Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

O narcisismo na psicanálise: o que a teoria desvenda

O narcisismo na psicanálise intriga e encanta tanto os leigos quanto os profissionais de saúde mental.

O narcisismo é um assunto complexo, mas geralmente mal compreendido e simplificado na cultura popular. Para a psicanálise, envolve muitas camadas, por isso, merece ser investigado de maneira mais profunda.

Neste post procurei explorar o narcisismo na psicanálise, desdobrando as origens, as manifestações e as implicações do conceito, na leitura de Freud e nas que vieram depois dele.  

Narcisismo na psicanálise: além das questões patológicas

Antes de me aprofundar neste tema, é importante estabelecer uma clara distinção entre o narcisismo como conceito psicanalítico e o Transtorno de Personalidade Narcisista, que é uma condição psiquiátrica específica.

O contrário do que se entende popularmente sobre narcisismo, para a psicanálise, o termo não tem relação direta com um quadro de transtorno de personalidade narcisista. Na verdade, no olhar psicanalítico o termo narcisismo tem outra conotação. É considerado parte muito importante do desenvolvimento da mente humana. Sigmund Freud explicou isso em seu ensaio “Sobre o Narcisismo: Uma Introdução” (1914). Ele trouxe o conceito psicanalítico de narcisismo, que aponta como sendo uma fase normal do desenvolvimento psíquico de todos nós.

Mulher refletida em espelhos, com jogo de luz e sombra

Ele sugeriu que todas as pessoas passam por uma fase inicial de narcisismo na infância em que se concentram totalmente em si mesmas emocionalmente e esse processo é fundamental para estabelecer uma identidade coesa e construir a autoestima necessária para o desenvolvimento pessoal posteriormente.

O narcisismo na psicanálise, na forma posterior, surge quando a energia libidinal inicialmente direcionada para outras pessoas é redirecionada para o próprio Eu.  Esse processo pode ser vivenciado em diferentes momentos ao longo da vida adulta, desde conquistas pessoais até períodos de recuperação de enfermidades ou traumas.

As origens freudianas do narcisismo na psicanálise

Para compreender o conceito de narcisismo na psicanálise, é preciso voltar às raízes freduanas. Freud argumentava que o narcisismo na psicanálise representava uma fase intermediária entre o autoerotismo e o amor por objetos. Ele enxergava o narcisismo como um reservatório de libido do qual derivavam os investimentos emocionais em objetos e para onde poderiam retornar.  Freud também introduziu o conceito do “ideal do ego", uma estrutura psicológica que representa a aspiração do indivíduo para aquilo que deseja ser. Esse ideal é formado pela internalização das expectativas dos pais  da sociedade,e atua como um padrão com o qual o ego se compara.

O narcisismo na psicanálise, nesse contexto, é entendido como o amor do Ego em relação a esse ideal.

Além de Freud, considerações pós-freudianas

Depois de Freud, vários psicanalistas ampliaram e retrabalharam o conceito de narcisismo na psicanálise.

Heinz Kohut desenvolveu a Psicologia do Self com ênfase no papel central do narcisismo no desenvolvimento psicológico humano.

Kohut considerava o narcisismo uma energia vital, que deveria ser integrada de maneira saudável na formação da personalidade, não um obstáculo a ser superado.

Por outro lado Otto Kernberg se concentrou nos aspectos patológicos do narcisismo em suas pesquisas.

Ele identificou e detalhou o perfil da “personalidade narcísica", caracterizada por sentimentos exacerbados de grandiosidade e necessidades excessivas por admiração, assim como, pela falta de empatia para com os outros.

A teoria de Kernberg sugere que essa condição surge de deficiências no desenvolvimento inicial da pessoa e sua capacidade de integrar as representações positivas e negativas de si mesmo e dos outros indivíduos.

André Green introduziu os conceitos de “narcisismo da vida” e “narcisismo da morte", onde o primeiro envolve um investimento saudável em si mesmo e o segundo descreve uma retirada defensiva e autodestrutiva.

O narcisismo na contemporaneidade

No contexto atual da cultura digital, o narcisismo assume novas formas e manifestações.

