Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

A ansiedade é uma experiência universal, que atinge pessoas de todas as idades, culturas e classes sociais. Ela pode se manifestar de diversas formas, desde uma leve inquietação até ataques de pânico paralisantes, interferindo na qualidade de vida e no bem-estar emocional.

Mas, afinal, o que causa a ansiedade?

Por que algumas pessoas são mais propensas a ela do que outras?

E, mais importante, como podemos encontrar alívio duradouro para esse sofrimento?

Como psicanalista e psicóloga tenho me debruçado nessas questões, as quais irei discutir no post de hoje.

Resumindo antes de entrar em cada peça, para a psicanálise, a ansiedade nasce do conflito entre três partes da mente. O id busca satisfação imediata, o superego cobra e julga, e o ego tenta mediar as duas coisas dentro dos limites que a realidade permite. Quando esse equilíbrio se rompe, geralmente porque um conflito da infância nunca foi resolvido de verdade, a ansiedade aparece como sinal de que alguma coisa pede atenção.

Mulher pensativa olhando pela janela, luz suave

Ansiedade sob o olhar da psicanálise

A psicanálise é uma teoria desenvolvida por Sigmund Freud no final do século XIX início do século XX, que oferece uma perspectiva diferenciada e reveladora sobre o estudo da mente humana. Entre os temas abordados podemos falar da ansiedade e de suas raízes. Sua teoria costuma ser explicada com a imagem de um iceberg: a parte consciente seria apenas a ponta visível, enquanto a vasta maioria de nossos pensamentos, desejos e medos está submersa no inconsciente.

A ansiedade é mais do que um sintoma aleatório

Segundo a teoria freudiana, a ansiedade não é um mero sintoma aleatório ou uma resposta exagerada a estressores externos, mas um sinal de que algo mais profundo está em desequilíbrio em nossa psique. Freud identificou três fontes principais de ansiedade, a ansiedade realística, que surge diante de ameaças reais do mundo externo; a ansiedade neurótica, que emana de conflitos entre o id (a parte primitiva e instintiva da mente) e o ego (a parte que lida com a realidade); e a ansiedade moral, que se origina do superego (a parte que incorpora os valores e a consciência moral).

O que causa esses conflitos internos que geram ansiedade?

Freud acreditava que grande parte de nossa vida mental ou psíquica é moldada por experiências e traumas da infância, especialmente aqueles relacionados ao desenvolvimento psicossexual.  

Segundo sua teoria, a personalidade se desenvolve ao longo de cinco fases psicossexuais, oral, anal, fálica, latente e genital. Em cada fase, a energia libidinal (energia psíquica ligada às pulsões) se concentra em uma zona erógena específica do corpo, e a forma como as necessidades e desejos da criança são atendidos ou frustrados em cada estágio pode ter um impacto duradouro em sua personalidade e em seu funcionamento emocional na vida adulta.

Na fase oral (0 a 18 meses), a principal fonte de prazer e interação com o mundo é através da boca. Na fase anal (18 meses a 3 anos), o foco muda para o controle dos esfíncteres e a criança deriva prazer da retenção e expulsão das fezes. Durante a fase fálica (3 a 6 anos), a criança descobre os prazeres associados aos órgãos genitais e desenvolve o complexo de Édipo. A fase de latência (dos 6 anos até a puberdade) é um período de relativa calmaria sexual, em que a criança se concentra no desenvolvimento de habilidades sociais e intelectuais. Por fim, na fase genital (puberdade em diante), o foco retorna à sexualidade, mas agora dirigido a parceiros fora da família.

Um conceito central nessa teoria é o complexo de Édipo, que se refere aos desejos amorosos e hostis que a criança desenvolve em relação aos pais durante a fase fálica (por volta dos 3 aos 6 anos).

De acordo com essas fases, um conceito central nessa teoria é o complexo de Édipo, que se refere aos desejos amorosos e hostis que a criança desenvolve em relação aos pais ou cuidadores durante a fase fálica (por volta dos 3 aos 6 anos). Nessa fase, a criança vivencia uma intensa atração pelo genitor do sexo oposto e uma rivalidade com o genitor do mesmo sexo. O menino, por exemplo, deseja a mãe e vê o pai como um rival, temendo a castração como punição por seus desejos proibidos. Já a menina, inicialmente ligada à mãe, volta-se para o pai como objeto de desejo, desenvolvendo inveja do pênis e ressentimento em relação à mãe.

