Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

Hoje, gostaria de abordar um tema que considero muito delicado e profundamente doloroso, que é a perda de um filho.

Como psicanalista e psicóloga, tenho me debruçado sobre o tema acerca do processo de luto de pais e responsáveis que vivenciaram essa experiência tão terrível, e sinto que é importante compartilhar algumas reflexões sobre esse processo de luto tão complexo.

Como lidar com a perda de um filho

A morte de um filho é uma das experiências mais traumáticas que um ser humano pode enfrentar. A perda de um filho rompe com a ordem natural da vida, na qual acreditamos que os pais deveriam partir antes dos filhos.

Essa é uma ferida narcísica profunda, que abala as bases da identidade parental e confronta a pessoa enlutada com a finitude da vida de forma brutal.

Sigmund Freud escreveu no texto "Luto e Melancolia" (1917) que o luto, de forma geral, é uma reação natural à perda de um objeto amado, que demanda um trabalho psíquico intenso.

No caso específico da perda de um filho, esse trabalho se torna ainda mais árduo, pois envolve o desinvestimento libidinal de um objeto que era parte fundamental da própria vida e identidade do enlutado.

Emoções vividas no luto

Nesse processo de luto, é comum que os pais enlutados vivenciem uma série de emoções muito intensas e também contraditórias. A negação inicial, a raiva, a culpa, a barganha e a profunda tristeza fazem parte desse turbilhão emocional. É muito importante acolher e legitimar esses sentimentos, sem julgamentos ou expectativas de um "tempo certo" para a elaboração do luto.

Não é possível imaginar o quão forte é a dor dessa perda, e por isso, o luto pela perda de um filho é um processo que talvez nunca se encerre completamente. É uma ferida que cicatriza, mas que sempre carregará a marca da ausência. E é justamente por isso que é preciso aprender a conviver com essa falta, ressignificando a relação com o filho perdido e encontrando novos investimentos libidinais.

No trabalho clínico com pais enlutados, é preciso oferecer um espaço de escuta acolhedor e não-julgamental.

Como psicanalista, penso que é preciso estar atenta às particularidades de cada caso, respeitando o tempo e o ritmo de cada enlutado. Não se trata de buscar uma "superação" ou o “esquecimento” do luto, mas sim de acompanhar o paciente em seu processo de elaboração e ressignificação da perda.

Pontos importantes a serem trabalhados no processo terapêutico

Legitimação e acolhimento dos sentimentos

É necessário que o enlutado se sinta acolhido e compreendido em seu sofrimento. O psicanalista deve oferecer um espaço seguro para a expressão das emoções, sem julgamentos ou expectativas de "superação".

Isso significa, na prática, que não cabe ao analista apressar o processo, sugerir que "já é hora de seguir em frente" ou comparar o luto de um pai com o de outro. Cada história com o filho perdido é única, e o espaço terapêutico existe justamente para que essa singularidade seja respeitada, não enquadrada num roteiro esperado de recuperação.

Elaboração da culpa

Muitos pais enlutados vivenciam intensos sentimentos de culpa, ainda que não tenham de fato culpa alguma, mas se questionam se poderiam ter feito algo para evitar a perda. É importante trabalhar esses sentimentos, compreendendo sua origem e buscando uma ressignificação.

Essa culpa, mesmo quando irracional do ponto de vista dos fatos, costuma cumprir uma função psíquica, por mais doloroso que seja, é menos insuportável para a mente sentir que algo poderia ter sido diferente do que aceitar que a perda foi, simplesmente, incontrolável. Reconhecer essa função é parte do que ajuda a culpa a perder força aos poucos.

Vela acesa e flor num vaso de vidro, sobre parapeito de janela

Ressignificação da relação com o filho perdido

O processo de luto envolve uma reorganização da relação com o objeto perdido. É preciso encontrar novas formas de se relacionar com a memória do filho, sem que isso impeça o investimento em novos objetos e projetos de vida.

Isso não significa esquecer, e é importante dizer isso com clareza, porque é um medo comum entre pais enlutados. Significa encontrar um lugar para essa relação que continue viva na memória e no significado, sem que a vida inteira precise parar em função da perda.

Fortalecimento dos vínculos familiares e sociais

A perda de um filho pode abalar profundamente as relações familiares e sociais. É importante trabalhar a comunicação e o apoio mútuo entre os membros da família, fortalecendo esses vínculos.

