Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

Uma criança no luto raramente chora do jeito que o adulto espera. Ela pergunta se a avó vai voltar para o aniversário, volta a brincar dez minutos depois de saber da notícia e, semanas depois, começa a fazer xixi na cama de novo. Para quem está por perto isso confunde, e parece que ela não entendeu, ou que já superou.

Ela entendeu do jeito dela, e não superou. A criança elabora a perda em pedaços, entre uma brincadeira e outra, porque não aguenta ficar o tempo todo dentro da dor. O adulto que sabe disso ajuda muito mais do que o adulto que espera dela um luto de gente grande.

O que mais escuto de pais e responsáveis é a dúvida sobre o que falar e o que poupar. Reuni aqui o que a psicanálise entende sobre o assunto e o que costuma funcionar no dia a dia.

A criança no luto e o olhar da psicanálise

Na psicanálise, o luto é um trabalho, não um estado. Freud, em "Luto e Melancolia", de 1917, descreveu esse trabalho como a retirada lenta do investimento afetivo que estava depositado em quem se foi. É lento porque é feito lembrança por lembrança.

Para a criança no luto esse trabalho é mais difícil, por dois motivos. Ela ainda está construindo a noção de que a morte é definitiva, algo que costuma se firmar por volta dos sete ou oito anos. E ainda não tem palavras suficientes para nomear o que sente. O que não vira palavra costuma virar comportamento.

Por isso o luto infantil quase nunca aparece como tristeza declarada. Ele aparece na birra, no medo de dormir sozinha, na queda do rendimento escolar, na dor de barriga que o pediatra examina e não explica. A elaboração do luto segue sendo estudada na psicanálise brasileira, como neste artigo da revista Psicologia USP sobre o trabalho de luto.

Vela acesa e flor num vaso de vidro, sobre parapeito de janela

No brincar, o luto costuma aparecer em repetição, a criança encena o mesmo enterro, a mesma despedida, o mesmo acidente, várias vezes seguidas, do mesmo jeito. Essa repetição é uma tentativa de dominar aos poucos uma cena grande demais para ser sentida de uma vez só, e não fascínio mórbido, como pode parecer à primeira vista.

Como a criança no luto mostra o que sente

A forma muda bastante com a idade, e conhecer isso poupa muito susto.

Antes dos cinco anos, a morte costuma ser entendida como algo temporário. A criança pergunta várias vezes quando a pessoa volta, e cada vez que recebe a resposta é uma vez que ela precisa entender de novo. Repetir a pergunta não é desatenção, é o jeito que ela tem de ir assimilando.

Entre os seis e os dez anos a noção de definitivo se firma, e com ela costuma vir o medo. Medo de que outra pessoa morra, medo de dormir longe dos pais, e perguntas diretas sobre o corpo, o enterro, o que acontece depois. São perguntas legítimas e merecem resposta.

Na adolescência a dor já se parece com a do adulto, com um agravante, o adolescente costuma esconder para não preocupar a família e acaba elaborando tudo sozinho no quarto.

Com adolescentes, costuma ajudar mais oferecer presença do que insistir em conversa. Ficar por perto, disponível, sem forçar um desabafo que ele ainda não consegue nomear, é o que sustenta a confiança para que ele procure quando estiver pronto, mesmo que isso demore semanas ou meses.

Em qualquer idade a regressão é comum. Voltar a fazer xixi na cama, voltar a falar como criança menor, querer colo de novo. É a criança no luto procurando um lugar onde ela já se sentiu segura, não um retrocesso de verdade.

Saber disso muda a expectativa do adulto. Não se trata de "voltar ao normal" o quanto antes, e sim de acompanhar o ritmo próprio de cada faixa etária, ainda que ele pareça mais lento ou mais confuso do que o luto de um adulto costuma parecer de fora.

5 formas de ajudar a criança no luto

Os adultos em volta precisam estar disponíveis mesmo estando em dor, o que é pedir muito de quem também perdeu alguém. Ainda assim, estas cinco atitudes são as que mais mudam o percurso:

