Priscila Soares Falchi, psicóloga e psicanalista em Santo André

Psicanálise e marketing parecem áreas distintas, mas como psicanalista e profissional de marketing, tenho me fascinado pelas interseções entre elas. Ao longo da minha jornada acadêmica e profissional, percebi que essas duas áreas compartilham mais pontos em comum do que se pode imaginar à primeira vista. Ambas buscam a compreensão pelas motivações humanas, os desejos inconscientes e os processos de tomada de decisão de compra de um produto ou serviço.

As Interseções entre a Ciência Mercadológica e a Abordagem psicanalítica

Neste artigo, quero compartilhar com vocês algumas das conexões que tenho observado entre psicanálise e marketing, e como essa conexão pode nos ajudar a criar estratégias de marketing mais eficazes nas empresas.

O Inconsciente do Consumidor

Um dos conceitos mais importantes da teoria psicanalítica é a noção do inconsciente, a ideia de que grande parte da nossa vida mental acontece fora da nossa consciência, e continua influenciando comportamento e decisões mesmo sem percebermos. No marketing, isso aparece direto nas decisões de compra, que raramente são só racionais.

Já escrevi um artigo inteiro sobre o inconsciente do consumidor, explorando os mecanismos de defesa e os desejos inconscientes por trás das escolhas de quem compra.

Desejos e Motivações do Consumidor

Outro conceito-chave da psicanálise que tem aplicações significativas no marketing é a teoria das pulsões. Freud propôs que o comportamento humano é impulsionado por duas pulsões principais, a pulsão de vida (Eros), que busca prazer, conexão e crescimento, e a pulsão de morte (Tânatos), que busca a redução da tensão e o retorno a um estado inanimado.

No contexto do marketing, podemos ver como essas pulsões se manifestam nos desejos e motivações dos consumidores.

A pulsão de vida pode ser observada no desejo por produtos e experiências que promovam o prazer, a autoexpressão e a conexão social. Por exemplo, a compra de roupas da moda, carros de luxo ou a participação em eventos sociais podem ser impulsionadas pela busca de prazer e aceitação social.

Por outro lado, a pulsão de morte pode ser vista na busca por produtos e serviços que ofereçam alívio do estresse, escapismo ou simplificação da vida. Por exemplo, o desejo por comida reconfortante, como chocolates e fastfood ou entretenimento escapista, como saltar de paraquedas ou esportes radicais, durante tempos de estresse, podem ser entendidos como uma manifestação da pulsão de morte.

As duas pulsões convivem em quase toda decisão de compra, só que em proporções diferentes. Uma campanha que promete "realização e conquista" fala com Eros; uma que promete "esqueça tudo por um instante" fala com Tânatos. Entender qual das duas está mais presente na dor daquele público muda o tipo de promessa que a comunicação deveria fazer.

Ao compreender as pulsões subjacentes que motivam o comportamento do consumidor, os profissionais de marketing podem criar produtos e campanhas que atendam a essas necessidades psicológicas profundas. Podemos desenvolver estratégias de marketing que apelem para o desejo de prazer e conexão dos consumidores, ao mesmo tempo em que oferecemos soluções para aliviar o estresse e a ansiedade.

Atendi uma cliente que trabalha com branding e vivia frustrada porque uma campanha tecnicamente perfeita não convertia. Quando aplicamos esse olhar de psicanálise e marketing à campanha, ficou claro que a comunicação apelava só para a pulsão de vida, o crescimento, a conquista, sem deixar espaço nenhum para a ambivalência que qualquer decisão de compra carrega. Bastou reconhecer essa tensão no texto para a campanha passar a converter mais.

Casal fazendo compras no supermercado, conferindo produtos pelo celular

Personalidade da Marca

Na psicanálise, a teoria do desenvolvimento psicossexual de Freud propõe que a personalidade é formada através de estágios de desenvolvimento, cada um associado a conflitos e tarefas psicológicas específicas. Essa ideia de que a personalidade é moldada por experiências e conflitos tem paralelos interessantes no mundo do marketing, particularmente no conceito de personalidade da marca.

Assim como os indivíduos têm personalidades distintas, as marcas também podem ter personalidades próprias que as diferenciam de seus concorrentes.

 A personalidade da marca refere-se ao conjunto de características humanas associadas a uma marca, como sinceridade, emoção, competência ou sofisticação. Essas personalidades de marca são formadas através de experiências cumulativas dos consumidores com a marca, assim como nossas personalidades são moldadas por nossas experiências de vida.

Um exemplo prático seria uma marca que se posiciona como sincera e acolhedora, que tende a usar linguagem simples e tom próximo, enquanto uma que aposta em sofisticação e competência investe em estética minimalista e discurso técnico. O consumidor não escolhe só o produto, escolhe também qual dessas personalidades combina com a imagem que ele quer projetar de si mesmo.

O uso de Arquétipos

Outra conexão interessante entre psicanálise e marketing é o uso de arquétipos, padrões universais e simbolicamente ricos que moram no inconsciente coletivo, conforme a teoria de Carl Jung. O Herói, o Sábio, o Explorador e outros arquétipos ajudam marcas a criar uma conexão emocional mais forte com quem consome.

