Quem chega ao consultório com essa dúvida quase sempre começa se desculpando pela pergunta. Diz que talvez esteja exagerando, que o outro tem qualidades, que todo casal briga. E completa com a frase que resume tudo, "eu não sei se é relação abusiva ou se sou eu que estou sendo difícil".
Essa dúvida em si já diz alguma coisa. Em relações saudáveis, mesmo nas difíceis, as pessoas não costumam passar meses tentando descobrir se o que vivem tem nome. Quando essa pergunta aparece e insiste, ela merece ser levada a sério, e não descartada como exagero.
Índice
Toda relação tem conflito
É importante começar por aqui, porque a confusão nasce justamente desse ponto. Conflito não é relação abusiva, e relação sem conflito não existe.
Duas pessoas com histórias diferentes vão discordar, se frustrar e magoar uma à outra em algum momento. Numa relação difícil, isso acontece e depois é possível conversar, reconhecer o que doeu e reparar. Cada um consegue dizer "eu errei aqui", e a relação sai do episódio mais ou menos inteira.
Por exemplo, um casal pode discutir feio por causa de dinheiro, ficar dois dias sem se falar direito, e depois sentar para conversar. Isso é difícil, é desgastante, mas não é relação abusiva.
O que muda na relação abusiva
O que caracteriza a relação abusiva é um desequilíbrio de poder que se mantém. Brigas, todo casal tem. Uma pessoa passa a ter medo da reação da outra, e organiza o comportamento em função disso.
Nessa dinâmica, o conflito não termina em reparação, termina em rendição. Uma das partes cede sempre, pede desculpa mesmo sem saber pelo quê, e sai da discussão convencida de que o problema é ela. Com o tempo, ela para de discordar, não por acordo, mas por cansaço e por medo.
E aqui vale dizer com clareza que relação abusiva não exige agressão física. Existe abuso emocional, financeiro, sexual e patrimonial, e todos eles causam dano real. A ausência de marca visível não significa ausência de violência. A Lei Maria da Penha reconhece cinco tipos de violência, e apenas um deles é físico, os outros são o psicológico, o moral, o sexual e o patrimonial.
Vale nomear uma forma de relação abusiva que quase nunca é reconhecida como tal, porque não deixa marca nem grito, o controle financeiro. Acontece quando uma pessoa administra sozinha o dinheiro do casal, exige prestação de contas de cada gasto, impede a outra de trabalhar ou de ter conta própria, ou faz dívidas no nome do outro sem consultar. É uma forma de violência patrimonial, reconhecida pela Lei Maria da Penha, mesmo sem gritos nem hematomas.
Os sinais de relação abusiva que costumam aparecer
Nenhum item sozinho define uma relação, e o que pesa é o conjunto e a repetição ao longo do tempo:
Você mede as palavras antes de falar, calculando como o outro vai reagir.
Suas amizades e sua família foram ficando distantes, e isso aconteceu aos poucos.
Você é criticada em público, e depois ouve que foi só brincadeira e que você é sensível demais.
Quando você se lembra de alguma coisa que aconteceu, o outro afirma que não foi assim, e você acaba duvidando da própria memória.
Você precisa justificar gastos, horários ou mensagens, e ele não precisa justificar nada.
As desculpas vêm sempre acompanhadas de uma explicação que coloca a culpa em você ou no estresse dele.
Você sente alívio quando ele não está em casa, e culpa por sentir esse alívio.
Já houve ameaça, mesmo velada, de te deixar sem dinheiro, sem os filhos ou sem lugar para ir.
Se vários fizeram sentido, isso não é diagnóstico e nem quer dizer que você precisa tomar alguma decisão agora. Quer dizer que é hora de conversar com alguém de fora dessa relação.
Outra coisa que costuma aparecer é a dúvida sobre a própria memória. A pessoa relata uma situação e ouve que aquilo não aconteceu, que ela entendeu errado, que está exagerando de novo. Repetido ao longo do tempo, isso corrói a confiança dela no próprio julgamento, e é essa confiança que ela precisaria para reconhecer o que está vivendo.
Por que a relação abusiva é difícil de enxergar de dentro
Uma das perguntas que mais machucam quem vive isso é "como você não percebeu?". A resposta é que a relação abusiva raramente começa pelo pior.
Ele quase sempre começa por gestos que parecem cuidado. Querer saber onde você está o tempo todo pode parecer zelo. Implicar com uma amizade pode parecer ciúme, e ciúme ainda é lido por muita gente como prova de amor. Cada passo isolado é pequeno o suficiente para não soar alarme, e é a soma deles, ao longo de meses ou anos, que constrói a situação.
Some a isso um mecanismo que a psicanálise conhece bem, diante de uma realidade insuportável, a mente encontra formas de não a ver por inteiro. É uma proteção, não burrice nem ingenuidade. Enxergar tudo de uma vez exigiria uma reorganização da vida que, naquele momento, a pessoa não tem condições de fazer.
O ciclo que confunde
Existe um padrão que se repete em muitas dessas relações e que explica boa parte da confusão de quem está dentro.
Primeiro vem um período de tensão crescente, em que a pessoa sente que qualquer coisa pode desencadear um conflito e passa a andar em ovos. Depois vem o episódio em si, seja ele uma explosão, uma humilhação ou uma agressão. E então vem a terceira fase, que é a mais confusa de todas, o arrependimento, o carinho, as promessas, às vezes o melhor período da relação.
É essa terceira fase que sustenta o ciclo. Ela renova a esperança, confirma que "ele é bom no fundo", e faz a pessoa acreditar que dessa vez vai ser diferente. Quando o ciclo recomeça, ela se sente ainda mais responsável, porque apostou e errou de novo. Esse padrão de repetição é conhecido e documentado, o Instituto Maria da Penha descreve o ciclo da violência em três fases, o aumento da tensão, o ato de violência e a lua de mel, e é justamente a terceira que faz a mulher acreditar que daquela vez vai ser diferente.
Por que "é só sair" não funciona
Essa é a frase mais dita por quem olha de fora, e é também a menos útil. Ela pressupõe que sair é uma decisão simples, e não é.
Existem razões concretas, dependência financeira, filhos, moradia, ausência de rede de apoio, medo justificado da reação do outro. E existem as razões que não se veem, que são o vínculo afetivo real, a esperança, e uma autoestima que foi sendo corroída até a pessoa acreditar que não daria conta sozinha.
