Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

O trauma psíquico, seguindo Freud, pode ser compreendido como um acontecimento impactante na vida do sujeito, que rompe a defesa do ego, inundando a mente com uma sobrecarga de estímulos que não podem ser processados e integrados adequadamente. Essa sobrecarga de excitação, fica retida na psique, buscando constantemente uma forma de se expressar.

O trauma psíquico sob o olhar da Psicanálise

O conceito de trauma é central na teoria psicanalítica e foi investigado por Freud ao longo de toda a obra. Para ele, trata-se de um acontecimento que ultrapassa a capacidade da pessoa de suportar e processar o que viveu, e cujos efeitos podem durar anos.

A teoria freudiana segue sendo a base da compreensão psicanalítica sobre o impacto de experiências avassaladoras. Autores que vieram depois, como Sándor Ferenczi, Donald Winnicott e Heinz Kohut, ampliaram esse entendimento ao mostrar o peso do ambiente dos primeiros anos e das relações próximas, tanto na origem quanto no tratamento.

Como foi o início do estudo do trauma psicológico na psicanálise

Freud construiu a primeira versão dessa teoria a partir das pesquisas sobre histeria, ao notar que muitas pacientes relatavam abuso sexual na infância. Ele propôs que acontecimentos assim, quando não chegam a ser processados, continuam agindo por dentro mesmo depois de esquecidos, e é essa permanência que caracteriza o trauma.

No entanto, mais tarde, Freud revisou sua teoria, percebendo que nem todos os relatos de abuso eram literais e que o trauma psíquico poderia também surgir de fantasias e desejos inconscientes. Ele começou a enfatizar a importância da realidade psíquica do sujeito, argumentando que a maneira como uma experiência é percebida e interpretada pode ser tão significativa quanto o evento em si.

Como surge um trauma psíquico no sujeito

Um dos conceitos centrais é o que Freud chamou de posterioridade, a ideia de que o efeito vem depois. Um acontecimento pode não ser sentido como grave na hora e ganhar peso anos mais tarde, quando a pessoa passa a ter recursos para entender o que de fato viveu. É comum ouvir na análise alguém dizer que só percebeu a dimensão de algo na vida adulta, ao ver a própria filha na idade que tinha quando aquilo aconteceu.

Mulher contemplativa perto da janela

Freud também deu peso aos mecanismos de defesa. Diante de uma experiência que ultrapassa o suportável, a mente recorre a saídas como a negação, para proteger a pessoa do sofrimento imediato. A defesa cumpre uma função no momento em que aparece, mas o problema costuma ser outro. Ela permanece anos depois, protegendo de um perigo que já passou.

Na visão freudiana, o trauma psíquico não se restringe a eventos isolados, pois também pode decorrer de padrões repetitivos de interações prejudiciais, especialmente nas relações iniciais entre a criança e seus cuidadores.

Situações como falta de atenção emocional, agressão física ou psicológica e dificuldades na conexão afetiva podem gerar um cenário traumático que influencia significativamente o crescimento psicológico da pessoa.

Aspectos do trauma psicológico

Quem passou por isso tende a reviver o episódio sem perceber, em sonhos, em sintomas no corpo ou em padrões que se repetem nos relacionamentos. Essa repetição é uma tentativa da mente de elaborar aquilo e dar algum sentido ao que ficou sem explicação, não simplesmente reproduzir o que aconteceu. Freud chamou isso de compulsão à repetição, e é uma das consequências mais conhecidas do trauma.

Freud também deu peso à fantasia e à realidade psíquica. Ele observou que, em certos casos, as lembranças podem estar distorcidas ou encobrir desejos inconscientes. O efeito de um trauma, portanto, não depende só do que aconteceu objetivamente, mas de como aquilo foi vivido e interpretado por quem passou pela experiência.

Outro ponto importante é o trauma cumulativo. Nem sempre existe um único acontecimento avassalador. Às vezes o que marca é uma sequência de experiências adversas que se somam ao longo do tempo, principalmente nas fases mais frágeis do desenvolvimento. Separações precoces, perdas, negligência afetiva e falta de acolhimento entram nessa conta.

Trauma na infância e desenvolvimento psicológico

A teoria freudiana dá muita importância às experiências dos primeiros anos. O que acontece nas fases mais frágeis do desenvolvimento pesa mais, porque a criança ainda não tem recursos próprios para processar sozinha e depende de um adulto que a ajude a dar sentido ao que aconteceu. Quando esse adulto não está disponível, a experiência fica sem elaboração e a marca se aprofunda.

Trauma e recalque

Freud descreveu o recalque como a defesa mais comum diante de uma dor intensa. As lembranças, os sentimentos e as imagens ligados àquilo são empurrados para o inconsciente e ficam fora do alcance da memória voluntária. Inacessível não quer dizer inativo. O que foi recalcado continua produzindo efeito, e costuma reaparecer por vias indiretas.

Compulsão à repetição e elaboração

Um dos conceitos mais interessantes é a compulsão à repetição, que é a tendência inconsciente de reviver e encenar aspectos do que se passou. Essa repetição não é uma reprodução simples do episódio, e sim uma tentativa de dominar aquilo que na hora não pôde ser assimilado.

