Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

As transformações emocionais da menopausa, além dos sintomas físicos

As transformações emocionais da menopausa, além dos sintomas físicos

A menopausa é um marco significativo na vida das mulheres, representando não apenas o fim do período reprodutivo, mas também uma série de transformações físicas, emocionais e sociais.

Embora os sintomas físicos, como ondas de calor, secura vaginal e alterações do sono, sejam amplamente discutidos, os impactos da menopausa na psiquê feminina ainda são pouco explorados.

Neste post, você vai mergulhar nas complexidades emocionais da meia-idade e entender como a psicanálise pode ajudar as mulheres a navegarem por essa fase desafiadora.

O luto do corpo jovem e a ressignificação da feminilidade

Um dos principais desafios psicológicos da menopausa é o luto do corpo jovem e da capacidade reprodutiva. Em uma sociedade que valoriza a juventude e a maternidade como atributos essenciais da feminilidade, o fim dos ciclos menstruais pode ser vivenciado como uma perda significativa, despertando sentimentos de inadequação, baixa autoestima e até mesmo depressão.

Isso aparece na sessão de um jeito muito concreto, uma paciente que sempre organizou a vida em torno do calendário menstrual, do planejamento familiar, da expectativa, própria ou alheia, de ainda poder engravidar, de repente se vê diante do fim dessa possibilidade, e o que dói é a identidade que se apoiava naquele corpo, não só o corpo que muda. Nomear esse luto, em vez de atravessá-lo em silêncio como se fosse só uma fase hormonal, já é o primeiro passo da elaboração.

Mulher madura em momento de reflexão

Ressignificando a feminilidade

Nesse contexto, a psicanálise pode ajudar as mulheres a ressignificarem sua feminilidade para além dos estereótipos sociais, valorizando a sabedoria, a experiência e a liberdade que a maturidade pode trazer. Através da escuta analítica, é possível explorar as fantasias, medos e desejos inconscientes relacionados ao envelhecimento e à sexualidade, construindo novas narrativas sobre o que significa ser mulher em diferentes etapas da vida.

Atendi mulheres que, depois de anos organizando a vida em torno da aparência jovem, descobriram na menopausa uma liberdade inesperada, a de não precisar mais corresponder a um padrão que nunca foi só delas, mas herdado de fora.

A revisão dos papéis e relacionamentos

A menopausa também coincide com uma fase de revisão dos papéis e relacionamentos na vida das mulheres. Muitas vezes, é um período em que os filhos estão saindo de casa, os pais envelhecendo e a relação conjugal se transformando. Essas mudanças podem despertar questões existenciais profundas, como o propósito da vida, a satisfação com as escolhas feitas e o medo da solidão.

Um exemplo comum é o da mulher que passa a vida inteira organizada em torno do cuidado dos filhos e, quando eles saem de casa na mesma época em que os ciclos menstruais terminam, se depara com duas perdas simultâneas, o papel de mãe presente no dia a dia e a identidade ligada à fertilidade. É nesse acúmulo de perdas, e não em uma só, que costuma morar boa parte do peso emocional dessa fase.

A menopausa e a psicanálise

Na clínica psicanalítica, é comum que mulheres na menopausa tragam questões relacionadas à sua identidade e aos seus vínculos afetivos. O trabalho terapêutico pode ajudá-las a elaborar as perdas e os lutos dessa fase, bem como a se reconectar com seus desejos e projetos pessoais.

Pela associação livre e da interpretação, auxilio pacientes a identificar padrões relacionais e emocionais que precisam ser ressignificados, abrindo espaço para novas formas de se relacionar consigo mesma e com os outros.

O retorno do recalcado e a elaboração do feminino

Outro fenômeno comum na menopausa é o retorno de conteúdos psíquicos recalcados, especialmente aqueles relacionados à sexualidade e à identidade feminina. Com a diminuição dos hormônios sexuais, muitas mulheres relatam uma redução da libido e dificuldades de excitação e orgasmo. Esses sintomas podem ser vivenciados com grande sofrimento, despertando fantasias de inadequação e rejeição.

Elaboração psíquica por meio da psicanálise

No entanto, a psicanálise nos ensina que a sexualidade feminina vai muito além da genitalidade e da reprodução, estando ligada a questões complexas como o desejo, o amor e a criatividade. Na clínica, o analista pode ajudar a paciente a explorar suas fantasias e angústias sexuais, dando voz aos aspectos do feminino que foram silenciados ao longo da vida. Através da elaboração psíquica, é possível ressignificar a relação com o corpo e com o prazer, descobrindo novas formas de expressão da sexualidade na maturidade.