E existe um dado que precisa ser dito, porque muda a orientação, o momento da separação costuma ser o de maior risco. Por isso a saída, quando acontece, precisa ser planejada com apoio, e não decidida no calor de uma crise. Quem sugere "sai logo" com boa intenção pode, sem querer, empurrar alguém para o momento mais perigoso sem nenhuma rede montada.
Por isso, quando alguém se abre sobre uma relação assim, a pergunta mais útil não é "por que você não sai", e sim "o que você precisa para se sentir segura o suficiente para dar esse passo". A diferença entre as duas perguntas é a diferença entre cobrar e apoiar.
O que a análise oferece
O trabalho analítico não começa pela decisão de ficar ou sair, e isso costuma aliviar quem chega achando que vai ser pressionada.
Começa por devolver à pessoa a confiança na própria percepção. Quem viveu anos ouvindo que exagera, que inventa, que lembra errado, perde a régua interna, e reconstruir essa régua é o primeiro passo. Sem ela, nenhuma decisão é realmente sua.
Depois disso, o processo ajuda a entender o que sustentou o vínculo, o que ele protegia, e o que precisa mudar para que o padrão não se repita numa próxima relação. Esse ponto tem nome próprio, e é o assunto de dependência emocional.
O que muda no final é a capacidade de escolher com clareza, e não a obrigação de escolher rápido.
Onde buscar ajuda
Se você está em situação de violência, existem canais preparados para orientar, inclusive de forma anônima:
Ligue 180, Central de Atendimento à Mulher. Funciona 24 horas, é gratuito e sigiloso, e orienta mesmo quando você ainda não quer denunciar.
190 para emergência policial, em caso de risco imediato.
CVV pelo 188, 24 horas, gratuito, para apoio emocional.
Procurar informação não obriga você a fazer nada. Saber o que existe já muda o lugar em que você está.
E se você quiser um espaço para entender o que está vivendo, sem pressa e sem ser julgada, agende uma primeira conversa. Atendo online para todo o Brasil.
Se a dúvida for sobre atender a distância, o que a pesquisa mostra está em psicanálise online. Vale dizer que, em situação de risco, o atendimento remoto tem limites, e eu digo isso com clareza logo na primeira conversa.
Por que "é só sair" não funciona para quem está numa relação abusiva?
Porque sair não é uma decisão simples. Existem razões concretas, como dependência financeira, filhos, moradia, ausência de rede de apoio e medo justificado da reação do outro, e existem razões que não se veem, como o vínculo afetivo real e uma autoestima corroída. Além disso, o momento da separação costuma ser o de maior risco, por isso a saída precisa ser planejada com apoio, nunca decidida no calor de uma crise.
Qual a diferença entre um casal que briga e uma relação abusiva?
A diferença é o desequilíbrio de poder que se mantém. Todo casal briga, mas na relação abusiva uma pessoa passa a ter medo da reação da outra e organiza o próprio comportamento em função disso. O conflito também muda de forma, não termina em reparação, termina em rendição, com uma das partes sempre cedendo e saindo convencida de que o problema é ela.
O controle financeiro conta como relação abusiva?
Sim. Acontece quando uma pessoa administra sozinha o dinheiro do casal, exige prestação de contas de cada gasto, impede a outra de trabalhar ou de ter conta própria, ou faz dívidas no nome do outro sem consultar. É uma forma de violência patrimonial, reconhecida pela Lei Maria da Penha, mesmo sem gritos nem hematomas.
Por que é tão difícil perceber que se está numa relação abusiva?
Porque a mente encontra formas de não ver a realidade por inteiro quando ela é insuportável, e isso é uma proteção, não burrice nem ingenuidade. Também existe o ciclo da tensão, do episódio e da reconciliação, e é justamente a fase de reconciliação, com carinho e promessas, que renova a esperança e confunde quem vive isso.
Priscila Soares Falchi
Priscila Soares Falchi é Psicóloga Clínica (CRP 06/200925) e Psicanalista formada pelo instituto IBCP. Pós-graduada em Psicanálise Contemporânea pela PUC-RS, com especialização livre em Práticas Clínicas na Infância, e pós-graduanda em Terapia Cognitivo-Comportamental pela PUC-RS. Atende adultos, adolescentes e crianças em Santo André e também de forma online.
Continue lendo sobre relação abusiva e relações difíceis
Conflito não é abuso. O que diferencia uma relação difícil de uma relação abusiva, por que é difícil enxergar de dentro, e por que "é só sair" não funciona.
Essa é uma das perguntas mais difíceis que chegam até mim, e ela quase nunca vem sozinha. Vem acompanhada de culpa, de dúvida, e de uma frase que os pais repetem em tom de desculpa, "eu não sei se é problema ou se é a idade".
A dificuldade é real, e não é falha dos pais. A adolescência é, por definição, um período de mudança intensa, e muita coisa que em um adulto seria sinal de alerta é comportamento esperado nessa fase. O desafio não é saber se o seu filho mudou, porque ele mudou mesmo. É perceber quando essa mudança passou a ser sofrimento.
Índice
Nem tudo é "só fase"
A frase "é só uma fase" é verdadeira em muitos casos, e por isso ela atrapalha tanto. Quando ela vira resposta automática, deixa de descrever a realidade e passa a servir para adiar uma conversa que incomoda.
O problema de esperar passar é que a adolescência é um período de construção. O que se organiza nesses anos, inclusive o modo de lidar com frustração e com as próprias emoções, tende a acompanhar a pessoa por muito tempo. Por exemplo, um adolescente que aprende que sentimento não se fala em casa costuma virar um adulto que não pede ajuda.
Isso não quer dizer que todo adolescente precisa de terapia. Quer dizer que "vai passar" não deveria ser a única resposta disponível quando alguma coisa está claramente pesando.
Os sinais que merecem atenção
Nenhum item sozinho define nada, e adolescente é feito de altos e baixos. O que pesa é a intensidade, a duração e principalmente a mudança em relação a como ele era:
Ele se afastou de amigos que eram importantes, e não construiu outras relações no lugar.
Largou atividades de que gostava, sem trocar por nenhuma outra.
O sono mudou muito: dorme demais, ou não consegue dormir, e isso já dura semanas.
O rendimento na escola caiu de forma acentuada, e não por falta de esforço.
A irritação virou o estado padrão, e qualquer conversa termina em conflito.
Ele passou a evitar a família de um jeito diferente do normal, se trancando por longos períodos.
Você percebeu marcas no corpo, ou ele passou a usar roupa comprida em qualquer temperatura.
Fala de si mesmo com desprezo, mesmo em tom de brincadeira.