Por meio do processo terapêutico, encoraja-se o paciente a confrontar e elaborar o trauma psíquico, transformando a compulsão à repetição em memória integrada.

Trauma e cisão do ego

Em casos extremos, principalmente quando acontecem na infância, a mente recorre a uma defesa mais radical, a cisão. Nela, as partes insuportáveis da experiência são separadas e mantidas isoladas do restante da vida psíquica, como se pertencessem a outra pessoa. É o que explica alguém conseguir narrar um episódio grave sem qualquer emoção aparente.

A fragmentação do eu pode resultar em estados de despersonalização, amnésia dissociativa e mudanças na identidade, como observado em casos de transtorno de estresse pós-traumático complexo e transtorno dissociativo de identidade.

Trauma e terapia

A abordagem psicanalítica dá peso à relação terapêutica como espaço de apoio e transformação. O analista, pela escuta e pela postura acolhedora, oferece uma experiência emocional diferente daquela que marcou a pessoa, e é nessa diferença que alguma coisa começa a se mover.

Trauma e narrativa

Construir uma narrativa que faça sentido é parte essencial do processo. Ao contar a própria história e ter as emoções reconhecidas por alguém que escuta sem julgar, a pessoa começa a dar significado ao que até então era só um bloco de sensação sem palavra.

Traumas e resiliência

Ainda que o impacto possa ser devastador, a psicanálise também reconhece a capacidade de recuperação. Algumas pessoas conseguem não só atravessar o que viveram como reorganizar a própria vida a partir dali. Pesa muito a qualidade das relações de apoio por perto, a possibilidade de refletir sobre o que aconteceu e alguma flexibilidade para rever o que ficou rígido depois do trauma.

Efeitos psicológicos do trauma sob o olhar da psicanálise

Em resumo, a leitura freudiana oferece uma base sólida para entender os efeitos de experiências avassaladoras e para construir um caminho de tratamento. A psicanálise não promete apagar o que aconteceu. Ela torna possível conviver com aquilo sem que a vida inteira fique organizada em torno disso.

Como é o tratamento psicanalítico do trauma

No tratamento, o primeiro passo é construir um ambiente seguro, onde a pessoa possa aos poucos se aproximar do que viveu sem se sentir invadida. Pela associação livre ela é convidada a falar o que vier, e é assim que aparece o que estava fora do alcance da consciência.

O analista escuta e ajuda a nomear as emoções ligadas àquela experiência, sem entregar interpretações prontas. Quem chega ao sentido é a própria pessoa. Esse trabalho de colocar em palavras é o que permite integrar aos poucos aquilo que o trauma havia deixado congelado.

A transferência tem papel importante aqui. Ao reviver sem perceber, dentro da relação com o analista, padrões que vêm de outras relações, a pessoa tem a chance de enxergá-los enquanto acontecem, e não apenas de falar sobre eles de memória.

O terapeuta, ao adotar uma postura empática e não crítica, oferece uma abordagem emocionalmente restauradora que pode auxiliar na cicatrização das feridas e rupturas do passado.

Vale dizer que esse é um processo não linear, com avanços, recuos e momentos de bastante resistência. É comum os sintomas se intensificarem quando a pessoa se aproxima do núcleo do que dói, e isso costuma assustar. Não é sinal de que o tratamento está indo mal, e com frequência é o contrário.

Como psicanalista, eu penso em lidar com essas resistências com cuidado e calma, respeitando o tempo e as defesas do paciente. As teorias de Freud sobre traumas.

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O que o corpo guarda

Uma parte do que fica registrado não passa por palavra nenhuma, e por isso não aparece como lembrança. Aparece como reação.

A pessoa entra num elevador e o coração dispara sem motivo aparente. Sente um perfume e fica com o estômago embrulhado o resto do dia. Ouve um tom de voz específico e o corpo inteiro se prepara para alguma coisa que a cabeça não sabe nomear. Nada disso está sob controle voluntário, e chamar de frescura só faz a pessoa se calar.

Freud já observava que o que não vira lembrança tende a virar sintoma no corpo. Ele descreveu pacientes com paralisias, dores e perdas de sensibilidade que nenhum exame explicava, e propôs que ali havia uma vivência sem outro caminho para se expressar.

Na clínica de hoje isso aparece com outras roupagens. Tensão no maxilar e no pescoço que travesseiro nenhum resolve. Crises no estômago em períodos específicos do ano. Cansaço que não cede. Falta de ar em situações que, vistas de fora, não têm nada de ameaçador.

O corpo funciona como um arquivo que guarda a data mesmo quando a pessoa esqueceu o conteúdo. É comum alguém chegar dizendo que fica mal todo mês de julho sem saber por quê, e só no meio da análise se dar conta de que foi em julho que perdeu alguém. A memória do corpo não obedece ao calendário da consciência.

Vale ser claro num ponto. Isso não significa que toda dor física tenha origem emocional. Sintoma no corpo pede investigação médica primeiro, sempre. O que a psicanálise acrescenta é uma escuta para o que sobra depois que os exames não explicaram.

