Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

Existe um tipo de cansaço que não melhora no fim de semana. A pessoa dorme, tira férias, volta, e em dois dias está do mesmo jeito. Ela começa a desconfiar que o problema é ela, que está ficando preguiçosa, ou que perdeu alguma capacidade que antes tinha.

Escuto muito essa descrição, e quase sempre com a mesma frase no meio, "eu não deveria estar assim". Essa frase, mais do que o cansaço, é o que costuma sustentar o quadro por meses.

O cansaço que o descanso não resolve

O cansaço comum tem uma lógica simples. Você gastou energia, repõe, e volta ao normal. Uma semana puxada seguida de um fim de semana tranquilo devolve a pessoa ao lugar de antes.

No esgotamento, essa conta simplesmente deixa de fechar. O descanso entra e não produz efeito, e é isso que assusta. A pessoa acorda depois de nove horas de sono com a sensação de que não dormiu, e passa a se sentir defeituosa por não conseguir se recuperar como todo mundo.

Vale dizer uma coisa. Quando o descanso deixou de funcionar, o problema já é outra coisa, que precisa de outro tipo de cuidado, não falta de descanso.

O que é o esgotamento

O esgotamento profissional, conhecido como burnout, entrou na Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde. E o modo como ele entrou é revelador. A OPAS, o braço da OMS nas Américas, esclarece que ele é classificado como fenômeno ocupacional, e não como doença. É definido como uma síndrome resultante do estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso, e se organiza em três dimensões que costumam aparecer juntas.

Pessoa cansada descansando a cabeça sobre a mesa de trabalho cheia de papéis
  • Exaustão. Um esvaziamento de energia que não responde ao repouso, e que aparece já na hora de acordar.
  • Distanciamento. Uma frieza que se instala em relação ao trabalho e às pessoas, muitas vezes com irritação e cinismo em quem antes era envolvido.
  • Sensação de ineficácia. A impressão constante de não dar conta, de estar sempre atrasada, de não fazer nada bem feito, mesmo quando os resultados dizem o contrário. Na definição da OMS, é a redução da eficácia profissional.

O segundo eixo é o que mais confunde. A pessoa se assusta ao perceber que ficou insensível justamente com quem ela cuida, e interpreta isso como falha moral. É uma forma de proteção de alguém que já não tem de onde tirar, não falha moral.

Como ele costuma aparecer

Raramente começa pela cabeça. Costuma começar pelo corpo, e é por isso que tanta gente passa antes por vários exames sem achar nada:

  • Dores de cabeça, tensão no pescoço e nos ombros, mandíbula travada.
  • Problemas digestivos que aparecem sem causa clara.
  • Sono ruim: dificuldade para desligar à noite, ou acordar de madrugada com a cabeça já funcionando.
  • Adoecer com frequência, gripes que não largam, imunidade em baixa.
  • Esquecimento e dificuldade de concentração em tarefas simples.
  • Irritação desproporcional com coisas pequenas, e depois culpa por ter reagido assim.
  • Vontade de sumir, de não atender ninguém, de não ter que responder mais nada.
  • Perda do prazer no que antes dava sentido ao trabalho.

O quadro tem sobreposição com a depressão e com a ansiedade, e às vezes existe mais de um deles ao mesmo tempo. Você não precisa separar isso sozinha, essa distinção se faz com ajuda.

Não é só quem trabalha demais

Existe uma ideia de que esgotamento é coisa de quem faz jornada dupla ou trabalha em excesso. A quantidade de horas pesa, mas não é o fator principal, e há gente exausta trabalhando oito horas por dia.

O que costuma esgotar de verdade é uma combinação, alta exigência somada a pouca autonomia. Quando a pessoa é cobrada por resultados sobre os quais tem pouco controle, o desgaste é muito maior do que quando ela trabalha bastante mas decide como.

Também pesam a falta de reconhecimento, a sensação de injustiça, o conflito entre o que ela precisa fazer e o que acredita, e a ausência de qualquer previsibilidade. Por exemplo, alguém numa função de cuidado, com metas impossíveis e sem poder de decisão, adoece mais rápido que alguém com jornada maior e alguma margem de escolha.

O esgotamento de quem cuida

Existe uma forma de esgotamento que quase nunca é nomeada, porque não acontece num emprego. É o de quem cuida em tempo integral, seja de filhos pequenos, seja de um familiar doente ou idoso.

Ele tem as mesmas marcas, e mais uma. A pessoa não tem folga, não tem fim de expediente, e por cima carrega a ideia de que aquilo é obrigação e amor, então nem deveria estar cansada. O resultado é exaustão com culpa, e a culpa impede o pedido de ajuda.

Aqui a distância que aparece assusta ainda mais, porque agora é distância de quem ela ama. Mães que se pegam sem paciência com o próprio filho costumam concluir que são más mães. Quase sempre é alguém no limite, sem rede e sem descanso, tentando sustentar sozinha o que não se sustenta sozinha, não uma má mãe.