Houve mudança grande no apetite ou no peso, para mais ou para menos.
Os dois últimos merecem atenção redobrada e não devem esperar. Falo sobre cada um deles no fim do texto.
O que é esperado na adolescência
É justo dizer também o que não precisa preocupar, porque muita família se assusta com o que é próprio da fase.
Querer ficar sozinho é esperado, porque construir a própria identidade exige um espaço que não seja o da família. Questionar as regras é esperado, e inclusive necessário. Ter vergonha dos pais em público é esperado. Mudar de opinião, de estilo e de grupo de amigos com frequência também é.
Por exemplo, um adolescente que passou a fechar a porta do quarto e responder por monossílabos não está necessariamente em sofrimento. Ele pode estar fazendo exatamente o que aquela idade pede, que é criar uma fronteira. A diferença é que, no desenvolvimento saudável, ele se afasta da família mas se aproxima de outros vínculos, como amigos e relacionamentos. Quando o afastamento é de tudo ao mesmo tempo, aí muda de figura.
Quando procurar ajuda
A régua que costumo sugerir para as famílias é simples, e não depende de você ter formação em psicologia.
Procure quando o sofrimento estiver atrapalhando a vida dele. Ou seja, quando ele já não consegue estudar, conviver, dormir ou aproveitar as coisas de que gostava. Procure também quando a mudança durar mais de algumas semanas e não mostrar sinal de melhora. E procure quando o seu instinto disser que alguma coisa não está bem, mesmo que você não consiga nomear o quê.
Esse último ponto merece toda a confiança dele. Pais convivem com aquele filho a vida inteira e percebem mudanças que não aparecem em nenhuma lista. Se você sente que ele não está bem, isso já é razão para conversar com um profissional, nem que seja para ouvir que está tudo dentro do esperado.
E se ele não quiser ir?
Essa é a segunda pergunta que mais aparece, e a resistência é comum. Adolescente costuma reagir mal à ideia de terapia, principalmente quando ela chega como decisão dos pais.
Ainda assim, algumas coisas ajudam bastante. A primeira é não apresentar a terapia como punição ou como conserto, porque a frase "você precisa de ajuda" soa como "você tem um defeito". Funciona melhor apresentar como um espaço dele, onde ele pode falar o que quiser, inclusive sobre os pais.
A segunda é combinar um número pequeno de encontros e deixar a decisão em aberto depois disso. Saber que não está preso a um compromisso indefinido reduz muito a resistência.
E se mesmo assim ele recusar, os pais podem ir sozinhos. Isso não é prêmio de consolação, entender o que está acontecendo e mudar o jeito de conversar em casa muda o ambiente em que ele vive, e não é raro que ele aceite depois.
O sigilo, e o que os pais podem saber
Aqui existe uma dúvida legítima, e é melhor tratá-la abertamente desde o começo.
O que o adolescente fala em sessão é sigiloso, e esse sigilo é o que permite que ele fale de verdade. Se ele achar que tudo será relatado em casa, ele não vai usar o espaço, e o processo perde o sentido.
Isso não significa que os pais ficam de fora. Existem encontros com a família, combinados com ele, para orientação e para pensar juntos o que está acontecendo. O que muda é que eu não relato conteúdo de sessão, mas oriento sobre o que é importante para o cuidado dele.
A exceção é uma só, e ela é dita ao adolescente desde o primeiro dia, se houver risco à vida dele ou de alguém, os responsáveis são informados. É o que o cuidado exige, não quebra de confiança.
O lugar dos pais no processo
Uma pergunta que ouço com frequência é se os pais fizeram alguma coisa errada. A resposta honesta é que essa não é a pergunta útil.
Não existe família sem falha, e procurar o culpado consome uma energia que faria falta em outro lugar. O que ajuda de verdade é olhar para o que está acontecendo agora e para o que pode ser feito daqui em diante.
Na prática, o que mais muda o quadro é a disponibilidade dos pais para escutar sem corrigir. Adolescente costuma parar de falar quando percebe que toda frase vira lição de moral, e volta a falar quando descobre que pode dizer alguma coisa e ela apenas será ouvida.
Adolescente aceita atendimento online?
Costuma aceitar melhor do que os pais imaginam, e por um motivo que faz sentido, essa geração já vive relações inteiras por tela, e falar por vídeo não é estranho para ela como pode ser para um adulto.
Tem uma vantagem adicional que aparece bastante. No online, o adolescente não precisa ser levado por ninguém, não encontra conhecidos na sala de espera, e tem mais sensação de controle sobre o próprio processo. Para essa idade, controle importa muito.
O cuidado necessário é o mesmo do adulto, e cabe aos pais garantir isso, um lugar da casa onde ele possa falar sozinho, com a porta fechada, sem alguém escutando do outro lado.
Quando a busca precisa ser imediata
Tudo o que escrevi até aqui vale para um processo que se constrói com tempo. Mas existem situações que não esperam, e é importante nomeá-las.
Se o seu filho falou em morrer, em desaparecer, ou disse que a vida não vale a pena, mesmo em tom de brincadeira, procure ajuda agora. O mesmo vale se você encontrou marcas de autolesão. Não espere confirmar, não espere passar, e não tenha medo de perguntar diretamente. Perguntar sobre isso não coloca a ideia na cabeça de ninguém, e costuma ser um alívio para quem está carregando aquilo sozinho.
O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, é gratuito e sigiloso, e atende também familiares. Em risco imediato, o pronto-socorro mais próximo ou o SAMU pelo 192.
Se você reconheceu seu filho em alguma coisa deste texto e quer conversar, agende uma primeira conversa. Atendo crianças a partir de 7 anos, adolescentes e adultos, online para todo o Brasil.
O que muda e o que não muda no atendimento por vídeo, inclusive com adolescentes, está em psicanálise online. E a linha entre esperar e agir agora é o assunto de quando procurar um psicólogo.
A resistência é comum, principalmente quando a terapia chega como decisão dos pais. Ajuda não apresentá-la como punição ou conserto, e sim como um espaço dele, onde pode falar o que quiser. Combinar um número pequeno de encontros e deixar a decisão em aberto depois costuma reduzir bastante a resistência. E se mesmo assim ele recusar, os pais podem ir sozinhos: não é prêmio de consolação, e muda o ambiente em que ele vive.
Adolescente aceita atendimento online?
Costuma aceitar melhor do que os pais imaginam, porque essa geração já vive relações inteiras por tela. No online, o adolescente não precisa ser levado por ninguém, não encontra conhecidos na sala de espera, e tem mais sensação de controle sobre o próprio processo. O cuidado necessário cabe aos pais: garantir um lugar da casa onde ele possa falar sozinho, com a porta fechada.
