No consultório, o espaço da sessão vem pronto. Você entra, fecha a porta, e aquele lugar é da análise. Na sessão online, esse espaço passa a ser responsabilidade sua, e quase ninguém avisa isso antes.
Este texto trata do lugar de onde você fala na sessão online, algo que costuma ser tratado como detalhe técnico. Ele influencia o que você consegue dizer.
Índice
O lugar da sessão online: o que ele precisa ter
Um lugar onde ninguém entre é a condição, não uma questão de estética.
Não precisa ser um escritório bonito nem um ambiente silencioso de estúdio. Precisa ser um lugar onde você não vá interromper a frase no meio porque alguém passou atrás, nem baixar a voz quando o assunto ficar difícil.
Essa condição protege a sua liberdade de dizer o que veio, não o sigilo formal, que já está garantido do meu lado. Quem fala olhando para a porta fala outra coisa.
Essa exigência ultrapassa o bom senso clínico, meu ou seu. A Resolução CFP nº 9/2024 regulamenta o atendimento psicológico mediado por tecnologia no Brasil, e é ela que determina as condições mínimas de sigilo e privacidade que o ambiente da sessão online precisa garantir.
O som importa mais que a imagem
Se você tiver que escolher entre melhorar a câmera e melhorar o áudio, melhore o áudio.
O fone de ouvido resolve os dois lados de uma vez. Impede que quem está na casa escute o que eu digo, e reduz a fadiga de escuta que uma sessão inteira em caixa de som produz. Qualquer fone simples serve, inclusive o que veio com o celular.
Quanto à conexão, estável importa mais do que rápida. Uma conexão modesta e constante sustenta uma sessão online melhor do que uma rápida que cai a cada dez minutos. Se der para usar cabo em vez de wi-fi, use.

O plano para a interrupção na sessão online
Interrupção vai acontecer, e ter combinado o que fazer antes evita que ela vire constrangimento.
Se a conexão cair, eu ligo de volta. Você não precisa se explicar nem pedir desculpa. Se alguém bater na porta, você diz e a gente pausa. O tempo perdido nesses casos entra na conta da sessão.
O que atrapalha de verdade não é a interrupção, e sim o medo dela. Quem passa a sessão online inteira com um ouvido na porta não está ali por completo.
Quando não existe um cômodo só seu
Essa é a situação mais comum, e ela tem saída.
- O carro estacionado. É mais usado do que se imagina, e funciona muito bem: é fechado, é seu, e ninguém entra.
- Combinar o horário. Escolher o momento em que a casa está vazia, mesmo que não seja o horário mais conveniente.
- Fone e voz baixa, num cômodo com porta. Menos ideal, mas viável quando não há outra opção.
Sala aberta com gente circulando não funciona, nem sessão online feita andando pela casa. Nesses casos, é melhor remarcar do que fazer pela metade.
A transição que o consultório dava de graça
Existe uma perda no online que raramente é nomeada, e vale se preparar para ela.
No consultório existe o deslocamento. O caminho de ida serve para chegar, e o de volta serve para assentar o que foi mexido. Em casa, a sessão acaba e a vida está do outro lado da porta, imediatamente.
A compensação é simples e faz diferença. Reserve quinze minutos depois, sem compromisso em seguida. Não precisa fazer nada específico. Precisa não emendar numa reunião.
O que não precisa
Vale dizer o que dispensa, porque muita gente adia por achar que precisa se equipar.
Não precisa de computador. Celular funciona, desde que apoiado em algum lugar e não na mão. Não precisa de internet rápida, como já disse. Não precisa de um cenário arrumado atrás de você, nem de fundo virtual. E não precisa de um cômodo dedicado.
A luz, e por que ela não é vaidade
Vale sentar de frente para a janela, ou para o abajur, e não de costas. Com a luz atrás, você vira uma silhueta escura na tela, e eu perco justamente o que mais uso, que é o seu rosto.
Não precisa de equipamento. Uma luminária de mesa apontada para a parede à sua frente já resolve. Se a sessão online for à noite, evite ficar só com a luz azulada do próprio aparelho, que cansa a vista e endurece a expressão.
Sobre o enquadramento, o ideal é aparecer do peito para cima, com um palmo de folga acima da cabeça. Assim eu vejo o ombro subir quando algo aperta, e isso conta bastante.
Fazer a sessão do carro ou do trabalho
Acontece, e não é o fim do mundo. Muita gente só consegue um horário no meio do expediente, e o carro estacionado acaba sendo o lugar mais reservado que existe.
Funciona com duas condições. O carro precisa estar parado, sempre, e num lugar onde você não vá ser abordada. E o fone de ouvido passa a ser obrigatório, porque o som do aparelho aberto atravessa o vidro mais do que você imagina.
Já a sala de reunião da empresa costuma ser pior do que parece. Parede fina, gente passando, e a sensação de estar sendo ouvida faz você medir cada palavra. Numa sessão online, medir palavra é exatamente o que atrapalha. Se for a única opção, me avise. Dá para ajustar o que fazemos naquele dia.