Por que a pessoa não para antes

Quase todo mundo que chega esgotado percebeu os sinais bem antes, e seguiu assim mesmo. Vale entender por quê, porque isso tem menos a ver com teimosia do que parece.

Primeiro, porque parar dá medo. Perder o emprego, decepcionar alguém, ser vista como fraca, deixar a equipe na mão. O custo imaginado de parar aparece imenso, e o custo de continuar parece administrável, até deixar de ser.

Segundo, porque muita gente construiu o próprio valor em cima da capacidade de dar conta. Se ser confiável é a coisa que ela sente que a torna querida, admitir que não está aguentando parece ameaçar quem ela é, não é só um ajuste prático. É um dos pontos que a análise trabalha, e trabalhar isso muda mais do que qualquer conselho sobre organizar a agenda.

O que a psicanálise enxerga aí

A psicanálise não trata o esgotamento como um problema de gestão de tempo. Ela pergunta outra coisa, o que faz essa pessoa não conseguir parar, mesmo tendo entendido que precisa.

Muitas vezes existe uma exigência interna que é bem mais dura que a do chefe. Uma voz que cobra, que compara, que não aceita entrega mediana, e que costuma ter história antiga, vinda de uma casa onde afeto e desempenho andaram juntos. A pessoa até troca de emprego, mas leva essa voz junto, e em pouco tempo o quadro se repete no lugar novo.

Enquanto essa parte não é olhada, a mudança externa alivia por um tempo e depois se desfaz. É por isso que férias resolvem por duas semanas, e o esgotamento volta.

Se o que você reconheceu aqui vem acompanhado de tensão constante e da sensação de estar sempre em alerta, o mecanismo por trás costuma ser o mesmo de ansiedade e recalque.

O que ajuda de verdade

Existe um repertório de conselhos que circula bastante e que ajuda pouco, dormir melhor, praticar exercício, tomar chá, respirar fundo. Nada disso faz mal, e nada disso trata a causa. Serve como apoio, não como tratamento.

O que muda de fato costuma envolver três coisas ao mesmo tempo. Alguma alteração real nas condições, e não só na atitude da pessoa diante delas, porque não existe resiliência que sustente um arranjo insustentável. Um espaço de escuta onde ela possa entender o próprio funcionamento, inclusive a exigência que carrega. E, em alguns casos, avaliação médica, porque o esgotamento pode vir junto de quadros que se beneficiam de tratamento clínico.

Também ajuda uma coisa aparentemente pequena, parar de tratar o cansaço como falha de caráter. Enquanto a pessoa achar que o problema é ela ser fraca, ela vai insistir na estratégia que a adoeceu, que é apertar mais.

Quando procurar ajuda

Não é preciso chegar ao afastamento para procurar ajuda, e quanto mais cedo, mais simples costuma ser a saída.

Vale procurar se o cansaço já não responde ao descanso, se você percebe que ficou distante do que antes te importava, se o corpo vem dando sinais que os exames não explicam, ou se a ideia de mais um dia igual dá um aperto no peito.

E se em algum momento aparecer o pensamento de não querer mais estar aqui, procure ajuda no mesmo dia. O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, é gratuito e sigiloso.

Se você quiser um espaço para olhar isso com calma, agende uma primeira conversa. Atendo online para todo o Brasil, com horários que funcionam também para quem tem a agenda cheia.

Se o cansaço vier junto com a sensação de que nada tem mais graça, o quadro pode já ser tristeza ou depressão. E se a dúvida for sobre o formato do atendimento, o que muda e o que não muda por vídeo está em psicanálise online.

Por que a pessoa não para antes de chegar ao esgotamento?

Quase todo mundo que chega esgotado percebeu os sinais bem antes e seguiu assim mesmo, e isso tem menos a ver com teimosia do que parece. Parar dá medo, de perder o emprego, de decepcionar alguém, de ser vista como fraca. O custo imaginado de parar aparece imenso, e o custo de continuar parece administrável, até deixar de ser.

O burnout é só de quem trabalha demais?

Não. O que costuma esgotar de verdade é uma combinação, alta exigência somada a pouca autonomia. Quando a pessoa é cobrada por resultados sobre os quais tem pouco controle, o desgaste é muito maior do que quando ela trabalha bastante mas decide como. Também pesam a falta de reconhecimento e a sensação de injustiça.

O esgotamento de quem cuida de alguém em casa é diferente do burnout profissional?

Tem as mesmas marcas, e mais uma. Quem cuida em tempo integral, seja de filhos pequenos, seja de um familiar doente ou idoso, não tem folga nem fim de expediente, e por cima carrega a ideia de que aquilo é obrigação e amor, então nem deveria estar cansado. O resultado é exaustão com culpa, e a culpa impede o pedido de ajuda.

Dormir melhor e fazer exercício resolvem o esgotamento?

Ajudam pouco sozinhos. Dormir melhor, praticar exercício, tomar chá e respirar fundo não fazem mal, mas também não tratam a causa. Servem como apoio, não como tratamento, especialmente quando o esgotamento já passou do ponto em que o descanso comum resolve.

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Priscila Soares Falchi
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