É normal um adolescente querer ficar sozinho e questionar tudo?
Sim, isso é esperado. Querer ficar sozinho é parte de construir a própria identidade, que exige um espaço que não seja o da família. Questionar as regras também é esperado, e até necessário, assim como ter vergonha dos pais em público e mudar de opinião, de estilo e de grupo de amigos com frequência.
Por que não vale a pena só esperar a fase passar?
Porque a adolescência é um período de construção, e o que se organiza nesses anos, inclusive o modo de lidar com frustração e com as próprias emoções, tende a acompanhar a pessoa por muito tempo. Um adolescente que aprende que sentimento não se fala em casa costuma virar um adulto que não pede ajuda.
Priscila Soares Falchi
Priscila Soares Falchi é Psicóloga Clínica (CRP 06/200925) e Psicanalista formada pelo instituto IBCP. Pós-graduada em Psicanálise Contemporânea pela PUC-RS, com especialização livre em Práticas Clínicas na Infância, e pós-graduanda em Terapia Cognitivo-Comportamental pela PUC-RS. Atende adultos, adolescentes e crianças em Santo André e também de forma online.
Como diferenciar o que é próprio da adolescência do que é sofrimento. Os sinais que merecem atenção, o que fazer se ele recusar, e como funciona o sigilo.
A psicanálise infantil é mais do que uma simples ferramenta para resolver problemas emocionais momentâneos. Na verdade, trata-se de um investimento no bem-estar emocional e psicológico da criança,
A saúde mental na infância é um alicerce para o bem-estar ao longo da vida. Investir na saúde mental das crianças é investir no desenvolvimento de adultos saudáveis, capazes de enfrentar os desafios da vida com resiliência e equilíbrio emocional.
A psicanálise infantil oferece um espaço terapêutico para entender e mergulhar na complexidade do universo emocional da criança, facilitando um desenvolvimento saudável e uma melhor qualidade de vida.
Existe um tipo de sofrimento que é difícil de explicar para os outros, porque de fora parece falta de vontade. É quando a pessoa quer uma coisa, tem condições de conseguir, e mesmo assim faz exatamente o que precisaria para não conseguir.
Ela adia a inscrição até o prazo fechar. Chega atrasada na entrevista que passou semanas esperando. Começa uma discussão às vésperas de um momento importante da relação. Depois olha para trás sem entender, e a explicação que sobra costuma ser a mais cruel, "eu sou assim mesmo, eu me sabotei de novo".
Índice
O que é autossabotagem
Autossabotagem é quando o comportamento da pessoa vai contra aquilo que ela mesma diz querer. Não é um evento isolado, porque todo mundo perde um prazo de vez em quando. O que caracteriza é a repetição, e principalmente a repetição justamente nos momentos que mais importam.
E aqui está o detalhe que muda tudo, isso não acontece por acaso, e também não acontece por falta de esforço. Existe uma lógica por trás, só que ela não é consciente. A pessoa não sabe o que está fazendo, e é exatamente por não saber que ela repete.
Como ela aparece no dia a dia
Ela raramente aparece de forma óbvia, e quase nunca a pessoa reconhece no momento em que está acontecendo. Alguns formatos comuns:
Você adia uma decisão importante até que ela seja tomada por você, pelo prazo ou por outra pessoa.
Perto de conseguir alguma coisa que queria muito, aparece um motivo para desistir, e ele sempre parece razoável.
Você se cobra tanto na preparação que acaba não fazendo, porque nunca está bom o bastante para começar.
Numa relação que vai bem, você cria um conflito, e só depois percebe que não tinha necessidade.
Você aceita menos do que poderia, e chama isso de ser realista.
Consegue o que queria e sente um vazio, em vez da satisfação que imaginava.
Repare que em nenhum desses exemplos existe alguém dizendo "vou me atrapalhar". A pessoa acredita nos próprios motivos enquanto age, e é isso que torna o padrão tão difícil de enxergar de dentro.
Por que a gente faz isso
A psicanálise parte de uma ideia que soa estranha no começo, mas explica muita coisa, todo comportamento que se repete está servindo para alguma coisa, mesmo quando faz mal.
Ou seja, se um padrão insiste em voltar, é porque ele está protegendo alguma coisa. E o trabalho analítico não é combater esse padrão, é descobrir o que ele protege. Enquanto isso não fica claro, brigar com o comportamento não adianta, porque ele volta em outra forma.
Por exemplo, quem sempre estraga a oportunidade antes de ela virar realidade pode estar se poupando de uma experiência muito pior do que perder a chance, que seria tentar de verdade e descobrir que não era suficiente. Falhar por não ter tentado dói menos do que falhar tendo dado tudo.
O medo de dar certo
Parece contraditório, mas é comum. Muita gente tem mais medo de conseguir do que de fracassar, e existem razões concretas para isso.
Conseguir muda o lugar que a pessoa ocupa. Ela deixa de ser aquela que está tentando e passa a ser aquela de quem se espera alguma coisa. Se ela cresce profissionalmente, precisa lidar com a inveja de quem ficou. Se a relação dá certo, ela tem mais a perder do que tinha antes. O sucesso traz exposição, e exposição traz risco.
Então o padrão que parece autodestrutivo é, por dentro, uma forma de se manter em terreno conhecido. Continuar tentando é desconfortável, mas é previsível. Chegar lá, no entanto, é território novo e desconhecido.
A lealdade invisível à história de origem
Existe uma razão que aparece muito no consultório e que costuma surpreender quem a descobre. Algumas pessoas se atrapalham porque conseguir significaria ultrapassar alguém da própria família.
Por exemplo, uma mulher cuja mãe abriu mão da carreira pode sentir, sem nunca ter pensado nisso de forma clara, que crescer profissionalmente é uma traição. Ou alguém que veio de uma família que sofreu muito pode carregar a sensação de que ter uma vida leve é injusto com quem não teve.
Isso não é escolha consciente e ninguém formula assim. Mas o corpo obedece a essa lealdade, e ela se manifesta como aquele travamento inexplicável na hora de avançar.
O perfeccionismo como disfarce
Existe uma forma de autossabotagem que passa completamente despercebida, porque ela é socialmente elogiada. Aqui entra o perfeccionismo.
