo online para todo o Brasil, e a gente vê com calma se faz sentido seguir.

Quando a dúvida é sobre o formato, o que a pesquisa mostra e o que diz a norma do Conselho está reunido em psicanálise online. E quando o que traz até aqui é uma relação que se repete sempre do mesmo jeito, o nome disso costuma ser dependência emocional.

Uma orientação que vale para qualquer profissional que você procurar, e não só para mim, todo psicólogo no Brasil precisa ter registro ativo no Conselho Regional, e isso é público. Você pode conferir o número de qualquer profissional no Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia, mantido pelo Conselho Federal. O meu é CRP 06/200925.

Se eu consigo lidar sozinha, ainda vale a pena procurar um psicólogo?

Provavelmente você consegue mesmo, porque vem conseguindo até aqui. A questão é a que custo e por quanto tempo mais. Lidar sozinha costuma significar administrar o sintoma, dormir menos, se distrair mais, evitar o assunto, o que funciona por um tempo, mas não elabora nada. O que não é elaborado tende a voltar, muitas vezes de outra forma.

Motivos "pequenos", como dificuldade de dizer não, justificam procurar terapia?

Sim. Dificuldade de tomar decisões, mesmo as simples, a sensação de estar sempre em dívida com alguém, não conseguir dizer não e depois remoer por dias, ou sentir que a vida está boa no papel mas não sentir o que imaginava sentir, são motivos que as pessoas costumam descartar como pequenos demais, mas que na verdade já são material de trabalho legítimo.

O atendimento online tem alguma desvantagem em relação ao presencial?

A principal exigência é um cuidado prático, ter um lugar reservado, onde você fique à vontade para falar em voz alta sem se preocupar com quem está ouvindo. Fora isso, o online tem vantagens concretas, como economizar o deslocamento e permitir continuar o processo mesmo se você mudar de cidade.

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Priscila Soares Falchi
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