Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

Essa é uma das perguntas mais difíceis que chegam até mim, e ela quase nunca vem sozinha. Vem acompanhada de culpa, de dúvida, e de uma frase que os pais repetem em tom de desculpa, "eu não sei se é problema ou se é a idade".

A dificuldade é real, e não é falha dos pais. A adolescência é, por definição, um período de mudança intensa, e muita coisa que em um adulto seria sinal de alerta é comportamento esperado nessa fase. O desafio não é saber se o seu filho mudou, porque ele mudou mesmo. É perceber quando essa mudança passou a ser sofrimento.

Nem tudo é "só fase"

A frase "é só uma fase" é verdadeira em muitos casos, e por isso ela atrapalha tanto. Quando ela vira resposta automática, deixa de descrever a realidade e passa a servir para adiar uma conversa que incomoda.

O problema de esperar passar é que a adolescência é um período de construção. O que se organiza nesses anos, inclusive o modo de lidar com frustração e com as próprias emoções, tende a acompanhar a pessoa por muito tempo. Por exemplo, um adolescente que aprende que sentimento não se fala em casa costuma virar um adulto que não pede ajuda.

Isso não quer dizer que todo adolescente precisa de terapia. Quer dizer que "vai passar" não deveria ser a única resposta disponível quando alguma coisa está claramente pesando.

Os sinais que merecem atenção

Nenhum item sozinho define nada, e adolescente é feito de altos e baixos. O que pesa é a intensidade, a duração e principalmente a mudança em relação a como ele era:

  • Ele se afastou de amigos que eram importantes, e não construiu outras relações no lugar.
  • Largou atividades de que gostava, sem trocar por nenhuma outra.
  • O sono mudou muito: dorme demais, ou não consegue dormir, e isso já dura semanas.
  • O rendimento na escola caiu de forma acentuada, e não por falta de esforço.
  • A irritação virou o estado padrão, e qualquer conversa termina em conflito.
  • Ele passou a evitar a família de um jeito diferente do normal, se trancando por longos períodos.
  • Você percebeu marcas no corpo, ou ele passou a usar roupa comprida em qualquer temperatura.
  • Fala de si mesmo com desprezo, mesmo em tom de brincadeira.
  • Houve mudança grande no apetite ou no peso, para mais ou para menos.

Os dois últimos merecem atenção redobrada e não devem esperar. Falo sobre cada um deles no fim do texto.

O que é esperado na adolescência

É justo dizer também o que não precisa preocupar, porque muita família se assusta com o que é próprio da fase.

Querer ficar sozinho é esperado, porque construir a própria identidade exige um espaço que não seja o da família. Questionar as regras é esperado, e inclusive necessário. Ter vergonha dos pais em público é esperado. Mudar de opinião, de estilo e de grupo de amigos com frequência também é.

Por exemplo, um adolescente que passou a fechar a porta do quarto e responder por monossílabos não está necessariamente em sofrimento. Ele pode estar fazendo exatamente o que aquela idade pede, que é criar uma fronteira. A diferença é que, no desenvolvimento saudável, ele se afasta da família mas se aproxima de outros vínculos, como amigos e relacionamentos. Quando o afastamento é de tudo ao mesmo tempo, aí muda de figura.

Quando procurar ajuda

A régua que costumo sugerir para as famílias é simples, e não depende de você ter formação em psicologia.

Procure quando o sofrimento estiver atrapalhando a vida dele. Ou seja, quando ele já não consegue estudar, conviver, dormir ou aproveitar as coisas de que gostava. Procure também quando a mudança durar mais de algumas semanas e não mostrar sinal de melhora. E procure quando o seu instinto disser que alguma coisa não está bem, mesmo que você não consiga nomear o quê.

Esse último ponto merece toda a confiança dele. Pais convivem com aquele filho a vida inteira e percebem mudanças que não aparecem em nenhuma lista. Se você sente que ele não está bem, isso já é razão para conversar com um profissional, nem que seja para ouvir que está tudo dentro do esperado.

E se ele não quiser ir?

Essa é a segunda pergunta que mais aparece, e a resistência é comum. Adolescente costuma reagir mal à ideia de terapia, principalmente quando ela chega como decisão dos pais.

Ainda assim, algumas coisas ajudam bastante. A primeira é não apresentar a terapia como punição ou como conserto, porque a frase "você precisa de ajuda" soa como "você tem um defeito". Funciona melhor apresentar como um espaço dele, onde ele pode falar o que quiser, inclusive sobre os pais.

A segunda é combinar um número pequeno de encontros e deixar a decisão em aberto depois disso. Saber que não está preso a um compromisso indefinido reduz muito a resistência.

E se mesmo assim ele recusar, os pais podem ir sozinhos. Isso não é prêmio de consolação, entender o que está acontecendo e mudar o jeito de conversar em casa muda o ambiente em que ele vive, e não é raro que ele aceite depois.

Adolescente sentada na cama usando o celular

O sigilo, e o que os pais podem saber

Aqui existe uma dúvida legítima, e é melhor tratá-la abertamente desde o começo.