A pessoa não entrega porque ainda não está bom. Refaz a apresentação pela quinta vez, adia o lançamento até estar impecável, não publica o texto porque falta revisar mais uma vez. De fora isso parece capricho e comprometimento, e ela recebe elogios por isso. Por dentro é outra coisa, porque enquanto não estiver pronto, ela não pode ser julgada.
O detalhe cruel é que nunca fica pronto o suficiente. E aí o perfeccionismo cumpre exatamente a função de proteger, porque adiar indefinidamente evita o momento em que o trabalho será visto e avaliado. É por isso que cobrar mais empenho de quem já está exausta de tanto refazer não resolve nada.
O corpo também entra nessa
Nem sempre a autossabotagem aparece como comportamento. Às vezes ela aparece pelo corpo, e isso confunde ainda mais, porque parece azar ou coincidência.
Por exemplo, aquela enxaqueca que aparece justamente na véspera da viagem que a pessoa esperou o ano inteiro. Ou a crise de gastrite antes de uma apresentação importante. Ou a insônia que chega na semana da entrevista, e não em nenhuma outra semana do mês.
O corpo é honesto de um jeito que a fala não é. Quando alguma coisa não pode ser dita, ela costuma encontrar outro caminho para se manifestar, e é por isso que a psicanálise leva o sintoma físico a sério em vez de tratá-lo como coincidência.
Não é preguiça nem falta de disciplina
Vale dizer isso com todas as letras, porque é o que mais machuca quem vive esse padrão. A internet transformou autossabotagem em falha de caráter, e a solução oferecida costuma ser mais disciplina, mais foco, mais método.
Mas disciplina resolve problema de organização, e isso aqui não é problema de organização. Quem se atrapalha nos momentos decisivos normalmente é bastante capaz e disciplinada em outras áreas da vida, o que já mostra que a explicação não está aí.
Aliás, se fosse falta de método, as pessoas resolveriam com agenda e aplicativo. E se você já tentou isso e voltou ao mesmo lugar, essa é a prova de que a questão está em outro nível.
O que muda na análise
O trabalho não começa tentando corrigir o comportamento. Começa observando quando ele aparece, o que estava em jogo naquele momento, e o que teria acontecido se você tivesse seguido em frente.
Aos poucos, o padrão deixa de ser um evento aleatório e começa a fazer sentido dentro da sua história. E quando ele faz sentido, ele perde força, porque o que se repete cegamente é o que a gente não entendeu.
O que muda no final não é você virar uma pessoa sem medo. O medo continua existindo, mas ele para de decidir por você. É essa a diferença entre repetir e escolher.
Se esse tema conversa com você, vale olhar também para a dependência emocional, que trata de outro padrão que se repete e tem raízes parecidas.
Por onde começar
O primeiro passo não é se cobrar para parar de se atrapalhar, porque isso costuma piorar. É começar a reparar em que situações o padrão aparece, e o que existe em comum entre elas.
Você vai perceber que não é em qualquer momento. É num tipo específico de momento, e esse tipo tem a ver com a sua história.
E quando a dúvida é sobre atender por vídeo, os dados e a norma atual estão reunidos em psicanálise online.
Uma orientação que vale para qualquer profissional que você procurar, e não só para mim, todo psicólogo no Brasil precisa ter registro ativo no Conselho Regional, e isso é público. Você pode conferir o número de qualquer profissional no Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia, mantido pelo Conselho Federal. O meu é CRP 06/200925.
O que é autossabotagem?
É quando o comportamento da pessoa vai contra aquilo que ela mesma diz querer. Não é um evento isolado — todo mundo perde um prazo de vez em quando — o que caracteriza é a repetição, principalmente nos momentos que mais importam. Isso não acontece por acaso nem por falta de esforço: existe uma lógica por trás, só que ela não é consciente.
Por que algumas pessoas se sabotam quando estão perto de conseguir o que querem?
Existe uma razão que aparece muito no consultório e que costuma surpreender quem a descobre. Algumas pessoas se atrapalham porque conseguir significaria ultrapassar alguém da própria família, e isso não é uma escolha consciente, é uma lealdade invisível à história de origem.
Perfeccionismo pode ser uma forma de autossabotagem?
Sim, e é uma das formas que passam mais despercebidas, porque é socialmente elogiada. A pessoa não entrega porque ainda não está bom, refaz o trabalho várias vezes, adia o lançamento até estar impecável, e de fora isso parece capricho e comprometimento. Por dentro é outra coisa, porque enquanto não estiver pronto, ela não pode ser julgada.
A autossabotagem pode aparecer no corpo, e não só no comportamento?
Sim. Nem sempre a autossabotagem aparece como comportamento, às vezes ela aparece pelo corpo, o que confunde ainda mais porque parece azar ou coincidência. É o caso da enxaqueca que surge justamente na véspera de uma viagem esperada o ano inteiro, ou da insônia que chega bem na semana da entrevista.
Priscila Soares Falchi
Priscila Soares Falchi é Psicóloga Clínica (CRP 06/200925) e Psicanalista formada pelo instituto IBCP. Pós-graduada em Psicanálise Contemporânea pela PUC-RS, com especialização livre em Práticas Clínicas na Infância, e pós-graduanda em Terapia Cognitivo-Comportamental pela PUC-RS. Atende adultos, adolescentes e crianças em Santo André e também de forma online.
Autossabotagem não é preguiça nem falta de disciplina. É um padrão que se repete e que está protegendo alguma coisa. Entenda o que a psicanálise vê por trás.
O inconsciente na era digital: como a psicanálise nos ajuda a navegar no mundo hiperconectado. Quando o inconsciente dá um "like": explorando as implicações psicanalíticas das redes sociais e da cultura digital
A pergunta que mais chega até mim, antes mesmo da primeira sessão, é se aquilo que a pessoa está sentindo já é motivo suficiente. Ela costuma dizer alguma coisa como "não sei se é caso de terapia" ou "tem gente passando por coisa muito pior". Eu entendo de onde isso vem, mas essa comparação atrapalha mais do que ajuda.
Não existe uma medida mínima de sofrimento para procurar um psicólogo. O critério não é a gravidade do que aconteceu com você, e sim o quanto aquilo está ocupando o seu dia. Uma pessoa pode estar bem por fora, com trabalho, família e vida social funcionando, e mesmo assim carregar um cansaço que ela não consegue explicar para ninguém.
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Não precisa estar em crise
Muita gente espera chegar no limite para procurar um psicólogo, como se a terapia fosse um pronto-socorro. O problema é que, quando a crise chega, a pessoa já vem de meses ou anos empurrando alguma coisa com a barriga, e aí o trabalho começa num momento em que ela tem menos energia para fazê-lo.
