Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

Quando Freud encontra a era digital: visão psicanalítica sobre a influência da tecnologia no bem-estar emocional

A era digital trouxe uma mudança sem precedentes em como nos relacionamos, trabalhamos e vivemos. As tecnologias de informação e comunicação, cada vez mais presentes no nosso dia a dia, não só têm alterado nossa realidade externa, mas também nosso mundo interno.

Como psicanalista, me pergunto sobre qual o impacto da digitalização em nossas vidas emocionais.

O que Freud diria sobre essa nova realidade da era digital?

Para entender isso à luz da psicanálise, é importante explorarmos alguns conceitos essenciais da teoria freudiana. Freud em seu texto “O Mal-estar na Civilização” afirmou que o psiquismo humano é influenciado por duas forças opostas, a pulsão de vida (Eros) e a pulsão de morte (Tânatos). Enquanto a pulsão de vida busca preservar e unir, a pulsão de morte se inclina para a destruição e o retorno ao estado inorgânico. É desse conflito entre essas forças que surge o dilema psíquico, base da neurose e do mal-estar na civilização.

Homem sentado no banco absorto no celular

Outro conceito importante na psicanálise é o narcisismo, que envolve o investimento emocional do sujeito em si mesmo. O egoísmo inicial, que surge nos estágios iniciais da vida, é aos poucos substituído pelo interesse afetivo em elementos externos, um processo fundamental na criação de laços emocionais e na integração do sujeito na sociedade e elaboração do ego.

Contudo, diante de situações de contrariedade ou perigo, é possível que o indivíduo retroceda a estados mais egocêntricos, desviando seu interesse dos elementos externos e direcionando sua energia para o próprio eu.

Como a tecnologia impacta no psiquismo humano?

Considerando essas ideias psicanalíticas, surge a questão importante. Como a tecnologia impacta as pulsões internas e o equilíbrio narcísico do indivíduo contemporâneo?

Uma possibilidade é que a digitalização e o tempo gasto em tela, ao proporcionar gratificação instantânea e contínua, alimenta os impulsos autodestrutivos e um ego excessivamente centrado em si mesmo.

As redes sociais, por exemplo, ao possibilitarem a construção de uma imagem idealizada própria e incentivarem uma busca constante por curtidas e aprovação, podem promover um investimento exagerado no EU em detrimento das relações interpessoais.

Adicionalmente, a tecnologia ao criar uma ilusão de onipotência e controle pode estar contribuindo para negar simbolicamente as limitações humanas e resistir à aceitação da diversidade.

No mundo virtual, onde tudo parece possível e ao alcance das mãos, as pessoas podem enfrentar desafios ao lidar com a ausência, frustração e diferenças - aspectos essenciais para o desenvolvimento psicológico e social

Além disso, devemos considerar o impacto da tecnologia nas relações interpessoais e emocionais. Freud destacou como as relações interpessoais moldam a mente e influenciam a formação da personalidade.

No entanto, na era digital, essas relações mediadas pela tecnologia tendem a ser superficiais, passageiras e descartáveis, o que dificulta a criação de laços afetivos profundos e duradouros (Bauman, 2003).

Resumindo o que isso quer dizer na prática, a tecnologia não cria a fragilidade emocional, mas facilita um jeito de fugir dela. A gratificação instantânea da tela substitui o tempo de espera que qualquer vínculo de verdade exige, e é justamente esse tempo de espera, com a frustração que ele carrega, que ensina a lidar com o outro como alguém real, e não como uma imagem que se ajusta ao seu desejo.

A falta de contato físico real na era digital

A falta de contato físico real e presença direta do outro pode levar a uma “atrofia emocional", na qual é difícil para as pessoas reconhecerem suas próprias emoções e as dos outros. Isso pode resultar em uma diminuição da vida emocional e em uma maior susceptibilidade a problemas como ansiedade, depressão e solidão.

Isso aparece de um jeito bem prático. Alguém que consegue expor um sentimento complicado numa mensagem de texto, com tempo para escolher cada palavra, mas trava completamente na hora de dizer a mesma coisa olhando no olho de alguém. A tela dá um distanciamento que protege, só que esse mesmo distanciamento também impede o treino de tolerar o desconforto real do encontro, que é onde boa parte da regulação emocional se desenvolve.