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Mas como isso se relaciona com a ansiedade?

Embora esses desejos edípicos sejam normais e universais, eles também são fonte de intensa ansiedade e culpa, pois a criança teme a rejeição e a punição dos pais. Para lidar com essa ansiedade, o ego utiliza mecanismos de defesa, como o recalque (o "esquecimento" de memórias e desejos ameaçadores), a projeção (atribuir a outros os próprios sentimentos inaceitáveis) e a formação reativa (adotar atitudes opostas aos verdadeiros desejos reprimidos).

No entanto, quando esses conflitos não resolvidos podem continuar a influenciar nossa vida emocional na idade adulta, manifestando-se como sintomas neuróticos, dificuldades nos relacionamentos e, claro, ansiedade.

A ansiedade adulta pode ser um eco dessas antigas batalhas inconscientes, um sinal de que ainda estamos tentando conciliar nossos desejos mais primitivos com as exigências da realidade e da moralidade.

Conflitos internos e ansiedade

Outro conceito fundamental na teoria freudiana é a divisão da mente em três instâncias, o id, o ego e o superego. O id é a parte mais primitiva e instintiva, regida pelo princípio do prazer e buscando gratificação imediata. O ego é a parte que media entre as demandas do id e as restrições da realidade, buscando satisfazer os impulsos de forma socialmente aceitável. Já o superego é a instância moral, que internaliza as regras e valores da sociedade, punindo o ego com sentimentos de culpa quando essas normas são transgredidas.

Como surge a ansidedade

A ansiedade surge justamente do conflito entre essas três instâncias. Quando os desejos do id ameaçam irromper na consciência, o ego aciona mecanismos de defesa para mantê-los sob controle, gerando ansiedade no processo. Quando o superego é muito rígido e punitivo, o ego pode se sentir constantemente inadequado e culpado, levando a uma ansiedade moral crônica.

Freud também destacou o papel das pulsões na dinâmica da ansiedade. As pulsões são forças libidinais e biológicas poderosas que nos levam a buscar gratificação e evitar o desprazer. Ele identificou duas pulsões básicas, a pulsão de vida (Eros), que engloba os impulsos de autopreservação, sexualidade e criatividade; e a pulsão de morte (Tânatos), que se manifesta como agressividade, destrutividade e uma tendência ao retorno ao estado inorgânico.

Quando essas pulsões entram em conflito entre si ou com as demandas da realidade externa, a ansiedade pode surgir como um sinal de alerta. Por exemplo, se a pulsão sexual é excessivamente reprimida devido a tabus sociais ou traumas precoces, ela pode encontrar expressão disfarçada em sintomas de ansiedade, como fobias ou obsessões.

Outro conceito importante na teoria freudiana é a fixação, que ocorre quando a energia libidinal (a energia psíquica ligada às pulsões) fica presa em uma fase específica do desenvolvimento psicossexual. Se a criança experimenta frustrações ou gratificações excessivas em uma determinada fase (oral, anal, fálica, latente ou genital), ela pode ficar fixada nesse estágio, influenciando sua personalidade e seus padrões de relacionamento na vida adulta.

Por exemplo, uma pessoa com fixação oral pode desenvolver traços de personalidade como dependência, passividade e uma tendência a buscar conforto através da alimentação ou do tabagismo. Já uma fixação anal pode se manifestar como rigidez, obstinação e uma preocupação excessiva com limpeza e controle. Essas fixações podem contribuir para a ansiedade, pois o indivíduo pode sentir-se inadequado ou incapaz de lidar com as demandas da vida adulta.

A psicanálise como espaço para tratar a ansiedade

A psicanálise oferece um espaço seguro e acolhedor para explorar esses conflitos inconscientes e trazer à luz os conteúdos reprimidos e recalcados que alimentam a ansiedade. Através da associação livre (falar livremente o que vier à mente), da interpretação dos sonhos (que são vistos como realizações disfarçadas de desejos reprimidos) e da análise da transferência (os sentimentos que o paciente projeta no analista), o indivíduo pode gradualmente confrontar e elaborar esses aspectos ocultos de si mesmo.

Ao fazer isso, a pessoa pode começar a se libertar dos padrões antigos e limitantes que perpetuam a ansiedade. Ela pode desenvolver um senso mais integrado e compassivo de si mesma, aprendendo a aceitar e lidar com seus desejos e emoções conflitantes de maneira mais saudável.