  1. Falar a verdade, com palavra simples. Diga que a pessoa morreu, e que morrer significa que o corpo parou de funcionar e ela não vai voltar. Evite os eufemismos que parecem suavizar e na prática confundem, como "virou estrelinha" ou "está dormindo". A criança leva ao pé da letra, e uma delas pode passar a ter medo de dormir.
  2. Aceitar o sentimento que aparecer. Tristeza, raiva, culpa, alívio, todos cabem, e nenhum precisa ser corrigido. A criança que pode chorar sem ouvir "não fica assim" aprende que a dor passa, em vez de aprender que ela incomoda.
  3. Deixar participar da despedida. Muitos pais evitam levar a criança ao velório, com a melhor das intenções. Dependendo da idade, e sempre com alguém de confiança ao lado explicando o que vai acontecer, participar ajuda a criança no luto a entender que a perda é real. Explique antes, ofereça a escolha e respeite se ela recusar.
  4. Manter a rotina. Escola, horário de dormir, o mesmo prato de sempre no jantar. A rotina é o que diz para ela, sem palavras, que o mundo continua de pé.
  5. Buscar apoio profissional quando o quadro não cede. Um psicanalista infantil trabalha pelo brincar, que é a linguagem que a criança tem, e ajuda a elaborar o que ela ainda não consegue dizer.

Vale reforçar que essas cinco atitudes não são para os primeiros dias apenas. O luto de uma criança costuma se estender por mais tempo do que os adultos esperam, e reaparecer em datas específicas, como aniversários ou o início de um novo ano letivo, muito depois de todos ao redor já terem seguido em frente.

A escola costuma ser um bom termômetro nesse período. Vale avisar a professora sobre a perda, não para que ela trate a criança de forma diferente o tempo todo, mas para que entenda uma queda de rendimento ou uma birra fora do padrão sem confundir isso com indisciplina.

O que é melhor não dizer

Algumas frases são ditas com carinho e produzem o efeito contrário. "Agora você é o homem da casa" transforma uma criança em adulto de um dia para o outro. "Não chora que a mamãe fica pior" ensina que sentir é errado. "Ele está te olhando lá de cima" pode virar vigilância, e não consolo.

Não há frase perfeita, e você não precisa achar uma. Dizer "eu também estou muito triste, e eu estou aqui" já entrega o essencial, que é a companhia.

Quando procurar ajuda de um profissional

Chorar, regredir e perguntar muito são reações esperadas nos primeiros meses. Vale procurar ajuda quando esses sinais não cedem depois de uns três meses, quando a criança para de brincar, quando se recusa a ir à escola de forma persistente, quando aparecem agressividade fora do comum ou queixas físicas repetidas, ou quando ela fala em se juntar a quem morreu.

O acompanhamento profissional, nesses casos, não substitui o cuidado dos adultos mais próximos dela. Serve como um espaço à parte, reservado só para ela, onde a criança pode elaborar o que sente sem se preocupar em proteger quem também está sofrendo ao seu redor.

Muitos pais relatam alívio ao descobrir esse espaço, porque tira deles a sensação de que precisam dar conta de tudo sozinhos, inclusive de cuidar da própria dor enquanto sustentam a dor da criança.

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Este texto trata de um aspecto do luto. Para o panorama completo, com os diferentes tipos de perda e o que a psicanálise entende sobre cada um, veja tipos de luto pelo olhar da psicanálise.

O que não devo dizer a uma criança enlutada, mesmo com boa intenção?

Frases como "agora você é o homem da casa" transformam a criança em adulto de um dia para o outro, "não chora que a mamãe fica pior" ensina que sentir é errado, e "ele está te olhando lá de cima" pode virar vigilância em vez de consolo. Não existe frase perfeita, e você não precisa achar uma: dizer "eu também estou muito triste, e eu estou aqui" já entrega o essencial, que é a companhia.

Por que frases como 'agora você é o homem da casa' fazem mal a uma criança enlutada?

Porque transformam a criança em adulto de um dia para o outro, cobrando dela uma responsabilidade que não é dela. Outras frases comuns também machucam sem intenção, como "não chora que a mamãe fica pior", que ensina que sentir é errado, ou "ele está te olhando lá de cima", que pode virar vigilância em vez de consolo.

O que dizer para uma criança que perdeu alguém, já que não existe frase perfeita?

Não existe frase perfeita, e você não precisa achar uma. Dizer algo simples como "eu também estou muito triste, e eu estou aqui" já entrega o essencial, que é a companhia.

Quando vale procurar acompanhamento profissional para uma criança enlutada?

Vale procurar quando os sinais esperados, como chorar, regredir e perguntar muito, não cedem depois de uns três meses, quando a criança para de brincar, se recusa a ir à escola de forma persistente, ou fala em se juntar a quem morreu. O acompanhamento não substitui o cuidado dos adultos próximos, serve como um espaço reservado só para ela.

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Priscila Soares Falchi
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