Procurar antes da crise é uma forma de prevenção, não exagero. Por exemplo, quem começa a análise num período mais calmo consegue olhar para a própria história com mais espaço, sem a urgência de apagar um incêndio. E quando a vida aperta de novo, e ela sempre aperta em algum momento, essa pessoa já tem um lugar construído onde falar.
Os sinais de que é hora de procurar um psicólogo
Não existe uma lista fechada, porque cada história é uma história. Mas alguns sinais aparecem com muita frequência em quem chega ao consultório:
Você acorda cansada mesmo tendo dormido, e esse cansaço não passa no fim de semana.
Coisas que antes te davam prazer foram perdendo a graça, e você nem percebeu quando isso começou.
Você se pega repetindo o mesmo padrão em relações diferentes, sempre com o mesmo desfecho.
Existe uma irritação de fundo que aparece por motivo pequeno, e depois vem a culpa por ter reagido assim.
Você evita determinados assuntos, lugares ou pessoas, e já organizou a rotina em volta dessa fuga.
O corpo está falando: insônia, dor de cabeça, aperto no peito, estômago embrulhado, sem causa clínica que explique.
Você percebe que está funcionando no automático, cumprindo tarefas sem estar de fato ali.
Se você reconheceu alguns desses, isso não quer dizer que exista um diagnóstico esperando por você. Quer dizer que tem alguma coisa pedindo espaço para ser dita, e é disso que a análise trata.
O que as pessoas acham que não conta, mas conta
Existe uma lista de motivos que as pessoas descartam sozinhas, achando que são pequenos demais, e que na verdade são material de trabalho legítimo.
Por exemplo, dificuldade de tomar decisões, mesmo as simples. Ou aquela sensação de estar sempre em dívida com alguém. Ou não conseguir dizer não, e depois passar dias remoendo. Ou ainda a impressão de que a sua vida está boa no papel, mas você não sente o que imaginou que fosse sentir.
Nada disso precisa virar sintoma grave para merecer atenção. O sofrimento que se repete e não encontra saída sozinho já é razão suficiente, e o fato de outras pessoas terem problemas maiores não diminui o seu.
"Mas eu consigo lidar sozinha"
Provavelmente consegue mesmo, porque você vem conseguindo até aqui. A questão é a que custo, e por quanto tempo mais.
Lidar sozinha costuma significar administrar o sintoma, dormir menos, se distrair mais, evitar o assunto, se manter ocupada. Isso funciona por um tempo, mas não elabora nada, e o que não é elaborado tende a voltar, muitas vezes em outra forma.
A análise oferece uma coisa que a conversa com amigos, por melhor que ela seja, não oferece, alguém que escuta sem estar envolvido na sua história, sem precisar te consolar rápido e sem ter opinião sobre o que você deveria fazer.
O que o trabalho com um psicólogo não é
Parte da dúvida sobre procurar um psicólogo vem de uma expectativa que não corresponde ao que acontece de fato, e vale desfazer isso antes de começar.
A terapia não é alguém te dizendo o que fazer. Eu não vou te dar conselho sobre terminar uma relação, pedir demissão ou perdoar alguém, porque essas decisões são suas e só fazem sentido quando partem de você. O que a análise faz é te ajudar a entender de onde vem a dificuldade de decidir.
Também não é um espaço de desabafo apenas. Desabafar alivia por algumas horas, e isso tem valor, mas se fosse suficiente uma conversa com uma amiga resolveria. O trabalho analítico é outro, procura o que se repete, o que está por trás do que se repete, e o que aquilo protege.
E também não é um processo rápido. Por exemplo, uma questão que se organizou ao longo de vinte anos não se desfaz em quatro sessões. Isso não quer dizer que você vai passar anos sofrendo do mesmo jeito, porque o alívio costuma vir bem antes do fim do processo, mas é honesto dizer que é um processo.
O custo de adiar
Quase todo mundo que chega ao consultório diz a mesma frase em algum momento dos primeiros meses, "eu devia ter procurado antes".
No tempo de espera, a questão costuma se acomodar em vez de sumir. A pessoa vai construindo a vida em volta da dificuldade, e por exemplo deixa de aceitar convites, evita determinado tipo de conversa, escolhe trabalhos que exijam menos exposição. Quando ela finalmente procura um psicólogo, não é só a questão original que está ali, mas também tudo o que ela deixou de fazer por causa dela.
Isso não é motivo para culpa, porque adiar faz parte, e ninguém procura um psicólogo antes de estar pronto. Mas é motivo para não adiar mais depois que a pergunta já apareceu.
Como é a primeira conversa
Uma dúvida comum é o que a pessoa vai falar na primeira sessão, e o medo de não saber explicar direito o que está sentindo. Isso não é problema, é o ponto de partida.
A primeira conversa serve para você contar o que te trouxe, do jeito que conseguir, e para nós duas percebermos se faz sentido seguir juntas. Não precisa preparar nada, não precisa organizar a história em ordem cronológica, e não tem resposta certa. Muita gente chega dizendo "não sei nem por onde começar", e isso já é um começo.
Também não existe compromisso de continuar. Se depois dessa conversa você achar que não é o momento, ou que prefere outro psicólogo, está tudo bem.
Online ou presencial
Essa dúvida aparece bastante, e a resposta honesta é que o formato importa menos do que as pessoas imaginam. O que sustenta o processo é o vínculo e a regularidade, não a sala.
O atendimento online tem vantagens concretas, economiza o deslocamento, encaixa melhor em rotinas apertadas, e permite continuar o processo mesmo se você mudar de cidade. Por exemplo, quem viaja a trabalho com frequência costuma manter a análise sem interrupção, o que seria difícil no presencial.
O que ele exige é um cuidado prático, um lugar reservado, onde você fique à vontade para falar em voz alta sem se preocupar com quem está ouvindo. Isso faz uma diferença que se percebe logo.
Como escolher o psicólogo
Duas coisas são objetivas e você pode conferir antes de qualquer conversa. A primeira é o registro no Conselho Regional de Psicologia, que todo psicólogo tem e pode informar. A segunda é a formação, principalmente a abordagem com que a pessoa trabalha, porque isso muda bastante o tipo de trabalho que vocês vão fazer.
A terceira coisa não é objetiva, mas é a que mais pesa, como você se sentiu na primeira conversa. Não precisa ser conforto imediato, porque falar de coisas difíceis não é confortável. Mas precisa ter a sensação de que ali é um lugar onde você pode falar sem ser julgada.
