Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

Transferência nas telas: como a psicanálise online redefine a relação terapêutica

A psicanálise, desde que foi concebida por Sigmund Freud no final do século XIX, sempre teve como fundamento a relação entre o paciente e o analista. Esse encontro, tradicionalmente realizado no consultório, é o local onde se desenvolve o processo terapêutico, permitindo a exploração do inconsciente e a resolução dos conflitos emocionais. Contudo, como essa dinâmica é afetada quando a análise é realizada no ambiente virtual? Será possível estabelecer uma transferência genuína através das telas?

Para entender essa questão, é preciso primeiro abordar o conceito de transferência, um dos pilares da teoria psicanalítica.

O que é a transferência na teoria psicanalítica?

A transferência consiste no desvio de desejos, sentimentos e padrões de relacionamento do paciente para o analista. Trata-se de um fenômeno inconsciente em que o paciente revive e atualiza, na relação com o analista, conflitos e experiências emocionais passadas, especialmente aquelas ligadas às figuras parentais e às vivências da infância.

A transferência não ocorre apenas em uma direção, uma vez que, ela é uma via de mão dupla. Enquanto o paciente transfere para o analista seus afetos e conflitos, este também vivencia a contratransferência, pela qual os sentimentos e reações despertados nele pelo paciente.

Esse jogo de influências recíprocas é o impulsionador do processo terapêutico, permitindo que o paciente explore e reinterprete suas experiências emocionais, enquanto o analista, por meio de interpretações e da condução da transferência, ajuda o paciente nessa jornada de tratamento de suas questões emocionais, autoconhecimento e transformação psicológica.

Como a transferência se manifesta no ambiente online?

Com os avanços tecnológicos e a crescente busca por serviços de saúde mental remotos, a psicanálise virtual tem ganhado destaque e se mostrado um campo propício para o desenvolvimento da transferência.

Apesar da falta de contato físico e da separação geográfica, a consistência das sessões e a atenção flexível do analista criam um espaço seguro para que o paciente associe livremente, explorando seu mundo interno e expressando seus conflitos e angústias.

Na prática, isso aparece de um jeito concreto. Uma pessoa que atrasa a entrada na chamada toda semana, no mesmo horário em que evita o assunto que mais dói. Ou alguém que só consegue falar de frente para a câmera o que nunca disse olhando nos olhos de ninguém, porque a tela cria uma distância que, paradoxalmente, aproxima. O vínculo se constrói pelas mesmas vias de sempre, repetição, confiança, e o tempo que a análise leva para revelar o que estava escondido.

Pessoa em atendimento por videochamada, tela do computador com o rosto de quem atende

Como surge a transferência?

Na psicanálise online, a transferência pode surgir de maneiras sutis e diversas. O paciente pode se fixar em certas palavras ou expressões usadas pelo analista, atribuindo-lhes um significado especial.

Também pode projetar no analista suas esperanças, receios e desejos, buscando nele uma, de forma inconsciente, a figura de amor, admiração ou rivalidade.

A transferência também pode se manifestar por meio de comportamentos disruptivos, como atrasos ou ausências nas sessões, ou pela resistência em abordar certos assuntos.

A condução da transferência no contexto da psicanálise online?

No contexto virtual, o psicanalista precisa dedicar uma atenção especial aos detalhes da comunicação não verbal, como entonação, pausas, silêncios e expressões faciais do paciente.

Além disso, é importante que o terapeuta esteja ciente de suas próprias reações transferenciais para compreender melhor o mundo interno do paciente e a dinâmica da relação terapêutica.

O ambiente online apresenta desafios específicos, como a definição de limites e questões de privacidade. É essencial que o psicanalista estabeleça um contrato terapêutico claro, determinando as diretrizes da relação, como horários das sessões, duração, forma de pagamento e política de cancelamento. Também é fundamental garantir a confidencialidade e segurança dos dados compartilhados por meio de plataformas seguras e criptografadas.

Na minha prática, isso significa perguntar sobre o ambiente antes de começar. Se a pessoa está mesmo sozinha, se o fone de ouvido está funcionando, se o lugar da sessão é sempre o mesmo. Esses detalhes parecem só logística, mas sustentam o mesmo enquadre que, no consultório físico, é dado pela sala sempre igual, pela porta que se fecha, pelo divã no mesmo lugar.