A psicanálise não promete eliminar completamente a ansiedade - afinal, certo grau de ansiedade é normal e até mesmo necessário para nos impulsionar a agir e crescer. Mas ela oferece ferramentas para transformar a relação com a ansiedade, tornando-a mais manejável e menos paralisante.

Quanto tempo dura um tratamento psicanalítico contra ansiedade?

No entanto, é importante lembrar que a jornada psicanalítica não é um processo rápido ou fácil. Desvendar as complexidades do inconsciente requer tempo, comprometimento e coragem para enfrentar verdades desconfortáveis sobre si mesmo. Mas para muitas pessoas que sofrem com ansiedade persistente e aparentemente irracional, a psicanálise oferece uma via de profunda cura e transformação.

Quando trazemos à luz as raízes ocultas da ansiedade, a psicanálise nos lembra que nossos sintomas têm um significado e um propósito. Eles são mensageiros do inconsciente, convidando-nos a embarcar em uma jornada de autodescoberta e crescimento. Com o apoio de um psicanalista experiente e empático, é possível desvendar os mistérios da própria mente e encontrar um novo senso de liberdade e autenticidade.

Na prática, não existe prazo fixo nem promessa de data para acabar. Cada pessoa segue no próprio ritmo, e o formato mais comum é a sessão semanal. O tempo total varia com a profundidade do conflito que sustenta a ansiedade, algumas pessoas encontram alívio real em poucos meses, enquanto outras seguem por anos elaborando camadas mais antigas. O que se acompanha ao longo do caminho é a redução real do sofrimento, não um prazo marcado no calendário.

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Outras estratégias na luta contra a ansiedade

É claro que a psicanálise não é a única abordagem para lidar com a ansiedade. Outras formas de psicoterapia, como a terapia cognitivo-comportamental (TCC), também podem ser eficazes na redução dos sintomas e na promoção de estratégias de enfrentamento mais saudáveis. Além disso, mudanças no estilo de vida, como a prática regular de exercícios físicos, técnicas de relaxamento e uma alimentação equilibrada, podem desempenhar um papel importante no manejo da ansiedade.

No entanto, para aqueles que buscam uma compreensão mais profunda de si mesmos e dos padrões emocionais que os governam, a psicanálise propõe uma jornada única e transformadora. Mergulhar nas profundezas do inconsciente, torna possível encontrar as chaves para desbloquear o verdadeiro potencial e alcançar uma maior sensação de paz interior e bem-estar emocional.

Portanto, se você está lutando contra a ansiedade e se sente preso por medos e preocupações aparentemente incontroláveis, considere explorar o fascinante e revelador mundo da psicanálise. Lembre-se de que você não está sozinho nessa jornada, e que há esperança e cura disponíveis para aqueles que estão dispostos a enfrentar seus demônios internos e abraçar seu verdadeiro eu.

A ansiedade pode ser um adversário formidável, mas com as ferramentas certas e o apoio adequado, é possível superá-la e viver uma vida mais plena, autêntica e livre do sofrimento emocional. A psicanálise oferece um caminho para essa libertação, iluminando as partes mais sombrias da psique e revelando a beleza e o potencial que residem dentro de cada um de nós.

Então, se você está pronto para embarcar nessa jornada de autodescoberta e cura, encontre um psicanalista qualificado e comece a explorar as profundezas do seu inconsciente. Com coragem, compaixão e um compromisso inabalável com o crescimento pessoal, você pode emergir do outro lado mais forte, mais sábio e mais capaz de enfrentar qualquer desafio que a vida possa trazer.

A chave para a libertação da ansiedade está dentro de você.

A psicanálise é o mapa que pode guiá-lo nessa jornada, mas é você quem deve dar os passos corajosos em direção à cura e à autorrealização. Confie no processo, confie em si mesmo e esteja aberto para as surpresas e revelações que surgirão ao longo do caminho. A jornada pode ser desafiadora, mas os frutos da autodescoberta e da cura emocional valem cada esforço.

À medida que você se aprofunda no processo psicanalítico, pode descobrir que a ansiedade não é um inimigo a ser combatido, mas um guia valioso que o conduz a partes de si mesmo que precisam de atenção, cuidado e integração. Ao abraçar sua ansiedade com curiosidade e compaixão, você pode transformar sua relação com ela e encontrar uma nova fonte de força e resiliência interior.