Quando procurar um psicólogo com urgência
Tudo o que escrevi até aqui vale para um processo que se constrói com tempo. Mas existem situações em que a busca precisa ser imediata, e é importante dizer isso com clareza.
Se você tem pensamentos de tirar a própria vida, ou de se machucar, procure ajuda agora. O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, é gratuito e sigiloso. Se houver risco imediato, o pronto-socorro mais próximo ou o SAMU pelo 192.
Isso não substitui um processo terapêutico, mas é o cuidado que vem primeiro.
Se você chegou até aqui e reconheceu alguma coisa sua, agende uma primeira conversa. Eu atendo online para todo o Brasil, e a gente vê com calma se faz sentido seguir.
Quando a dúvida é sobre o formato, o que a pesquisa mostra e o que diz a norma do Conselho está reunido em psicanálise online. E quando o que traz até aqui é uma relação que se repete sempre do mesmo jeito, o nome disso costuma ser dependência emocional.
Uma orientação que vale para qualquer profissional que você procurar, e não só para mim, todo psicólogo no Brasil precisa ter registro ativo no Conselho Regional, e isso é público. Você pode conferir o número de qualquer profissional no Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia, mantido pelo Conselho Federal. O meu é CRP 06/200925.
Se eu consigo lidar sozinha, ainda vale a pena procurar um psicólogo?
Provavelmente você consegue mesmo, porque vem conseguindo até aqui. A questão é a que custo e por quanto tempo mais. Lidar sozinha costuma significar administrar o sintoma, dormir menos, se distrair mais, evitar o assunto, o que funciona por um tempo, mas não elabora nada. O que não é elaborado tende a voltar, muitas vezes de outra forma.
É preciso esperar uma crise para procurar um psicólogo?
Não precisa. Procurar antes da crise é uma forma de prevenção, não exagero. Quem começa a análise num período mais calmo consegue olhar para a própria história com mais espaço, sem a urgência de apagar um incêndio, e quando a vida aperta de novo, já tem um lugar construído onde falar.
Motivos "pequenos", como dificuldade de dizer não, justificam procurar terapia?
Sim. Dificuldade de tomar decisões, mesmo as simples, a sensação de estar sempre em dívida com alguém, não conseguir dizer não e depois remoer por dias, ou sentir que a vida está boa no papel mas não sentir o que imaginava sentir, são motivos que as pessoas costumam descartar como pequenos demais, mas que na verdade já são material de trabalho legítimo.
O atendimento online tem alguma desvantagem em relação ao presencial?
A principal exigência é um cuidado prático, ter um lugar reservado, onde você fique à vontade para falar em voz alta sem se preocupar com quem está ouvindo. Fora isso, o online tem vantagens concretas, como economizar o deslocamento e permitir continuar o processo mesmo se você mudar de cidade.
Priscila Soares Falchi
Priscila Soares Falchi é Psicóloga Clínica (CRP 06/200925) e Psicanalista formada pelo instituto IBCP. Pós-graduada em Psicanálise Contemporânea pela PUC-RS, com especialização livre em Práticas Clínicas na Infância, e pós-graduanda em Terapia Cognitivo-Comportamental pela PUC-RS. Atende adultos, adolescentes e crianças em Santo André e também de forma online.
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Uma coisa é sentir falta de alguém que a gente ama, e outra bem diferente é sentir que não consegue respirar sem essa pessoa por perto. A primeira faz parte de qualquer relação afetiva e é até bonita, mas a segunda costuma ser o começo de um sofrimento que se repete, uma relação depois da outra, sempre com o mesmo roteiro.
Escuto essa história com frequência no consultório, e quase sempre com as mesmas palavras, porque a pessoa chega e diz que sabe que não deveria, mas não consegue. Ela já entendeu tudo racionalmente, já ouviu conselho de todo mundo em volta, e mesmo assim continua exatamente onde estava.
A dependência emocional não chega anunciada, ela vai se instalando devagar, com cara de dedicação, de amor grande, daquele "eu faço qualquer coisa por você". Por exemplo, você deixa de ir num aniversário porque a outra pessoa não estava bem naquele dia, e depois deixa de ir num segundo, e num terceiro, até que um dia você percebe que já organizou a sua vida inteira em volta do humor de alguém.
Índice
O que é dependência emocional
Dependência emocional é quando a pessoa passa a precisar do outro para se sentir inteira. Cuidado existe em toda relação boa, e companheirismo também, mas o problema está quando essa necessidade passa por cima do próprio desejo e a pessoa começa a viver em função do que o outro sente.
Quem vive isso costuma descrever sempre a mesma cena, que começa com aquela angústia que aperta quando a outra pessoa demora a responder uma mensagem, passa pelo alívio imediato quando ela finalmente responde, e termina na sensação de estar o tempo todo medindo a temperatura da relação, como quem checa a febre de hora em hora para ver se piorou. No fim das contas, o dia inteiro fica bom ou ruim dependendo de como o outro acordou.
Preciso dizer uma coisa aqui, porque a internet estragou um pouco essa conversa, e é que dependência emocional não é falta de amor próprio e também não é fraqueza de caráter. É um jeito de se vincular que foi construído ao longo de uma história, e toda história tem os seus motivos.
Como a psicanálise entende isso
A psicanálise não olha para a dependência emocional como um defeito que precisa ser corrigido, e sim como uma repetição, ou seja, alguma coisa que se organizou muito cedo na vida da pessoa e continua acontecendo porque nunca encontrou outro caminho possível.
Nas primeiras relações da vida, a criança aprende o que ela precisa fazer para ser cuidada. Se esse cuidado veio de um jeito imprevisível, ora presente ora ausente, ela acabou aprendendo que amor é uma coisa que se conquista com esforço permanente e que pode ser retirada a qualquer descuido, e essa lição não se apaga com o tempo, ela vai se atualizando a cada relação nova.
Daí vem uma coisa que parece contraditória, mas não é. A pessoa costuma escolher, sem perceber, parceiros que reproduzem exatamente aquele clima de instabilidade que ela conheceu, e isso não acontece porque ela goste de sofrer, e sim porque aquele terreno é o único que o corpo dela reconhece como amor. Por exemplo, uma relação estável e tranquila pode até parecer sem graça para quem aprendeu que amor é tensão.
Freud deu um nome para esse funcionamento, que é compulsão à repetição. Não é o prazer que se repete, mas a tentativa de dar um desfecho diferente para alguma coisa que ficou em aberto lá atrás.
