Quando a gente atrapalha o próprio caminho
Existe um tipo de sofrimento que é difícil de explicar para os outros, porque de fora parece falta de vontade. É quando a pessoa quer uma coisa, tem condições de conseguir, e mesmo assim faz exatamente o que precisaria para não conseguir.
Ela adia a inscrição até o prazo fechar. Chega atrasada na entrevista que passou semanas esperando. Começa uma discussão às vésperas de um momento importante da relação. Depois olha para trás sem entender, e a explicação que sobra costuma ser a mais cruel, "eu sou assim mesmo, eu me sabotei de novo".
Índice
O que é autossabotagem
Autossabotagem é quando o comportamento da pessoa vai contra aquilo que ela mesma diz querer. Não é um evento isolado, porque todo mundo perde um prazo de vez em quando. O que caracteriza é a repetição, e principalmente a repetição justamente nos momentos que mais importam.
E aqui está o detalhe que muda tudo, isso não acontece por acaso, e também não acontece por falta de esforço. Existe uma lógica por trás, só que ela não é consciente. A pessoa não sabe o que está fazendo, e é exatamente por não saber que ela repete.

Como ela aparece no dia a dia
Ela raramente aparece de forma óbvia, e quase nunca a pessoa reconhece no momento em que está acontecendo. Alguns formatos comuns:
- Você adia uma decisão importante até que ela seja tomada por você, pelo prazo ou por outra pessoa.
- Perto de conseguir alguma coisa que queria muito, aparece um motivo para desistir, e ele sempre parece razoável.
- Você se cobra tanto na preparação que acaba não fazendo, porque nunca está bom o bastante para começar.
- Numa relação que vai bem, você cria um conflito, e só depois percebe que não tinha necessidade.
- Você aceita menos do que poderia, e chama isso de ser realista.
- Consegue o que queria e sente um vazio, em vez da satisfação que imaginava.
Repare que em nenhum desses exemplos existe alguém dizendo "vou me atrapalhar". A pessoa acredita nos próprios motivos enquanto age, e é isso que torna o padrão tão difícil de enxergar de dentro.
Por que a gente faz isso
A psicanálise parte de uma ideia que soa estranha no começo, mas explica muita coisa, todo comportamento que se repete está servindo para alguma coisa, mesmo quando faz mal.
Ou seja, se um padrão insiste em voltar, é porque ele está protegendo alguma coisa. E o trabalho analítico não é combater esse padrão, é descobrir o que ele protege. Enquanto isso não fica claro, brigar com o comportamento não adianta, porque ele volta em outra forma.
Por exemplo, quem sempre estraga a oportunidade antes de ela virar realidade pode estar se poupando de uma experiência muito pior do que perder a chance, que seria tentar de verdade e descobrir que não era suficiente. Falhar por não ter tentado dói menos do que falhar tendo dado tudo.
O medo de dar certo
Parece contraditório, mas é comum. Muita gente tem mais medo de conseguir do que de fracassar, e existem razões concretas para isso.
Conseguir muda o lugar que a pessoa ocupa. Ela deixa de ser aquela que está tentando e passa a ser aquela de quem se espera alguma coisa. Se ela cresce profissionalmente, precisa lidar com a inveja de quem ficou. Se a relação dá certo, ela tem mais a perder do que tinha antes. O sucesso traz exposição, e exposição traz risco.
Então o padrão que parece autodestrutivo é, por dentro, uma forma de se manter em terreno conhecido. Continuar tentando é desconfortável, mas é previsível. Chegar lá, no entanto, é território novo e desconhecido.
A lealdade invisível à história de origem
Existe uma razão que aparece muito no consultório e que costuma surpreender quem a descobre. Algumas pessoas se atrapalham porque conseguir significaria ultrapassar alguém da própria família.
Por exemplo, uma mulher cuja mãe abriu mão da carreira pode sentir, sem nunca ter pensado nisso de forma clara, que crescer profissionalmente é uma traição. Ou alguém que veio de uma família que sofreu muito pode carregar a sensação de que ter uma vida leve é injusto com quem não teve.
Isso não é escolha consciente e ninguém formula assim. Mas o corpo obedece a essa lealdade, e ela se manifesta como aquele travamento inexplicável na hora de avançar.
O perfeccionismo como disfarce
Existe uma forma de autossabotagem que passa completamente despercebida, porque ela é socialmente elogiada. Aqui entra o perfeccionismo.
A pessoa não entrega porque ainda não está bom. Refaz a apresentação pela quinta vez, adia o lançamento até estar impecável, não publica o texto porque falta revisar mais uma vez. De fora isso parece capricho e comprometimento, e ela recebe elogios por isso. Por dentro é outra coisa, porque enquanto não estiver pronto, ela não pode ser julgada.