É comum, por exemplo, que cada membro da família viva o luto num ritmo diferente, o que às vezes é confundido com falta de amor ou de cuidado por parte de quem parece "seguir em frente" mais rápido. Nomear essa diferença como natural, e não como sinal de desamor, ajuda a evitar mágoas que se somam à dor original.

Um exemplo comum na clínica é o casal em que um dos dois volta ao trabalho semanas depois, e o outro ainda não consegue sair de casa. Isso não indica que um ama menos que o outro, indica só que cada mente processa a perda no seu próprio tempo, e cobrar sincronia nesse momento costuma machucar mais do que ajudar.

Respeito ao tempo particular de cada enlutado

Não existe um "prazo certo" para a elaboração do luto. Cada pessoa vivencia esse processo de forma pessoal, e é fundamental respeitar essa singularidade.

Isso vale também para datas específicas, aniversário, Dia das Mães, Dia das Crianças, que costumam reacender a dor mesmo depois de anos. Essas datas carregam significado para quem ficou, e é natural que o luto reapareça nelas, mesmo quando o processo já avançou bastante.

Grupos de apoio

Além do trabalho terapêutico individual, existem também grupos de apoio voltados para pais enlutados. Esses espaços de troca e acolhimento podem ser muito benéficos, permitindo o compartilhamento de experiências e o fortalecimento mútuo.

Ressignificar a dor

É importante também dizer que, apesar da intensidade da dor, é possível encontrar caminhos para a ressignificação da vida após a perda de um filho.

Não se trata de esquecer ou substituir o filho perdido, mas sim de aprender a conviver com sua ausência, encontrando novos sentidos e investimentos libidinais.

O trabalho de luto envolve também um processo criativo, no qual o enlutado pode sim encontrar novas formas de existir e de se relacionar com o mundo. É um processo extremamente doloroso, mas que também pode ser transformador.

A elaboração do luto continua sendo estudada na psicanálise brasileira, como neste artigo da revista Psicologia USP sobre o trabalho de luto.

Considerações finais

Encerro este post com um convite à reflexão e ao acolhimento. Se você está vivenciando o luto pela perda de um filho, saiba que não está sozinho(a). Busque apoio, seja na terapia, nos grupos de suporte ou junto a familiares e amigos. Permita-se vivenciar seu processo de luto, sem cobranças ou expectativas. E, acima de tudo, tenha compaixão consigo mesmo(a) nesse momento tão delicado.

Se você conhece alguém que esteja passando por essa experiência, ofereça sua escuta e seu suporte. Muitas vezes, um gesto de acolhimento e compreensão pode fazer toda a diferença.

Que possamos, como sociedade, falar mais abertamente sobre o luto e a perda, oferecendo espaços seguros para a elaboração dessa dor. E que possamos, como indivíduos, encontrar caminhos para ressignificar nossas vidas após as perdas que nos atravessam.

Este texto trata de um aspecto do luto. Para o panorama completo, com os diferentes tipos de perda e o que a psicanálise entende sobre cada um, veja Tipos de Luto pelo olhar da psicanálise.

É normal sentir culpa depois de perder um filho, mesmo sem ter feito nada de errado?

Sim, é muito comum. Muitos pais enlutados vivenciam intensos sentimentos de culpa, ainda que não tenham de fato culpa alguma, e se questionam se poderiam ter feito algo para evitar a perda. É importante trabalhar esses sentimentos no processo terapêutico, compreendendo sua origem e buscando uma ressignificação, em vez de carregá-los sozinho.

Esquecer o filho é preciso para seguir em frente?

Não. O processo de luto envolve encontrar novas formas de se relacionar com a memória do filho, sem que isso impeça o investimento em novos projetos de vida. Isso significa encontrar um lugar para essa relação que continue viva na memória, sem que a vida inteira precise parar em função da perda.

É normal que cada membro da família vivencie o luto de um jeito diferente?

Sim, e isso é comum e esperado. Às vezes é confundido com falta de amor por parte de quem parece "seguir em frente" mais rápido, mas nomear essa diferença como natural, e não como sinal de desamor, ajuda a evitar mágoas que se somam à dor original.

Existe um prazo certo para superar a perda de um filho?

Não existe um prazo certo para a elaboração do luto. Cada pessoa vivencia esse processo de forma pessoal, e é fundamental respeitar essa singularidade, inclusive quando datas específicas, como aniversários, reacendem a dor mesmo depois de muito tempo.

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Priscila Soares Falchi
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