As plataformas online voltadas para interações sociais têm sido apontadas frequentemente como impulsionadoras do comportamento narcísico por sua ênfase na autopromoção e na busca por validação externamente.

Christopher Lasch discutiu em profundidade essas questões em seu renomado livro “A Cultura do Narcisismo", escrito em 1979 argumentando que a cultura contemporânea encoraja e recompensa características narcísicas embora suas reflexões tenham sido feitas antes da ascensão das redes sociais suas ideias sobre a obsessão da sociedade, com a imagem pessoal e o sucesso individual parece ainda mais pertinente na atualmente.

O narcisismo e o culto ao corpo

O culto ao corpo é um fenômeno bem atual, e também pode ser analisado pela perspectiva do narcisismo.

A busca incessante por um corpo considerado "ideal" pode ser vista como uma expressão do ideal do ego, o conceito freudiano em que o corpo passa a ser objeto de um investimento narcísico intenso.

O narcisismo nos relacionamentos: o desafio da interação

Um dos aspectos mais complexos relacionados ao narcisismo prejudicial, que é o patológico, está ligado aos seus impactos nos laços interpessoais.

Aqueles com traços narcisistas acentuados frequentemente enfrentam dificuldades ao estabelecerem relacionamentos saudáveis baseados na reciprocidade genuína.

A psicanálise contemporânea destaca a importância da intersubjetividade e fornece um importante olhar sobre como o narcisismo influencia as relações interpessoais.

Teorias de estudiosos como Jessica Benjamin enfatizam que o reconhecimento mútuo desempenha um papel muito importante no desenvolvimento saudável da psique e que falhas nesse processo podem resultar em padrões relacionais narcisistas.

A relação entre o que se reprime e a angústia que aparece depois segue sendo estudada na psicanálise brasileira, como neste artigo da revista Fractal, da UFF.

Como reconhecer o traço narcísico sem virar diagnóstico de internet

A palavra virou rótulo. Hoje qualquer pessoa difícil é chamada de narcisista numa conversa de mesa, e isso atrapalha bastante, porque esconde a diferença entre um traço e um transtorno.

O narcisismo na psicanálise é primeiro uma etapa do desenvolvimento, e depois um traço que todo mundo tem em alguma medida. Ele só vira questão clínica quando organiza a vida inteira em torno da própria imagem, ao custo das relações.

Alguns sinais aparecem com frequência em quem chega ao consultório por esse motivo:

  • Dificuldade grande de ouvir crítica, com reação desproporcional a um comentário pequeno
  • Necessidade constante de ser reconhecida, mesmo em situações que não pediam destaque
  • Relações que só duram enquanto a outra pessoa admira, e esfriam quando ela discorda
  • Sensação de vazio quando ninguém está olhando, ou quando falta plateia
  • Dificuldade de reconhecer o que o outro sente, principalmente quando isso exige abrir mão de algo

Reconhecer um ou dois desses sinais em si mesma não significa ter um transtorno, e é bom dizer isso com clareza. Significa que existe ali um ponto sensível, e um ponto sensível é exatamente o que a análise consegue trabalhar.

Vale reparar também no oposto, que é menos comentado. O narcisismo na psicanálise também aparece na pessoa que se anula, que precisa ser sempre a que ajuda, e que constrói a própria imagem em cima de nunca dar trabalho. Também aí a autoestima depende inteiramente do olhar do outro.

Diferenças entre o tratamento psicanalítico e o psiquiátrico

Tratar o narcisismo no âmbito da psicanálise envolve trabalhar a autoestima. Narcisismo primário e secundário são fases do desenvolvimento do ego, e no fim das contas é a autoestima que fica desse processo.

Já o narcisismo patológico, quando chega ao nível de um transtorno de personalidade, é catalogado como F60.8 na CID-10. Costuma pedir acompanhamento mais estruturado, às vezes com apoio psiquiátrico também, sobretudo quando há sintomas associados, como depressão ou ansiedade. Otto Kernberg, um dos autores que mais se dedicou a esse quadro, desenvolveu uma abordagem própria para ele, a psicoterapia focada na transferência, que segue sendo estudada.