O detalhe cruel é que nunca fica pronto o suficiente. E aí o perfeccionismo cumpre exatamente a função de proteger, porque adiar indefinidamente evita o momento em que o trabalho será visto e avaliado. É por isso que cobrar mais empenho de quem já está exausta de tanto refazer não resolve nada.
O corpo também entra nessa
Nem sempre a autossabotagem aparece como comportamento. Às vezes ela aparece pelo corpo, e isso confunde ainda mais, porque parece azar ou coincidência.
Por exemplo, aquela enxaqueca que aparece justamente na véspera da viagem que a pessoa esperou o ano inteiro. Ou a crise de gastrite antes de uma apresentação importante. Ou a insônia que chega na semana da entrevista, e não em nenhuma outra semana do mês.
O corpo é honesto de um jeito que a fala não é. Quando alguma coisa não pode ser dita, ela costuma encontrar outro caminho para se manifestar, e é por isso que a psicanálise leva o sintoma físico a sério em vez de tratá-lo como coincidência.
Não é preguiça nem falta de disciplina
Vale dizer isso com todas as letras, porque é o que mais machuca quem vive esse padrão. A internet transformou autossabotagem em falha de caráter, e a solução oferecida costuma ser mais disciplina, mais foco, mais método.
Mas disciplina resolve problema de organização, e isso aqui não é problema de organização. Quem se atrapalha nos momentos decisivos normalmente é bastante capaz e disciplinada em outras áreas da vida, o que já mostra que a explicação não está aí.
Aliás, se fosse falta de método, as pessoas resolveriam com agenda e aplicativo. E se você já tentou isso e voltou ao mesmo lugar, essa é a prova de que a questão está em outro nível.
O que muda na análise
O trabalho não começa tentando corrigir o comportamento. Começa observando quando ele aparece, o que estava em jogo naquele momento, e o que teria acontecido se você tivesse seguido em frente.
Aos poucos, o padrão deixa de ser um evento aleatório e começa a fazer sentido dentro da sua história. E quando ele faz sentido, ele perde força, porque o que se repete cegamente é o que a gente não entendeu.
O que muda no final não é você virar uma pessoa sem medo. O medo continua existindo, mas ele para de decidir por você. É essa a diferença entre repetir e escolher.
Se esse tema conversa com você, vale olhar também para a dependência emocional, que trata de outro padrão que se repete e tem raízes parecidas.
Por onde começar
O primeiro passo não é se cobrar para parar de se atrapalhar, porque isso costuma piorar. É começar a reparar em que situações o padrão aparece, e o que existe em comum entre elas.
Você vai perceber que não é em qualquer momento. É num tipo específico de momento, e esse tipo tem a ver com a sua história.
Se você quiser olhar isso com ajuda, agende uma primeira conversa. Atendo online para todo o Brasil.
E quando a dúvida é sobre atender por vídeo, os dados e a norma atual estão reunidos em psicanálise online.
Uma orientação que vale para qualquer profissional que você procurar, e não só para mim, todo psicólogo no Brasil precisa ter registro ativo no Conselho Regional, e isso é público. Você pode conferir o número de qualquer profissional no Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia, mantido pelo Conselho Federal. O meu é CRP 06/200925.
O que é autossabotagem?
É quando o comportamento da pessoa vai contra aquilo que ela mesma diz querer. Não é um evento isolado — todo mundo perde um prazo de vez em quando — o que caracteriza é a repetição, principalmente nos momentos que mais importam. Isso não acontece por acaso nem por falta de esforço: existe uma lógica por trás, só que ela não é consciente.
Por que algumas pessoas se sabotam quando estão perto de conseguir o que querem?
Existe uma razão que aparece muito no consultório e que costuma surpreender quem a descobre. Algumas pessoas se atrapalham porque conseguir significaria ultrapassar alguém da própria família, e isso não é uma escolha consciente, é uma lealdade invisível à história de origem.
Perfeccionismo pode ser uma forma de autossabotagem?
Sim, e é uma das formas que passam mais despercebidas, porque é socialmente elogiada. A pessoa não entrega porque ainda não está bom, refaz o trabalho várias vezes, adia o lançamento até estar impecável, e de fora isso parece capricho e comprometimento. Por dentro é outra coisa, porque enquanto não estiver pronto, ela não pode ser julgada.
A autossabotagem pode aparecer no corpo, e não só no comportamento?
Sim. Nem sempre a autossabotagem aparece como comportamento, às vezes ela aparece pelo corpo, o que confunde ainda mais porque parece azar ou coincidência. É o caso da enxaqueca que surge justamente na véspera de uma viagem esperada o ano inteiro, ou da insônia que chega bem na semana da entrevista.
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