A contratransferência, do lado do analista, também muda de textura no ambiente virtual. É comum sentir mais cansaço ao fim de um dia de sessões por vídeo do que num dia inteiro no consultório, e isso não é acaso. Sustentar atenção pela tela exige um esforço adicional que pesquisadores já nomeiam como fadiga de videochamada. Reconhecer esse cansaço, sem deixar que ele atrapalhe a escuta, também faz parte do trabalho.

Apesar dos obstáculos mencionados, a psicanálise online tem se mostrado eficaz e impactante , apontando para o entendimento de que a transferência pode ser estabelecida com sucesso no ambiente online, permitindo ao paciente explorar seu inconsciente, resolver conflitos internos e obter insights transformadores.

Psicanálise online é viável?

Portanto, se estiver pensando em iniciar uma terapia online, saiba que é viável criar uma conexão emocional genuína com seu terapeuta, mesmo através das telas.

A psicoterapia, com sua ênfase na transferência e na relação terapêutica, permanece como uma ferramenta valiosa para o autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal, independentemente do ambiente.

Para quem é a psicanálise online?

No entanto, é importante salientar que a terapia online pode não ser adequada para todos os casos.

Pacientes em crise aguda, com risco de suicídio ou com transtornos psicóticos graves podem necessitar de acompanhamento presencial e suporte mais intensivo, o que detalhei em desafios da psicanálise online: para quem funciona melhor.

Cabe ao terapeuta analisar cuidadosamente cada situação e discutir com o paciente a abordagem de tratamento mais adequada às suas necessidades e possibilidades.

Além do quadro clínico, outro fator pesa na decisão, a familiaridade da pessoa com o formato remoto. Quem já usa videochamada no dia a dia, para trabalho ou para falar com a família, costuma se adaptar rápido. Quem nunca usou pode levar as primeiras sessões só para se acostumar com a própria imagem na tela, e isso é normal, e passa.

agende sua consulta

O atendimento psicológico a distância é regulamentado no Brasil. A Resolução nº 9/2024 do Conselho Federal de Psicologia define as regras em vigor.

Em conclusão

Resumindo, a dinâmica terapêutica na era digital é um assunto fascinante e desafiador que nos convida a reconsiderar os princípios da psicoterapia e explorar novas maneiras de estabelecer a transferência e facilitar a transformação emocional. Seja no consultório tradicional ou por meio das telas, o encontro entre cliente e terapeuta continua sendo o cerne da experiência terapêutica, um espaço de acolhimento, descoberta e crescimento emocional.

Este texto é anterior à Resolução CFP nº 9/2024, que mudou as regras do atendimento psicológico por meios digitais no Brasil. Reuni o quadro atualizado, com a norma em vigor e o que a pesquisa brasileira mostra sobre eficácia, em psicanálise online: como funciona e o que dizem os estudos.

Como surge a transferência na psicanálise online?

A transferência pode surgir de maneiras sutis e diversas. O paciente pode se fixar em certas palavras ou expressões usadas pelo analista, atribuindo-lhes um significado especial, ou projetar nele, de forma inconsciente, suas esperanças, receios e desejos, buscando a figura de amor, admiração ou rivalidade. Também pode se manifestar por meio de comportamentos, como atrasos.

O que é a transferência na teoria psicanalítica?

A transferência consiste no desvio de desejos, sentimentos e padrões de relacionamento do paciente para o analista. É um fenômeno inconsciente em que o paciente revive e atualiza, na relação com o analista, conflitos e experiências emocionais passadas, especialmente aquelas ligadas às figuras parentais e às vivências da infância.

A psicanálise online é adequada para todos os casos?

Não. Pacientes em crise aguda, com risco de suicídio ou com transtornos psicóticos graves podem necessitar de acompanhamento presencial e suporte mais intensivo. Cabe ao terapeuta analisar cuidadosamente cada situação e discutir com o paciente a abordagem de tratamento mais adequada às suas necessidades e possibilidades.

A contratransferência do analista também muda no atendimento online?

Sim. É comum o analista sentir mais cansaço ao fim de um dia de sessões por vídeo do que num dia inteiro no consultório, porque sustentar atenção pela tela exige um esforço adicional que pesquisadores já nomeiam como fadiga de videochamada. Reconhecer esse cansaço, sem deixar que ele atrapalhe a escuta, também faz parte do trabalho.

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Priscila Soares Falchi
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