Na prática clínica, isso costuma aparecer como a queixa de já não reconhecer o próprio desejo, como se ele tivesse simplesmente desaparecido junto com os hormônios. Mas o que geralmente se descobre, ao longo do processo, é que o desejo não desapareceu, ele só deixou de caber nos moldes antigos e precisa ser procurado de um jeito novo, sem a pressa ou o roteiro que a vida reprodutiva impunha.

A menopausa como oportunidade de transformação

Apesar dos desafios, a menopausa também pode ser vivenciada como um momento de grande transformação e crescimento pessoal. Livre das preocupações com a contracepção e a maternidade, muitas mulheres relatam uma sensação de liberdade e autonomia, podendo se dedicar mais a si mesmas e a seus projetos de vida.

Uma paciente relatou ter voltado a pintar depois de décadas, algo que tinha deixado de lado quando os filhos nasceram. Foi o espaço que sobrou depois que outras urgências pararam de ocupar todo o tempo que permitiu esse retorno, mais do que a menopausa em si.

O propósito da psicanálise para a mulher na menopausa

Na perspectiva psicanalítica, a menopausa pode ser vista como um segundo processo de individuação, no qual a mulher tem a oportunidade de se reapropriar de sua história e de seus desejos. Através do trabalho terapêutico, é possível elaborar as feridas e os conflitos do passado, construindo uma narrativa mais integrada e autêntica de si mesma. Ao se desprender dos papéis e expectativas sociais, a mulher pode se reconectar com sua essência e criar formas de estar no mundo.

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Sobre a parte clínica dessa fase, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia reúne orientação confiável.

Em conclusão

A menopausa é uma fase complexa e desafiadora na vida das mulheres, trazendo não apenas mudanças físicas, mas também profundas transformações emocionais e existenciais. Ao olhar para essa experiência através das lentes da psicanálise, podemos compreender melhor os impactos da menopausa na psiquê feminina e oferecer um espaço de acolhimento e elaboração para as mulheres que estão passando por essa transição.

Mais do que um período de perdas e limitações, a menopausa pode ser vivenciada como um momento de ressignificação da feminilidade, de revisão dos vínculos afetivos e de reencontro com os próprios desejos. Através do trabalho analítico, as mulheres podem se apropriar de sua história, elaborar os lutos e conflitos do passado e se abrir para novas possibilidades de ser e estar no mundo.

Nesse sentido, a psicanálise se apresenta como uma ferramenta valiosa para as mulheres na meia-idade, oferecendo um espaço de escuta e reflexão sobre as questões mais íntimas e profundas da existência. Ao se aventurar nessa jornada de autoconhecimento, as mulheres podem descobrir que a menopausa, mais do que um fim, é um novo começo, repleto de potencialidades e descobertas.

Vale dizer que nada disso acontece de uma vez. É um processo que se constrói aos poucos, na escuta, e não numa virada de chave depois de ler um texto sobre o assunto.

Este texto trata de um aspecto dessa fase. Para entender como o trabalho analítico atua no climatério de forma geral, veja Menopausa: Como a psicanálise ajuda mulheres no climatério.

A queda da libido na menopausa é definitiva?

Não necessariamente. A psicanálise entende que a sexualidade feminina vai muito além da genitalidade e da reprodução, estando ligada a desejo, afeto e criatividade. Na clínica, é comum que a queda inicial da libido dê lugar, ao longo da elaboração, a novas formas de expressão do desejo e do prazer, sem o roteiro e a pressa que a vida reprodutiva impunha.

Por que a menopausa costuma trazer perdas que vão além do corpo?

Porque costuma coincidir com outras perdas simultâneas, como filhos que saem de casa ou uma revisão de papéis e relacionamentos, e é nesse acúmulo, não em uma perda isolada, que costuma morar boa parte do peso emocional dessa fase.

A psicanálise pode ajudar a ressignificar a feminilidade na menopausa?

Sim. A psicanálise pode ajudar as mulheres a ressignificarem sua feminilidade para além dos estereótipos sociais, valorizando a sabedoria, a experiência e a liberdade que a maturidade pode trazer, através da escuta analítica que explora fantasias, medos e desejos inconscientes ligados ao envelhecimento e à sexualidade.

Por que conteúdos psíquicos antigos podem retornar durante a menopausa?

Porque a menopausa costuma trazer de volta conteúdos psíquicos recalcados, especialmente ligados à sexualidade e à identidade feminina. Com a queda dos hormônios sexuais, muitas mulheres relatam mudanças na libido, e esses sintomas podem vir acompanhados de fantasias de inadequação e rejeição que remetem a conflitos bem mais antigos.

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Priscila Soares Falchi
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