O que muda quando você atende do celular
Funciona, e é o que a maioria usa. Só peço duas coisas.
A primeira é apoiar o aparelho em algum lugar em vez de segurar. A mão cansa, a imagem balança, e você acaba se olhando o tempo todo em vez de falar comigo.
A segunda é colocar o celular no modo não perturbe. Notificação chegando no meio da sessão online tira você do assunto, e às vezes leva vários minutos para voltar ao ponto onde estava.
Quando não dá para fazer a sessão online
Sendo honesta, existem situações em que essas condições mínimas não se sustentam, e insistir no online seria fingir que está tudo bem.
Uma sessão online em conexão ruim, num lugar sem privacidade, com interrupção a cada dez minutos, é uma sessão prejudicada. E há quadros clínicos em que o presencial é mais indicado por outras razões, que estão detalhadas em psicanálise online: como funciona.
Se as condições existirem, o que a pesquisa mostra é que o vínculo se constrói do mesmo jeito. Se quiser saber como é o primeiro encontro, escrevi em como é a primeira sessão.
Para conversar sobre o seu caso, agende uma primeira conversa. Atendo online para todo o Brasil.
A câmera ligada na sessão online, e por que não é formalidade
Preciso mesmo ligar a câmera? É uma pergunta que aparece com frequência.
Precisa, e a razão é clínica, não de etiqueta. O que o rosto faz enquanto a frase é dita comunica tanto quanto ela, às vezes mais, numa sessão online. A hesitação antes de uma palavra, o desvio de olhar num assunto específico, o sorriso que aparece contando algo triste. Isso tudo é material de trabalho.
Vale a mesma coisa do meu lado. Você precisa ver que está sendo escutada, e a tela preta tira isso.
Existe uma exceção que respeito. Em certos momentos, dizer algo muito difícil fica mais fácil sem ser vista. Se isso acontecer, é só falar. Desligar a câmera por um trecho é diferente de fazer a sessão inteira no escuro.
Onde apoiar o aparelho
Apoie o aparelho em algo firme, na altura aproximada do rosto. É um detalhe pequeno, com efeito grande.
Celular na mão produz uma imagem que balança o tempo todo, e obriga você a segurar o braço por cinquenta minutos. Além do cansaço físico, a mão ocupada tira uma coisa que importa. No consultório as pessoas gesticulam, mexem no anel, cruzam os braços, e esses movimentos dizem coisas.
Uma pilha de livros resolve. Não precisa de suporte comprado.
O horário fixo faz parte do combinado
O horário faz parte do lugar da sessão online, tanto quanto o espaço. E aqui o online tem uma armadilha própria.
Como não existe deslocamento, fica fácil tratar a sessão online como algo encaixável, hoje mais cedo, semana que vem mais tarde, quando der. Essa flexibilidade parece uma vantagem e cobra caro.
O horário fixo cria uma continuidade que o processo precisa. O que foi dito numa semana segue produzindo efeito e volta na seguinte, transformado. Encontros espaçados ou móveis perdem esse fio, e boa parte do tempo acaba indo para atualizar o que aconteceu em vez de aprofundar.
O que fazer quando não existe um cômodo privado em casa para a sessão online?
Existem algumas saídas. O carro estacionado, que é fechado e seu, funciona muito bem e é mais usado do que se imagina; combinar o horário para o momento em que a casa está vazia, mesmo que não seja o mais conveniente; ou usar fone e voz baixa num cômodo com porta, menos ideal, mas viável. O que não funciona é sala aberta com gente circulando ou fazer a sessão andando pela casa, e nesses casos é melhor remarcar do que fazer pela metade.
Preciso mesmo ligar a câmera na sessão online?
Precisa, e a razão é clínica, não de etiqueta. Boa parte do que se comunica numa sessão online está no que o rosto faz enquanto a frase é dita, na hesitação antes de uma palavra, no desvio de olhar, no sorriso que aparece contando algo triste. Isso tudo é material de trabalho. Existe uma exceção respeitada aqui. Em certos momentos, dizer algo muito difícil fica mais fácil sem ser vista, e nesse caso basta avisar.
Dá para fazer a sessão online segurando o celular na mão?
O celular funciona bem, desde que fique apoiado em algo firme, na altura aproximada do rosto, e não na mão. Segurar o aparelho por cinquenta minutos cansa o braço e produz uma imagem que balança o tempo todo. Além do cansaço físico, a mão ocupada tira algo que importa, os gestos. No consultório as pessoas gesticulam, mexem no anel, cruzam os braços, e esses movimentos dizem coisas.
O que fazer quando não é possível garantir as condições mínimas de privacidade e conexão para a sessão online?
Existem situações em que essas condições mínimas não se sustentam, e insistir no online seria fingir que está tudo bem. Uma sessão em conexão ruim, num lugar sem privacidade, com interrupção a cada dez minutos, é uma sessão prejudicada. Nesses casos, o presencial costuma ser mais indicado.
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