Os obstáculos frequentes incluem a resistência à mudança, o contraste entre a aparente grandiosidade e a fragilidade do ego, e a dificuldade em estabelecer uma relação terapêutica estável. Esses obstáculos pedem mais tempo e mais paciência no processo.

Por isso, é importante ter em mente as diferenças entre o narcisismo patológico e o narcisismo no âmbito da psicanálise.

No entanto, a psicanálise dispõe de ferramentas interessantes.

Para lidar com essas questões de forma eficiente é preciso considerar diversos aspectos psicológicos para o autoconhecimento profundo de cada indivíduo, com uma visão mais crítica em relação ao narcisismo associado à personalidade humana.

A reflexão sobre o narcisismo vai além de ser apenas um traço de personalidade indesejável, trata-se de um conceito essencial na psicanálise que nos leva a questionar a natureza do Ego, o desenvolvimento da identidade e os desafios das interações sociais e o nível de autoestima decorrente desse processo. 

Entender o narcisismo em suas diversas dimensões pode ser útil para navegarmos pelas nossas próprias emoções e relacionamentos de forma mais consciente.

Reconhecer nossas próprias características narcísicas ou lidar com o narciso do próximo pode algo bem difícil e com seus desafios, mas os ensinamentos da psicanálise oferecem uma orientação muito completa nesses momentos de incerteza emocional.

Se você se sente curioso sobre as complexidades do narcisismo ou como ele afeta sua vida diária, a terapia psicanalítica pode ajudar a entender melhor esse tema.

O processo analítico tem o potencial de revelar visões muito profundas a respeito de seus padrões psíquicos, colocando em perspectiva seu comportamento em relação aos outros. E contribui para a formação de um Ego mais coeso bem como relacionamentos mais gratificantes.

É importante ter em mente que o reflexo do narcicismo não precisa ser uma armadilha,  pois através de compreensão e terapia dedicada pode se transformar em uma oportunidade para uma existência mais plena e completa.

Para a origem do conceito e o percurso completo, veja Narcisismo - Do mito à mente.

Para a origem do conceito, do mito grego até Freud, veja narcisismo, do mito à mente.

Qual a diferença entre ter traço narcisista e ter transtorno narcisista de personalidade?

Todo mundo tem traços narcisistas em alguma medida, isso faz parte do desenvolvimento normal. O traço só vira questão clínica quando organiza a vida inteira em torno da própria imagem, ao custo das relações. Chamar qualquer pessoa difícil de "narcisista" numa conversa esconde essa diferença entre um traço comum e um transtorno de fato.

Para Kohut, o narcisismo é sempre um problema?

Não, para Heinz Kohut o narcisismo tem um papel central e saudável no desenvolvimento psicológico. Ele não via o narcisismo como um obstáculo a ser superado, mas como uma energia vital que precisa ser integrada de forma saudável na formação da personalidade.

O que caracteriza a personalidade narcísica, segundo Otto Kernberg?

Kernberg descreveu essa personalidade como marcada por sentimentos exacerbados de grandiosidade, necessidade excessiva de admiração e falta de empatia pelos outros, diferente da visão de Kohut, que focava mais nos aspectos saudáveis do narcisismo.

O que são o 'narcisismo da vida' e o 'narcisismo da morte', de André Green?

São dois conceitos que descrevem funcionamentos opostos. O narcisismo da vida envolve um investimento saudável em si mesmo, enquanto o narcisismo da morte descreve uma retirada defensiva e autodestrutiva, uma espécie de desligamento de tudo que poderia ferir.

O transtorno de personalidade narcisista tem CID?

Tem. Na CID-10, é classificado como F60.8, dentro de "Outros transtornos específicos da personalidade". Na CID-11, que mudou o modelo de diagnóstico dos transtornos de personalidade, ele aparece de forma mais genérica, como transtorno de personalidade (6D10), porque a classificação nova não separa mais tipos fixos como narcisista, borderline ou histriônico, e sim níveis de gravidade e traços dominantes.

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Priscila Soares Falchi
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