O que o adolescente fala em sessão é sigiloso, e esse sigilo é o que permite que ele fale de verdade. Se ele achar que tudo será relatado em casa, ele não vai usar o espaço, e o processo perde o sentido.

Isso não significa que os pais ficam de fora. Existem encontros com a família, combinados com ele, para orientação e para pensar juntos o que está acontecendo. O que muda é que eu não relato conteúdo de sessão, mas oriento sobre o que é importante para o cuidado dele.

A exceção é uma só, e ela é dita ao adolescente desde o primeiro dia, se houver risco à vida dele ou de alguém, os responsáveis são informados. É o que o cuidado exige, não quebra de confiança.

O lugar dos pais no processo

Uma pergunta que ouço com frequência é se os pais fizeram alguma coisa errada. A resposta honesta é que essa não é a pergunta útil.

Não existe família sem falha, e procurar o culpado consome uma energia que faria falta em outro lugar. O que ajuda de verdade é olhar para o que está acontecendo agora e para o que pode ser feito daqui em diante.

Na prática, o que mais muda o quadro é a disponibilidade dos pais para escutar sem corrigir. Adolescente costuma parar de falar quando percebe que toda frase vira lição de moral, e volta a falar quando descobre que pode dizer alguma coisa e ela apenas será ouvida.

Adolescente aceita atendimento online?

Costuma aceitar melhor do que os pais imaginam, e por um motivo que faz sentido, essa geração já vive relações inteiras por tela, e falar por vídeo não é estranho para ela como pode ser para um adulto.

Tem uma vantagem adicional que aparece bastante. No online, o adolescente não precisa ser levado por ninguém, não encontra conhecidos na sala de espera, e tem mais sensação de controle sobre o próprio processo. Para essa idade, controle importa muito.

O cuidado necessário é o mesmo do adulto, e cabe aos pais garantir isso, um lugar da casa onde ele possa falar sozinho, com a porta fechada, sem alguém escutando do outro lado.

Quando a busca precisa ser imediata

Tudo o que escrevi até aqui vale para um processo que se constrói com tempo. Mas existem situações que não esperam, e é importante nomeá-las.

Se o seu filho falou em morrer, em desaparecer, ou disse que a vida não vale a pena, mesmo em tom de brincadeira, procure ajuda agora. O mesmo vale se você encontrou marcas de autolesão. Não espere confirmar, não espere passar, e não tenha medo de perguntar diretamente. Perguntar sobre isso não coloca a ideia na cabeça de ninguém, e costuma ser um alívio para quem está carregando aquilo sozinho.

O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, é gratuito e sigiloso, e atende também familiares. Em risco imediato, o pronto-socorro mais próximo ou o SAMU pelo 192.

Se você reconheceu seu filho em alguma coisa deste texto e quer conversar, agende uma primeira conversa. Atendo crianças a partir de 7 anos, adolescentes e adultos, online para todo o Brasil.

O que muda e o que não muda no atendimento por vídeo, inclusive com adolescentes, está em psicanálise online. E a linha entre esperar e agir agora é o assunto de quando procurar um psicólogo.

Se você quiser se aprofundar no assunto, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou um Manual de Adolescência que trata da saúde física e mental nessa faixa etária, e que registra o aumento da demanda por questões psicossociais nos consultórios. E, sobre escolher o profissional, todo psicólogo tem registro público, e dá para conferir no Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia. O meu é CRP 06/200925.

E se ele não quiser ir?

A resistência é comum, principalmente quando a terapia chega como decisão dos pais. Ajuda não apresentá-la como punição ou conserto, e sim como um espaço dele, onde pode falar o que quiser. Combinar um número pequeno de encontros e deixar a decisão em aberto depois costuma reduzir bastante a resistência. E se mesmo assim ele recusar, os pais podem ir sozinhos: não é prêmio de consolação, e muda o ambiente em que ele vive.

Adolescente aceita atendimento online?

Costuma aceitar melhor do que os pais imaginam, porque essa geração já vive relações inteiras por tela. No online, o adolescente não precisa ser levado por ninguém, não encontra conhecidos na sala de espera, e tem mais sensação de controle sobre o próprio processo. O cuidado necessário cabe aos pais: garantir um lugar da casa onde ele possa falar sozinho, com a porta fechada.

É normal um adolescente querer ficar sozinho e questionar tudo?

Sim, isso é esperado. Querer ficar sozinho é parte de construir a própria identidade, que exige um espaço que não seja o da família. Questionar as regras também é esperado, e até necessário, assim como ter vergonha dos pais em público e mudar de opinião, de estilo e de grupo de amigos com frequência.

Por que não vale a pena só esperar a fase passar?

Porque a adolescência é um período de construção, e o que se organiza nesses anos, inclusive o modo de lidar com frustração e com as próprias emoções, tende a acompanhar a pessoa por muito tempo. Um adolescente que aprende que sentimento não se fala em casa costuma virar um adulto que não pede ajuda.

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Priscila Soares Falchi
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