Dediquei um artigo só aos arquétipos de marca, o sistema de 12 arquétipos organizado por Carol Pearson a partir da teoria de Jung, com exemplos reais de marcas que usam cada um.

Pesquisa de Mercado e o olhar Psicanalítico

Como profissional que atua tanto na psicanálise e marketing, acredito firmemente no poder da pesquisa de mercado para obter uma visão muito clara sobre os consumidores. No entanto, muitas vezes as abordagens tradicionais de pesquisa, como pesquisas e grupos focais, apenas arranham a superfície das motivações e desejos inconscientes dos consumidores.

É aqui que a psicanálise pode oferecer uma perspectiva única e enriquecedora. Ao aplicar técnicas e conceitos psicanalíticos à pesquisa de mercado, podemos entender mais a fundo a psique do consumidor e obter mais clareza e visão de algo que pode não ser acessível pelos métodos convencionais.

Uma abordagem promissora é a elaboração de pesquisas de mercado utilizando técnicas projetivas, testes, interpretação de expressões artísticas e associação livre de ideias. Essas técnicas, originalmente desenvolvidas na psicanálise, podem revelar associações inconscientes, emoções e motivações relacionadas a marcas, produtos ou categorias específicas.

Na prática, isso pode ser algo simples como pedir para o consumidor descrever a marca como se ela fosse uma pessoa numa festa, quem seria, como se vestiria, o que diria. A resposta costuma revelar mais sobre a percepção real da marca do que uma pergunta direta como "você gosta desta marca", porque tira a pessoa do modo racional de resposta esperada.

Além disso, a análise de discurso e a interpretação simbólica, fundamentais na prática psicanalítica, podem ser aplicadas outras técnicas à análise de dados qualitativos de pesquisa de mercado. Ao examinar a linguagem, as metáforas e as narrativas usadas pelos consumidores, é possível entender seus desejos inconscientes, medos e aspirações.

Ao incorporar um olhar psicanalítico à pesquisa de mercado, obtendo uma visão mais clara das motivações e vontades do consumidor, é possível desenvolver produtos, posicionamento da marca e as estratégias de comunicação que ressoam em um nível emocional profundo com o público-alvo.

Conclusão

Como psicanalista, psicóloga e consultora de marketing, acredito que psicanálise e marketing têm mais pontos de contato do que costuma parecer, e essa interseção oferece várias oportunidades relevantes para uma compreensão mais profunda do comportamento do consumidor. Ao aplicar conceitos psicanalíticos como a exploração do inconsciente, as pulsões e os arquétipos ao marketing, podemos criar estratégias e campanhas que ressoam melhor com os desejos e motivações mais profundas dos consumidores.

Nessa interseção entre psicanálise e marketing, é importante dizer que a aplicação deve ser feita de maneira ética e responsável. Como profissionais de marketing, temos a responsabilidade de usar esses conhecimentos para criar valor genuíno para os consumidores, não para manipular ou explorar suas vulnerabilidades psicológicas.

Além disso, a integração da psicanálise e marketing ainda está em sua infância, e há muito mais a ser explorado e descoberto. Na medida em que continuamos a explorar as complexidades da psique e sua relação com o comportamento do consumidor, novas ideias e aplicações devem continuar surgindo.

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Como Eros e Tânatos, as pulsões descritas por Freud, aparecem no comportamento de compra?

A pulsão de vida (Eros) aparece no desejo por produtos e experiências que promovem prazer, autoexpressão e conexão social, como roupas de moda ou carros de luxo. Já a pulsão de morte (Tânatos) aparece na busca por alívio do estresse, escapismo ou simplificação da vida, como o desejo por comida reconfortante ou entretenimento que ajuda a desligar. As duas convivem em quase toda decisão de compra, em proporções diferentes.

O que são técnicas projetivas na pesquisa de mercado?

São técnicas originalmente desenvolvidas na psicanálise, como testes, interpretação de expressões artísticas e associação livre de ideias. Aplicadas à pesquisa de mercado, elas podem revelar associações inconscientes, emoções e motivações que uma pesquisa tradicional ou um grupo focal dificilmente capturam.

O que é a personalidade de marca, na visão da psicanálise?

É o conjunto de traços humanos que uma marca projeta, de forma consistente, em tudo que comunica, do mesmo jeito que uma pessoa tem uma personalidade própria. Uma marca que se posiciona como sincera e acolhedora usa linguagem simples e tom próximo, enquanto uma que aposta em sofisticação investe em estética minimalista e discurso técnico.

Como os arquétipos de Jung ajudam uma marca a se conectar com o consumidor?

Os arquétipos são padrões universais que moram no inconsciente coletivo, segundo a teoria de Carl Jung, como o Herói, o Sábio e o Explorador. Quando uma marca se apropria de um desses padrões de forma consistente, ela cria uma conexão emocional mais forte com quem consome, porque fala a um símbolo que a pessoa já reconhece.

A leitura psicanalítica do consumo tem literatura própria no Brasil, como em A cultura do consumo, na revista Psicologia em Estudo.

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Priscila Soares Falchi
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