Sinais de que a relação virou dependência
Nenhum sinal sozinho quer dizer alguma coisa, porque o que pesa é o conjunto e principalmente a repetição ao longo do tempo:
Você foi largando atividades, amizades ou projetos que eram importantes para você, e nem percebeu direito a hora em que isso aconteceu.
A ideia de terminar provoca um medo que vai muito além da tristeza que qualquer separação traz.
Você evita conflito mesmo quando alguma coisa te machuca, com medo de que a pessoa se afaste.
Antes de decidir qualquer coisa, você passa por uma pergunta silenciosa, que é como ele ou ela vai reagir a isso.
Você se anula em várias áreas da sua vida, e chama isso de maturidade ou de dedicação.
Você já tentou sair mais de uma vez, e voltou, mesmo sabendo que nada tinha mudado.
Se vários desses pontos fizeram sentido para você, isso não quer dizer que a relação precisa acabar, e sim que existe alguma coisa ali pedindo para ser olhada com mais cuidado.
A diferença entre amar e precisar
Uma coisa é escolher e amar uma pessoa, outra bem diferente é achar que precisa dessa pessoa para viver. O problema está quando o outro passa a ser a sua razão de viver.
Se uma relação é sustentada pelo amor, existe espaço para discordar, e existe espaço para ter uma vida própria ao lado da pessoa. Por exemplo, haver um espaço onde o outro pode viajar um fim de semana, sem que isso vire uma crise. Em qualquer relação existe risco, mas o risco é suportável.
Quando o que sustenta é a necessidade, esse risco vira ameaça, e qualquer sinal de distância dispara um alarme que, para quem olha de fora, parece exagero. Mas para quem está sentindo, é bem concreto, porque vem em forma de falta de ar, peito apertado e pensamento acelerado que não desliga a noite inteira.
O que a análise oferece
O trabalho não começa tentando convencer ninguém a terminar a relação, ele começa entendendo o que aquela relação sustenta, o que ela protege, e qual história antiga está tentando ser reescrita ali dentro.
No meio do caminho, quase sempre aparece a mesma descoberta, que é perceber que muito daquilo que ela chamava de amor era, na verdade, medo. Medo de ficar sozinha, medo de não ser suficiente para ninguém, e medo de descobrir que, sem aquela relação, ela não sabe direito quem é.
Leva tempo, e não é por preguiça do processo, porque não se trata de aprender uma técnica nem de seguir um passo a passo. Trata-se de conhecer a própria história a ponto de não precisar mais repeti-la.
O que muda no final não é a intensidade do afeto, porque a pessoa continua amando do mesmo jeito de antes. O que muda é a possibilidade de escolher, ou seja, ela passa a conseguir ficar, se for isso que ela quiser, e passa a conseguir sair, se for isso que ela precisar. Quando essas duas coisas se tornam possíveis ao mesmo tempo, a dependência acabou.
A ligação com a ansiedade
Muita gente chega ao consultório falando de ansiedade, e só depois vai descobrir que essa ansiedade estava amarrada a uma relação, o que faz todo sentido, porque quando o seu equilíbrio depende do comportamento de outra pessoa, o corpo entra em estado de alerta permanente, tentando prever uma coisa que não dá para prever.
Esse estado de alerta cobra caro, e ele aparece como insônia, como dificuldade de se concentrar no trabalho, e como aquela inquietação que não passa nem nos momentos bons da relação. Por exemplo, dá para estar num jantar tranquilo com a pessoa e mesmo assim ficar monitorando o celular dela, o tom de voz, a expressão do rosto.
Para a psicanálise, a ansiedade é um sinal e não é ela o problema em si, porque o que ela está fazendo é avisar que existe alguma coisa ali pedindo para ser elaborada. Na dependência emocional, o que costuma estar embaixo desse sinal é o medo do abandono, mas esse medo quase nunca nasceu na relação atual, ele só foi reativado ali.
Se esse ponto te interessa, escrevi também sobre ansiedade e recalque, que trata do que acontece quando emoções e desejos ficam represados sem encontrar saída.
Dá para sair desse lugar
Dá para sair desse lugar, sim, e isso não depende de força de vontade, ao contrário do que muita gente acredita.
A saída não vem de uma decisão tomada num momento de raiva, nem de uma lista de regras sobre como se comportar dentro de uma relação. Ela vem de entender o que está sendo repetido ali, e principalmente de entender por quê.
Esse entendimento de que eu falo não é o intelectual, porque quase todo mundo que vive uma dependência emocional já sabe que aquela relação faz mal e mesmo assim continua nela, ou seja, saber sozinho não basta. O que a análise permite é outra coisa, que é construir devagar uma relação diferente consigo mesma, até que a presença do outro deixe de ser condição para você existir.
Quando procurar ajuda
Não precisa esperar uma crise para procurar ajuda, porque se você se reconheceu na leitura deste texto, ou se percebe que o mesmo padrão vem se repetindo em relações diferentes, isso já é motivo suficiente.
A dependência emocional costuma vir acompanhada de ansiedade, de sintomas no corpo e, muitas vezes, de quadros depressivos. Tratar só o sintoma, sem olhar o que está sustentando ele, traz alívio por um tempo, mas o padrão volta na relação seguinte.
O atendimento em psicanálise e psicologia clínica é esse espaço, um lugar para falar sem ser julgada, onde aquilo que se repete pode enfim ser entendido.
Se você quiser conversar sobre isso, agende uma consulta. Eu atendo online, para todo o Brasil.
Se a sua dúvida agora for sobre como funciona a terapia a distância, reuni o que a pesquisa mostra e o que mudou nas regras em psicanálise online.
Uma orientação que vale para qualquer profissional que você procurar, e não só para mim. Todo psicólogo no Brasil precisa ter registro ativo no Conselho Regional, e isso é público. Você pode conferir o número de qualquer profissional no Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia, mantido pelo Conselho Federal. O meu é CRP 06/200925.
Priscila Soares Falchi
Priscila Soares Falchi é Psicóloga Clínica (CRP 06/200925) e Psicanalista formada pelo instituto IBCP. Pós-graduada em Psicanálise Contemporânea pela PUC-RS, com especialização livre em Práticas Clínicas na Infância, e pós-graduanda em Terapia Cognitivo-Comportamental pela PUC-RS. Atende adultos, adolescentes e crianças em Santo André e também de forma online.
Dependência emocional não é fraqueza. É um padrão de vínculo que se repete e tem raízes na história de cada um. Entenda como a psicanálise compreende e trata esse sofrimento.