Lembre-se também de que a psicanálise não é uma panaceia mágica que irá curar todos os seus problemas da noite para o dia. É um processo gradual e orgânico de crescimento e transformação, que requer paciência, dedicação e um compromisso de longo prazo com seu bem-estar emocional. Mas com o tempo e a prática, você pode desenvolver uma compreensão mais profunda de si mesmo e de suas lutas, bem como estratégias mais eficazes para lidar com a ansiedade e outros desafios emocionais.

Além disso, é importante lembrar que a psicanálise não é uma jornada solitária. Seu psicanalista é um parceiro valioso nesse processo, oferecendo orientação, apoio e um espaço seguro para explorar seus pensamentos e sentimentos mais profundos. Não tenha medo de ser honesto e autêntico em suas sessões, pois é através dessa abertura e vulnerabilidade que as verdadeiras transformações podem ocorrer.

Ao longo do caminho, você também pode descobrir que a psicanálise tem um impacto positivo em outras áreas de sua vida, além da ansiedade. À medida que você desenvolve uma compreensão mais profunda de si mesmo e de suas motivações inconscientes, pode encontrar uma nova clareza e propósito em seus relacionamentos, carreira e objetivos pessoais. Você pode se tornar mais autêntico, assertivo e alinhado com seus valores mais profundos, criando uma vida que seja verdadeiramente significativa e gratificante.

Você está pronto(a) para descobrir as raízes da sua ansiedade?

Portanto, se você está pronto para embarcar na jornada psicanalítica e descobrir as raízes profundas da sua ansiedade, saiba que está dando um passo corajoso e transformador em direção à cura emocional e ao crescimento pessoal. Com as ferramentas oferecidas pela psicanálise, você pode desvendar os mistérios do seu inconsciente, abraçar seu verdadeiro eu e criar uma vida livre da ansiedade paralisante.

Lembre-se de que você tem a força, a sabedoria e a resiliência necessárias para superar qualquer desafio que a vida possa trazer. A psicanálise é um farol que pode iluminar o caminho, mas é você quem deve dar os passos corajosos em direção à mudança e à cura. Confie no processo, confie em si mesmo e esteja aberto para as possibilidades infinitas de crescimento e transformação que aguardam você.

Que sua jornada psicanalítica seja repleta de descobertas e libertação emocional. E que você possa se reerguer do outro lado mais forte, mais sábio e mais capaz de viver a vida plena e que você merece.

Reconhecer o conflito que sustenta a própria ansiedade é o que realmente muda o quadro, e a psicanálise funciona como o espaço que ajuda a chegar lá.

A relação entre o que se reprime e a angústia que aparece depois segue sendo estudada na psicanálise brasileira, como neste artigo da revista Fractal, da UFF.

Cada aspecto da ansiedade, em detalhe

Escrevi separadamente sobre cada mecanismo que aparece resumido aqui. Se algum deles chamou sua atenção, vale ler com calma:

O que causa a ansiedade, segundo a psicanálise?

Para a psicanálise, a ansiedade nasce do conflito entre três partes da mente: o id busca satisfação imediata, o superego cobra e julga, e o ego tenta mediar as duas coisas dentro dos limites que a realidade permite. Quando esse equilíbrio se rompe, geralmente porque um conflito da infância nunca foi resolvido de verdade, a ansiedade aparece como sinal de que alguma coisa pede atenção.

Quanto tempo dura um tratamento psicanalítico contra ansiedade?

Não existe prazo fixo nem promessa de data para acabar. Cada pessoa segue no próprio ritmo, com sessões geralmente semanais, e o tempo total varia com a profundidade do conflito que sustenta a ansiedade: algumas pessoas encontram alívio real em poucos meses, enquanto outras seguem por anos elaborando camadas mais antigas.

Quais são as três instâncias da mente, segundo Freud, e o que cada uma faz?

São o id, o ego e o superego. O id é a parte mais primitiva e instintiva, regida pelo princípio do prazer. O ego media entre as demandas do id e as restrições da realidade, buscando satisfazer os impulsos de forma socialmente aceitável. Já o superego é a instância moral, que internaliza as regras e valores da sociedade, punindo o ego com culpa quando essas normas são transgredidas.

O que são Eros e Tânatos, as duas pulsões descritas por Freud?

Eros, a pulsão de vida, engloba os impulsos de autopreservação, sexualidade e criatividade. Tânatos, a pulsão de morte, se manifesta como agressividade, destrutividade e uma tendência ao retorno a um estado inorgânico. Freud via as duas convivendo em praticamente toda decisão humana.

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