Quando o que estava congelado começa a ganhar palavra na análise, é frequente o corpo afrouxar junto. Não por mágica, e sim porque a energia que vinha sendo gasta para manter aquilo fora da consciência fica disponível para outra coisa. Muita gente descreve essa mudança primeiro no sono, que volta a render antes mesmo de a pessoa saber explicar o que mudou.

Quando procurar ajuda

Nem todo acontecimento difícil deixa marca duradoura, e nem toda marca precisa de tratamento. O que costuma indicar que vale procurar um profissional é a permanência. Quando, meses depois, a vida ainda está organizada em torno de evitar alguma coisa.

Estes são os sinais que mais aparecem em quem chega ao consultório por esse motivo:

  • Lembranças que voltam sozinhas, em imagem ou em sensação no corpo, sem que a pessoa tenha chamado por elas
  • Sono ruim há meses, com pesadelos que se repetem ou com dificuldade de adormecer
  • Evitar lugares, assuntos, pessoas ou situações que lembrem o que aconteceu, ao ponto de a rotina ficar menor
  • Reagir com sobressalto a barulho, toque ou movimento inesperado
  • Sensação de estar sempre em alerta, como se algo ruim fosse acontecer a qualquer momento
  • Culpa persistente, ou a sensação de ter mudado de um jeito que não se reconhece mais

Vale procurar também quando a pessoa percebe que repete o mesmo tipo de relação ou a mesma situação sem entender por quê. Essa repetição costuma ser o sinal mais claro de que existe alguma coisa pedindo elaboração.

Não é preciso ter certeza de que o que você viveu "conta" como grave. Essa comparação com a dor dos outros é comum e atrapalha, porque adia a procura por ajuda. O que pesa é o efeito que aquilo teve em você.

E se em algum momento aparecer o pensamento de não querer mais estar aqui, procure ajuda no mesmo dia. O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, é gratuito e sigiloso.

Se você quiser um espaço para olhar isso com calma, agende uma primeira conversa. Atendo online para todo o Brasil.

Em conclusão

Esses pontos são apenas alguns dos aspectos fundamentais relacionados ao trauma psicológico sob a ótica da psicanálise freudiana. Cada um desses conceitos merece uma análise mais detalhada, que procurarei desenvolver mais aprofundadamente nos próximos posts.

No entanto, espero que essa visão geral tenha proporcionado uma compreensão mais abrangente e integrada do fenômeno do trauma, destacando sua complexidade e seu impacto no desenvolvimento emocional e na saúde mental das pessoas.

Se você ou alguém que você conhece está lidando com as consequências de um trauma, é essencial buscar ajuda de um profissional qualificada que possa oferecer um ambiente seguro e acolhedor para trabalhar essas experiências dolorosas. A terapia psicanalítica, com seu foco na relação terapêutica, na exploração do inconsciente e na busca por significado, pode ser uma via valiosa para o processo de cura e transformação.

O que é a compulsão à repetição, na teoria do trauma de Freud?

É a tendência inconsciente de reviver e encenar aspectos de um trauma vivido, não como uma simples reprodução do episódio, mas como uma tentativa de dominar aquilo que, na hora, não pôde ser assimilado. O processo terapêutico ajuda a transformar essa compulsão à repetição em memória integrada, por meio do confronto e da elaboração do trauma.

O que é o conceito de posterioridade no trauma, segundo Freud?

É a ideia de que o efeito de um acontecimento vem depois. Um episódio pode não ser sentido como grave na hora e ganhar peso anos mais tarde, quando a pessoa passa a ter recursos para entender o que de fato viveu. É comum ouvir na análise alguém dizer que só percebeu a dimensão de algo na vida adulta, ao ver a própria filha na idade que tinha quando aquilo aconteceu.

Como Freud revisou sua teoria do trauma ao longo do tempo?

Freud construiu a primeira versão da teoria a partir das pesquisas sobre histeria, ao notar que muitas pacientes relatavam abuso sexual na infância. Mais tarde, ele percebeu que nem todos os relatos eram literais e que o trauma psíquico também podia surgir de fantasias e desejos inconscientes, passando a enfatizar a importância da realidade psíquica do sujeito, ou seja, como uma experiência é percebida e interpretada pode ser tão significativo quanto o evento em si.

O trauma cumulativo precisa de um único evento grave para se formar?

Não. Nem sempre existe um único acontecimento avassalador. Às vezes o que marca é uma sequência de experiências adversas que se somam ao longo do tempo, principalmente nas fases mais frágeis do desenvolvimento. Separações precoces, perdas, negligência afetiva e falta de acolhimento entram nessa conta.

Sobre os efeitos do trauma precoce, vale ler o artigo Trauma e Infância, publicado na revista Psicologia: Teoria e Pesquisa.

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Quando isso ocorre cedo, antes de a criança ter palavras para o que viveu, o efeito é outro, e fica marcado na formação da personalidade. É o assunto de o impacto do trauma precoce no desenvolvimento da personalidade.

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