É importante salientar que a tecnologia não é intrinsecamente boa ou má. Como apontado por Freud, a civilização sempre impõe limites à satisfação dos impulsos instintivos e requer concessões por parte dos indivíduos.

Como cada indivíduo enfrentará essas limitações e descobrirá maneiras criativas e satisfatórias é a questão em destaque.

É por isso que a resposta não está em abandonar a tecnologia, e sim em usá-la com mais consciência do que ela facilita e do que ela evita.

Como a psicanálise entende a tecnologia no âmbito do impacto emocional?

Neste contexto, a psicanálise pode proporcionar um espaço para refletir e explorar o impacto da tecnologia em nossas vidas emocionais. Por meio do diálogo e da escuta atenta, é possível que a pessoa se aproprie de sua própria história, compreenda seus desejos e conflitos, e encontre novos significados para sua existência para além das gratificações instantâneas oferecidas pela tecnologia.

Além disso, a psicanálise nos orienta a considerar maneiras mais saudáveis e inovadoras de interagir com a tecnologia sem cair nas armadilhas do narcisismo ou da pulsão destrutiva. Isso envolve estabelecer limites claros, preservar espaços íntimos e serenos, nutrir relacionamentos significativos e investir em atividades sublimadas como arte, conhecimento e trabalho.

O atendimento psicológico a distância é regulamentado no Brasil. A Resolução nº 9/2024 do Conselho Federal de Psicologia define as regras em vigor.

Quais os desafios da era digital para a psicanálise?

Resumidamente, a era digital, principalmente quando falamos de redes sociais e jogos online, tem apresentado desafios complexos para nossa vida emocional que demandam uma reflexão crítica e uma abordagem multidisciplinar.

A psicanálise, com sua vasta base teórica e foco na singularidade de cada indivíduo, pode enriquecer esse debate ao iluminar as dinâmicas inconscientes que permeiam nossa interação com a tecnologia.

Na prática clínica, isso aparece em coisas simples. Alguém que checa o celular no meio de uma conversa importante, ou que sente um vazio difícil de nomear depois de horas rolando as redes, sem saber apontar o que faltou. O que causa esse vazio é o que o aparelho permite evitar, o silêncio, a espera, e o encontro com aquilo que ainda não tem resposta pronta, não o aparelho em si.

Cabe a cada um de nós, enquanto sujeitos pensantes e desejantes, encontrar um equilíbrio viável entre as exigências da era digital e as necessidades de nosso mundo interior. É responsabilidade da psicanálise, enquanto área de conhecimento e prática clínica, continuar a acompanhar as mudanças de nosso tempo, proporcionando um ambiente onde essa reflexão possa acontecer com calma, sem pressa por resposta pronta.

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Este texto é anterior à Resolução CFP nº 9/2024, que mudou as regras do atendimento psicológico por meios digitais no Brasil. Reuni o quadro atualizado, com a norma em vigor e o que a pesquisa brasileira mostra sobre eficácia, em psicanálise online: como funciona e o que dizem os estudos.

Como a tecnologia impacta no psiquismo humano?

A tecnologia não cria a fragilidade emocional, mas facilita um jeito de fugir dela. A gratificação instantânea da tela substitui o tempo de espera que qualquer vínculo de verdade exige, e é justamente esse tempo de espera, com a frustração que ele carrega, que ensina a lidar com o outro como alguém real, e não como uma imagem que se ajusta ao seu desejo.

Por que a falta de contato físico real pode causar 'atrofia emocional'?

A falta de contato físico real e presença direta do outro pode levar a uma "atrofia emocional", na qual fica difícil reconhecer as próprias emoções e as dos outros. Isso pode resultar em diminuição da vida emocional e em maior susceptibilidade a problemas como ansiedade, depressão e solidão.

Como a psicanálise ajuda a lidar com o impacto emocional da tecnologia?

A psicanálise pode proporcionar um espaço para refletir e explorar o impacto da tecnologia nas vidas emocionais. Por meio do diálogo e da escuta atenta, é possível que a pessoa se aproprie de sua própria história, compreenda seus desejos e conflitos, e encontre novos significados para sua existência para além das gratificações instantâneas oferecidas pela tecnologia.

Quais são os principais desafios da era digital para a saúde emocional?

A era digital, principalmente quando falamos de redes sociais e jogos online, tem apresentado desafios complexos para a vida emocional que demandam reflexão crítica e uma abordagem multidisciplinar.

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Priscila Soares Falchi
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